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Corinthians: campeão mundial em 2000, Gilmar Fubá teve previsão de seis meses de vida e venceu câncer

Faltavam menos de 24 horas para o Corinthians encaminhar a lista de inscritos para o primeiro Mundial de Clubes organizado pela Fifa e Gilmar Fubá tinha certeza que não estaria nela. Há algumas semanas a renovação contratual dele com o clube se arrastava. Até que viu a lista, e ele constava lá como o camisa 23. Como?

"Foi o que eu fui perguntar ao Nei Nujud, ele era o diretor. Eu tô sem contrato e vou jogar o Mundial? Ele disse: 'Você não confia em mim?'. Confio né, eu respondi. 'Então, fica tranquilo. Você vai pro Mundial e depois tratamos da renovação", relembrou Fubá para a ESPN 20 anos depois daquela conquista.

Parecia muito para o volante de 24 anos, criado no bairro de São Mateus, na zona leste de São Paulo, e forjado para o futebol no terrão do Parque São Jorge.

Até aquele momento suas maiores glórias resumiam-se a participação nos títulos brasileiros de 1998 e 1999. No primeiro era titular e se machucou justamente no penúltimo jogo. No segundo, já reserva, foi escolhido para começar a partida decisiva, vestindo a camisa 9 de Luizão, então suspenso.

A importância dele, porém, ia além do que o torcedor corintiano podia ver nas quatro linhas. Fubá era o cara que ajudava a manter a harmonia no elenco. Era o sujeito de todas as tribos, amigo de todos e dono das histórias mais irreverentes e mais malucas. Até hoje não consegue contar algo sem fazer graça.

"Tudo que acontecia no Corinthians era culpa minha. Se fazia isso, era o Fubá. Se fazia aquilo, era o Fubá. Nego cagava no sapato do outro, era o Fubá. A verdade é que 99% das vezes eles estavam certos. Eu era realmente o culpado", disse, aos risos.

Corintiano apaixonado, o volante queria estar jogar o Mundial de qualquer forma. Topou até estar na competição sem seguro, ou seja, sem garantia caso se machucasse.

"É difícil você confiar só na palavra, ainda mais no meio do futebol. A gente até brinca que o único lugar que o cara honra a palavra é na cadeia porque lá não tem pra onde ele correr", disse, aos risos. "Mas o Nei era um diretor diferente. Fui só porque ele garantiu. E não me arrependi".

Gilmar ficou no banco de reservas nos três jogos da fase inicial, todos no estádio do Morumbi. Assistiu as vitórias contra o Al Nassr, da Arábia Saudita, na estreia do torneio, e contra o Raja Casablanca, do Marrocos, na terceira rodada. E sofreu muito no empate com o Real Madrid por 2 a 2.

Naquele dia, Edílson fez dois gols, um deles após dar uma "caneta" no volante francês Karembeu, e Dida defendeu pênaldi batido pelo francês Anelka.

"A gente nunca tinha enfrentado um time daquela grandeza. Digo o próprio Corinthians. Ficamos no mesmo hotel. Os jogadores passavam e a gente ficava olhando. Depois o Roberto Carlos veio com história de que ele vieram de férias. Mentira! Estavam concentrados. Queriam ganhar. Tanto que estavam brigando quando acabou o jogo", disse.

Cotovelada e pênalti

Quis o destino que Fubá participasse da final. Ele jogou os 30 minutos da prorrogação contra o Vasco, algo que nem ele contava.

"Acabou o jogo e antes de começar a prorrogação o Oswaldo gritou: 'Gilmar, vai aquecer'. O Vampeta, um dos caras que menos jogos ficou fora, sentiu o tornozelo... E agora? Oswaldo mandou eu fazer o que eu sabia. Ficar na cabeça da área e liberar Rincón e Edu para atacar. Eu fiquei marcando o Edmundo", relembrou.

A tarefa foi mais díficil do que o previsto e muito dolorosa.

"Ele ficou me dando porrada o tempo inteiro, me chamando de juvenil. Me acertou uma cotovelada que abriu meu supercílio, mas nem senti nada na hora. Depois do jogo tive até que fazer um curativo, mas tudo bem. Eu não deixei ele em paz", disse Gilmar.

"Você olhava a cara do Romário, do Edmundo, os caras queriam ganhar de qualquer jeito. Você via os caras na subida do vestiario gritando: 'Nós temos que ganhar isso'. E o Eurico gritando, exigindo a vitória a qualquer custo", disse.

Gilmar Fubá pode não ter sentido medo de Romário e Edmundo, ou Viola, Ramon, que faziam parte do estrelado time vascaíno, mas houve que algo o fez tremer naquele 14 de janeiro de 2000: a decisão por pênaltis.

Ele relatou que não desejava ser um dos cobradores. Não fez parte da lista dos cinco escolhidos pelo técnico Oswaldo de Oliveira, mas havia uma surpresa.

"Oswaldo falou: 'Você bate o sexto!'. Eu nunca tinha batido pênalti na vida nem mesmo no Vai Quem Qué de São Mateus! Eu tinha medo. Imagina a responsabilidade, minhas pernas tremiam, eu suava. Então, em questão de minuto, decidi que quando chegasse a minha vez eu pediria um Eno [antiácido] pro ropeiro. Era só jogar na boca, pegar um pouco d'água. Aí vou começar a espumar, vou cair no gramado e vou sair na ambulância. Vou embora. Não vou bater...", disse, aos risos.

