Vittorio Medioli fala com sotaque, mas não economiza nos termos. Aos 68 anos, o italiano naturalizado brasileiro, novo CEO do Cruzeiro, foi direto e reto com o ESPN.com.br, quando falou do clube que foi "convocado" a administrar:
"O Cruzeiro faliu".
Expressões como "estou me matando", "é um fardo pesado", "o Cruzeiro precisa ser refundado", "Isso aqui é uma Torre de Babel" e "a situação é tenebrosa" saem com naturalidade da boca do empresário e prefeito de Betim, que lidera o processo de salvação da agremiação quatro vezes campeã brasileira e bicampeã da Copa Libertadores.
Ao mesmo tempo, ele sabe que a recuperação do Cruzeiro, e o próprio clube, na prática, só vão existir se a torcida embarcar no projeto. "Temos de deixar a chama acesa".
É Medioli, quem comanda o processo que apresentará propostas, em 25 de janeiro, para decidir como a Raposa vai tentar sair do buraco em que seguidas administrações temerárias colocaram o clube.
É por ação dele e de seu Núcleo Dirigente Transitório que o clube vai conseguir pagar R$ 1500 aos seus funcionários até o dia 2 de janeiro, referente a atrasos.
"Eu não vou apontar dedos, mas o que vemos aqui começou com algumas gestões anteriores", afirma, categórico. Vitorio tem pagado do bolso as despesas de dia-a-dia do clube, como água e pão, para o café dos funcionários.
Daqui um mês, o conselho deliberativo vai escolher como o clube vai sanar as dívidas que tem. Algumas coisas porém, independem desse referendo.
"Temos de reduzir as despesas em 70%", garante.
O já anunciado teto salarial de R$ 150 mil/mensais é decisão imutável, até mesmo para o ídolo Fábio, goleiro da equipe desde 2005, revelado pela equipe em 1999.
"Se o jogador receber R$ 500 mil, não adianta nem reduzir pela metade. Não temos orçamento para pagar", diz. "Infelizmente, isso vale para todos", reafirma, reiterando que, mesmo o teto, não será disseminado entre os jogadores.
"Uns dois ou três, no máximo", diz ele. "O orçamento caiu de R$ 380 milhões para R$ 80 milhões. Não há de onde tirar dinheiro".
O Cruzeiro vai chamar todos os jogadores contratados para renegociarem seus vínculos. Quem quiser ficar no Cruzeiro, vai ter que se adequar. Com os que não quiserem, haverá uma tentativa de acordo.
"Quem não chegar a acordo, talvez tenha de judicializar a questão. Porque não há de onde tirar dinheiro", diz Medioli.
"Aí, a gente vê o que a Justiça vai fazer. Porque se bloquear contas, não vai ter dinheiro", diz.
O dinheiro da venda de Arrascaeta, por exemplo, já foi sequestrado por credores.
CENTENÁRIO NA SÉRIE B E REFUNDAÇÃO
Dizer que Vittorio Medioli é pessimista seria menosprezar a varredura que ele e o Núcleo gestor de Transição estão fazendo no clube - em diversos aspectos.
Ainda que ele afirme, com todas as letras, que pode ser que o Cruzeiro comemore seu centenário na Série B, em 2021.
"Pode ser que sim. Vão ser dois anos de saneamento", diz. Como exemplo, ele toma o Flamengo e a Juventus de Turim. "É preciso fazer o dever de casa. O Flamengo fez e está onde está. A Juventus fez e ganhou nove italianos seguidos", compara.
Quando fala em refundação, Medioli fala sim no sentido literal, e cita o Parma, de sua cidade-natal, que recomeçou sua história a partir da Série D da Itália, até chegar de volta à elite.
Mas fala também de uma refundação moral. "Tem que colocar uma gestão sustentável, transparente. Tem que acabar com nepotismo, compadrio", brada.
"É preciso fazer uma assepsia", diz, inconformado com o fato de que nenhuma das 515 ações que precisavam ser tomadas, conforme indicado por uma auditoria, foi feita.
E de uma refundação empresarial. "Não tem aqui nenhuma política de cargos e contratações. Não tem recursos humanos. Não tem política de nada", afirma.
BOLSA
O otimismo só se aproxima de Vittorio quando ele fala do futuro. Por exemplo, ele vislumbra futuras e hipotéticas ações do Cruzeiro como muito atrativas para as Bolsas de Valores.
"Tenho certeza de que haverá adesão", diz. Até porque, mesmo em meio à bagunça em que o clube está, ele tem ouvido de empresários o desejo de contribuir financeiramente com o clube.
"Mas o clube não pode aceitar, porque as contas estão bloqueadas", conta ele. Às vezes, sem que o Cruzeiro saiba com antecedência, algumas são desbloqueadas aleatoriamente.
As duas alternativas que se oferecem - transformação do clube em S/A e criação de um fundo que será responsável pela gestão da dívida - parecem ser as alternativas mais palpáveis.
Dinheiro de TV, também não tem. As cotas dos próximos anos já foram adiantadas.
"Apenas em 2023, abrirá a brecha para renegociar o contrato do Pay-Per-View", revela.
MATERIAL ESPORTIVO
A renegociação do contrato com a Adidas é premente e, segundo o dirigente, é inclusive apoiada no próprio contrato.
"Há uma cláusula que diz que eles podem renegociar o contrato em caso de queda para a Série B. Só queremos a reciprocidade", diz.
Medioli afirma que o contrato não traz qualquer vantagem ao clube. "O Cruzeiro não ganha nada, os valores são irrisórios".
"Tem o repasse de R$ 3,5 milhões, mas com um monte de cláusulas", diz. "Para o clube, pode não vir nada".
Ele até não descarta a permanência do acordo com a marca alemã. "Mas não desse jeito".
"Mas esse é só um dos problemas", diz ele, de posse de uma lista quase infindável.
"Lutamos por uma sobrevida", resume.
