Poucas horas depois de o Cruzeiro divulgar fotos com os uniformes confeccionados pela Adidas para 2020, cláusulas do contrato entre o clube mineiro e a empresa alemã vazaram na mídia. Tudo porque, em versão sustentada há quatro meses pelo departamento jurídico cruzeirense, o acordo é ruim para a equipe.
“Dar um contrato para a Adidas ganhar dinheiro, e o Cruzeiro segurar a brocha, não dá. Hoje tem que partir para uma marca própria. O que vale não é a marca Adidas, e sim a marca Cruzeiro”, disse Vittorio Medioli, CEO do Cruzeiro, em declaração reproduzida pelo portal "Superesportes".
O executivo é favorável a rescisão contratual entre as partes. “Temos que encerrar o contrato com a Adidas. O contrato, não sei quais são as cláusulas, mas vai nos deixar falidos. Porque dá um contrato para a Adidas ganhar dinheiro, e o Cruzeiro segurar a brocha, não dá”.
O portal "Superesportes" publicou duas reportagens na noite da última sexta-feira expondo trocas de e-mails internas no clube que apresentavam à presidência problemas no contrato ao Cruzeiro, mas mesmo assim o contrato foi aprovado por influência de Itair Machado, então vice-presidente de futebol.
A reportagem diz que a primeira reunião com a Adidas aconteceu em 14 de fevereiro, com a assinatura de uma carta-proposta. O contrato definitivo, porém, só foi apresentado em 26 de setembro. Na época, o departamento jurídico avisou ao presidente Wagner Pires de Sá que havia um "desiquilibrio contratual".
O e-mail foi encaminhado por Fabiano de Oliveira Costa, diretor jurídico do Cruzeiro, com uma explicação: "A Adidas impunha obrigações bem superiores e mais complexas do que a própria fornecedora, sem a merecida contraprestação". E explicou que não conseguiu avançar termos melhores com a empresa alemã.
O portal explica que no e-mail Costa encaminhou 16 cláusulas entendidas como abusivas ao Cruzeiro. Itair Machado não foi copiado na mensagem.
"Wagner Pires de Sá não respondeu às ponderações do departamento jurídico. O primeiro a se manifestar foi o então diretor-geral Sérgio Nonato. Em resposta enviada a todos os copiados, às 10h06, do dia 27 de setembro, ele se mostrou favorável a 'rever algumas partes deste acordo'", detalha a reportagem.
Machado só recebeu o e-mail após o mesmo ser encaminhado pelo diretor comercial Rene Salviano sob a justificativa de que o vice de futebol "acompanhou as tratativas desde o início". Na mensagem, o diretor ainda se mostrou surpreso com as cláusulas apontadas pelo jurídico.
Depois encaminhou outra mensagem avisando que tentara melhorar as condições contratuais, mas houve uma negativa do Grupo Dass, responsável pela marca Adidas no Brasil. Recebeu como resposta que clubes como "São Paulo e Internacional tinham contratos idênticos ao proposto ao Cruzeiro".
"Rene destacou que conseguiu 'alguns itens' que os demais clubes não tinham. 'Colocar em contrato a prioridade nas verbas de leis de incentivo da Adidas; Colocar em contrato intercâmbio dos nossos Departamentos Comercial e Marketing com os clubes Real Madrid, Arsenal, Bayern e Manchester United; Colocar em contrato um adiantamento de royalties para janeiro/fevereiro no valor de R$ 2.500.000,00; Retirar do contrato itens de Umbranded, entregas de marketing e mídias sociais que julguei excessivos', elencou Rene Salviano no e-mail enviado a todos os copiados", detalha a reportagem do "Superesportes".
Itair respondeu ao e-mail no próprio dia 27. Se queixou da lentidão para concluir o acordo. Pediu celeridade ao diretor comercial: "Gostaria de informá-lo que eu não só participei desde o início, como fui o responsável único e direto em trazer a marca Adidas como, fornecedora oficial de material esportivo, para o Cruzeiro".
A mensagem do vice de futebol gerou resposta imediata de Rene Salviano.
"Em nenhum momento quis valorizar algum feito ou dizer que fiz algo sozinho, muito pelo contrário, ninguém no mundo faz algo sem ajuda do companheiro de trabalho. Eu estava apenas contando o passo a passo para todos entenderem que foi feito o máximo que podíamos. Expliquei cada passo para todos entenderem, afinal, estamos no mesmo time! Você não estava copiado nos outros emails, fiz questão de te copiar e deixar ciente justamente sabendo do seu envolvimento com o tema, mas acho que voce entendeu tudo exatamente ao contrario... Em relação à lentidão, procurei preservar o Cruzeiro para não haver ações jurídicas futuras por desrespeito à clausula de preferência do contrato atual existente, mesmo podendo não estar presente quando isto ocorresse. Apenas isto. De qualquer forma, estarei como sempre totalmente à disposição, de forma profissional, como sempre estive para cada um de todos aqui”, escreveu, em texto reproduzido pelo portal "Superesportes".
Entre as cláusulas consideradas abusivas, está o artigo 8, que trata de um possível processo de rescisão. Consta que a Adidas pode interromper a parceria se o Cruzeiro registrar "pedido de falência (ou equivalente) ou de proteção de seus credores, ou tiver sido declarado falido (ou equivalente) por um tribunal de justiça”.
Conforme explicação na reportagem, o Cruzeiro, por ser uma entidade sem fins lucrativos, não pode decretar falência, mesmo com dívida superior a R$ 700 milhões. Há, contudo, um plano para transformar a agremiação em clube empresa, o que mudaria o contexto da institução perante a lei.
Outra cláusula que pode motivar uma rescisão é o rebaixamento do Cruzeiro para a Série B ou para a Série C.
O que também preocupou o jurídico foi a receita gerada pelo arcodo. De acordo com a reportagem, o Cruzeiro não receberá um valor fixo, e sim um percentual por cada camisa vendida pela empresa aos lojistas. O valor por peça da fabricante para o comerciante seria de R$ 120. Além disso, há royalties de 7% das lojas oficiais do clube e da empresa de comércio eletrônico Netshoes.
"O Cruzeiro embolsará, em 2020, 24% do dinheiro proveniente da comercialização das peças de fábrica. Em 2021, ano do centenário do clube, a comissão sobe para 27%", explica a reportagem. "Assim, em uma camisa com preço de custo de R$ 120, o Cruzeiro tem direito a 24% - ou seja, R$ 28,80. Já o uniforme vendido pelo lojista, por R$ 249,99, a participação seria de 7% - R$ 17,50. Na somatória, poderá faturar mais de R$ 46 por camisa".
Há um problema também no contrato com a Adidas. A diretoria já antecipou R$ 2,5 milhões do acordo em agosto, valor que será descontado de receitas futuras. Ao mesmo tempo, dificulta a rescisão. Motivo pelo qual algumas alas internas são favoráveis a outra solução, uma rediscussão das cláusulas.