Mas Gilmar Fubá não precisou de nenhuma loucura. Apesar de Marcelinho Carioca ter perdido a quinta cobrança para o Corinthians, Edmundo chutou para fora a última chance do Vasco. Assim, a equipe paulistana triunfou por 4 a 3 nas penalidades e faturou o Mundial de Clubes.

"Quando o Edmundo bateu e perdeu, os caras me levantaram gritando 'É campeão, é campeão!' Eu falei: 'Campeão o caramba, quero comemorar que não bati o pênalti'".

Vitória contra o câncer

Vinte anos depois daquela conquista marcante, Gilmar Fubá tem mais do que lembranças do título mundial para festejar. Está na fase final do tratamento de um câncer muito raro. Uma vitória contra uma doença que costuma ser implacável. Algo que ele decidiu compartilhar.

"Antes eu não queria falar sobre isso. Não era o meu momento. Não queria que a imprensa usasse isso de forma sensacionalista. Agora eu estou pronto para falar e sei que minha luta pode ajudar outros que encontram-se na mesma situação", disse Gilmar, relembrando que uma luta que começou há quatro anos.

"Jogando pelo masters do Corinthians eu acabei quebrando o braço direito. Fiz três cirurgias e o osso não segurava a placa. Também começou a nascer uns caroços pelo corpo. Até que um dia eu fui internado com uma pneumonia muito forte e descobri que meus dois rins estavam parados", disse.

"O doutor Joaquim Grava me visitou e ficou surpreso: 'Como um negão forte assim, que caia, dava carrinho e já levantava pra outra quebrou os dois braços rapidamente e é internado com pneumonia?'. Aí ele ne aconselhou a fazer uma biopsia. E descobriram que eu tinha um câncer muito raro".

"O câncer é tão raro que inicialmente falaram que eu tinha um linfoma. 'O que é isso?', perguntei. A médica disse que era o mesmo câncer que o Edson Celulari e Reynaldo Gianecchini estavam tratando. 'Ah, então só dá em cara bonito, tô tranquilo', respondi", disse, aos risos.

"Passou um semana e ela me procurou para dizer que não era linfoma. 'Tá vendo, era muito bom para ser verdade. Isso só dá em cara bonito', respondi. Ela explicou que o que eu tinha se chama mieloma múltiplo. Fiz um exame chamado pet-scan. Descobrimos que da cintura para cima eu não tinha nenhum osso inteiro".

"O câncer já tinha comido tudo. A doença só não me matou porque eu era muito forte. A médica falou pro doutor Joaquim Grava que eu tinha seis meses de vida, mas ele não me avisou. Eu fiquei internado e fui recebendo visitas. Quem ia me ver imaginava que me veria debilitado, pra baixo, mas me encontrava feliz, brincalhão", revelou.

Talvez Gilmar Fubá não sabia, mas foi justamente a força mental que o ajudou a superar o duro diagnóstico e a enfrentar a doença.

"Todos os dias eu acordava e visitava os outros quartos do hospital. O médico dizia que eu não podia porque estava vunerável. Eu não queria saber. Eu ficava animando as pessoas. Paciente não tem que fazer fisioterapia? Então, eu ia de quarto em quarto chamando os pacientes, fazendo fila, mandando levantar as pernas, os braços".

"Tinha um senhor corintiano que até tinha viajado para o Japão para ver o Corinthians ser campeão mundial em 2012. Ele ficou sabendo que eu estava no hospital e quis me conhecer. Ele me disse: 'Será que vou ver o Corinthians campeão de novo?'. Eu falei: 'Se você ficar deitado nessa cama não vai, irmão. Vamos levantar'. Aí a esposa dele disse que ele não andava querendo comer. Eu briguei: 'Você tá doente, tá fraco e não quer comer? Tem de comer, se alimentar. Pode sair da cama'".

Não teve um dia que Gilmar Fubá tenha se entregado. Todos os dias manteve-se firme, animado e forte mentalmente. Contrariou a previsão médica. Sorridente, hoje conta o que todos os amigos queriam ouvir: "Eu venci o câncer. Estou curado. Agora estou operando os braços que quebrei".

A maior lição que essa história deu para Gilmar foi a de encarar os problemas, não se abalar e ser grato ao que tem e aos amigos que ajudaram.

"Todo tempo que tenho, eu quero estar com a minha família, quero estar com amigos que me ajudaram, como o Andrés, o Yamada, o Nei, o doutor Joaquim Grava, e o Corinthians, que é a razão disso tudo", disse o ex-jogador, que vem trabalhando justamente pelo futuro do clube do Parque São Jorge.

Gilmar Fubá faz parte do departamento captação do clube. Com outros profissionais, ele busca talentos para a base alvinegra. Joias que possam ser trabalhadas, que possam ter a oportunidade de mudar de vida e trazer resultados esportivos ao Corinthians no futuro.

Um trabalho que prevê que dará frutos daqui a dois ou três anos. Então, vida longa, Gilmar Fubá!