Caçula entre os grandes do estado, o São Paulo completa 90 anos de história neste sábado. O clube definiu em 2016 que sua data de criação seria 25 de janeiro de 1930 - não mais 16 de dezembro de 1935, como era considerado até então - e encerrou uma longa indefinição.
Desta vez, a festa fica mesmo apenas por conta do aniversário. Afinal, o time atravessa um incômodo jejum de títulos e vive crise técnica já há alguns anos. Fora de campo, a situação não é muito melhor, com o cenário de instabilidade financeira e política.
O panorama é bem diferente daquele que o torcedor são-paulino se acostumou, especialmente nos anos 80, 90 e 2000. Primeiro, com os “Menudos do Morumbi”, passando pelo histórico time de Telê Santana, até chegar à equipe multicampeã liderada por Rogério Ceni.
"O São Paulo nasceu em berço de ouro, devido à herança do Paulistano, em 1930, mas soube superar inúmeros desafios e crescer a partir do nada, com o apoio da sua torcida. Com a chegada de Leônidas da Silva, se estabeleceu como um grande no cenário nacional. Após o término da construção do Morumbi, colheu os frutos do planejamento com as inesquecíveis conquistas obtidas a partir dos anos 1970", argumenta o historiador do São Paulo, Michael Serra.
Mas se depois dos títulos da Copa Libertadores e do Mundial de Clubes, em 2005, e do tricampeonato brasileiro, em 2006, 2007 e 2008, o São Paulo ficou conhecido como “Soberano”, o que se vê hoje em dia é time e torcida desesperados por qualquer conquista. Afinal, desde o último troféu do Brasileirão, o torcedor tricolor celebrou apenas um título: a Copa Sul-Americana de 2012.
O motivo para uma seca tão incomum em meio a uma trajetória de tantas glórias parece unânime: desmandos em uma sucessão de corpos diretivos. De uma confusa reta final de Juvenal Juvêncio, passando pela desastrosa administração de Carlos Miguel Aidar, até o criticado Leco, o São Paulo nunca mais encontrou um comando estável.
O reflexo desta instabilidade é visto em campo. Desde o período vitorioso com Muricy Ramalho, entre 2006 e 2009, o São Paulo teve nada menos do que 20 treinadores. Veteranos como Emerson Leão e o próprio Muricy, apostas como Rogério Ceni e André Jardine, e até os estrangeiros Edgardo Bauza, Juan Carlos Osorio e Diego Aguirre, tudo foi tentado, mas sem grandes resultados.
Conselheiro vitalício número 1 e sócio número 15, José Acras, de 91 anos, viveu de perto boa parte da trajetória do clube. E com a sabedoria que adquiriu ao longo destes anos, considera o mau momento do São Paulo “normal”, apesar de lamentar o comportamento de alguns jogadores.
“É uma fase que todos os clubes têm. Culpar só a diretoria é lorota. Quem tem que ganhar é o jogador”, analisa. “O jogador tem uma mordomia que não dá para entender como não joga bola. Depois, vai embora. Não tem vínculo. Todos os clubes são obrigados a vender atletas, não dá para formar time. Se me falar a escalação do São Paulo hoje, capaz de eu não saber. Se me perguntar a dos anos 30, 40, 50, eu sei de cor. Hoje, tem muito dinheiro envolvido.”
O fato é que a aposta são-paulina agora é em Fernando Diniz. Assim como os outros, porém, ele tem contra si a pressão pelo jejum de títulos, uma diretoria que parece não saber o que quer e uma torcida impaciente, irritada com os seguidos erros do clube. Para fugir deste cenário, os exemplos dos rivais paulistas podem mostrar sucessos e decepções no aniversário de 90 anos.
Confira como foi o aniversário de 90 anos dos outros grandes de São Paulo:
Corinthians – Primeiro dos quatro grandes paulistas a completar nove décadas, o Corinthians viveu o céu e o inferno em 2000. O ano começou com o maior título da história do clube até então, o Mundial de Clubes, já em janeiro, mas seguiu com a traumatizante queda nas semifinais da Libertadores para o Palmeiras, nos pênaltis.
A torcida protestou e invadiu o Pq. São Jorge, o que resultou na saída de vários nomes. Com o elenco fragilizado, o Corinthians foi penúltimo na Copa João Havelange e só não caiu porque não havia rebaixamento naquela competição. Naquele ano, ainda amargou eliminações na primeira fase do Rio-São Paulo e da Mercosul, nas oitavas da Copa do Brasil e nas semifinais do Campeonato Paulista.
Santos – Para o Santos, o ano do 90º aniversário foi o inverso. Em crise financeira, o clube viu medalhões como os zagueiros Válber e Galván, o meia Marcelinho Carioca e o atacante Viola saírem no início de 2002. O time não deu liga e o resultado no primeiro semestre foi uma eliminação na primeira fase da Liga Rio-São Paulo e outra na segunda fase da Copa do Brasil.
Em crise e sem dinheiro, o clube apostou em Emerson Leão para liderar um elenco de promessas. O começo não foi fácil e a classificação às quartas do Brasileirão veio na última rodada. Mas os garotos engrenaram, eliminaram São Paulo e Grêmio e bateram o Corinthians na decisão para a conquista histórica, encerrando o jejum de títulos que já durava desde 1984.
Palmeiras – Para o Palmeiras, a temporada de 90º aniversário foi de renascimento. Depois do rebaixamento em 2002 e do título da Série B em 2003, o clube voltava a conviver com os grandes em 2004 e precisava provar que ali era seu lugar. E o começo não foi dos melhores. No Campeonato Paulista, a eliminação veio nas semifinais diante do surpreendente Paulista de Jundiaí.
Na Copa do Brasil, nova queda diante de uma zebra, o Santo André, nas quartas. No Brasileirão, porém, a campanha foi acima do esperado. Liderada por nomes como Marcos, Magrão, Lúcio e Pedrinho, a equipe terminou na quarta colocação e garantiu o retorno à Libertadores no ano seguinte.
