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Morreu o Coronel. E daí?

Ele foi considerado um dos marcadores mais implacáveis do fenômeno das "Pernas Tortas” Mané Garrincha. Mas, e daí?

Coronel ficou conhecido por ter pesadelos toda vez que o seu Vasco da Gama, dos anos 60, enfrentava aquele Botafogo infernal do camisa 7.

E os pesadelos eram reais. Aliás, foram reais até o último 4 de dezembro, véspera da morte de Antônio Evanil da Silva, eternizado no futebol com o apelido Coronel, um dos maiores laterais da história do clube cruzmaltino, da seleção brasileira e do futebol mundial.

Coronel morreu aos 84 anos de idade praticamente sozinho e esquecido na madrugada do último dia 5, no Hospital Municipal de Porto Real, no interior fluminense.

Meu primeiro e último contato com o ex-jogador aconteceu em março de 2014, às vésperas da segunda Copa do Mundo da FIFA que aconteceria no nosso país.

Lembro que alguns amigos de Quatis, terra natal do ex-lateral, me informaram que ele estaria na cidade e que eu poderia contar um pouco de sua história aos mais novos, muitos dos quais não faziam ideia de quem era o tal Coronel.

No encontro, esperava encontrar com um senhor bem vestido, cheio de posses, dinheiro e prestígio, afinal entrevistaria um Coronel.

Para a surpresa de todos da equipe, conhecemos uma pessoa simples, frágil de saúde e principalmente no bolso.

Conhecemos um Coronel pobre financeiramente, mas extremamente rico com suas mais incríveis histórias no futebol.

Lembro de alguém da própria cidade ter me alertado de que a fragilidade aparente de Coronel era resultado da falta de dinheiro que ele enfrentava para comprar um prato de comida.

Passamos dois dias ao lado dele. Ouvimos histórias fantásticas, algumas separadas na reportagem que está disponível acima.

“Eu não tinha vergonha das dezenas de dribles que eu tomava do Mané em São Januário e no Maracanã. Era uma alegria ver Garrincha jogar. Eu tentava adivinhar para qual lado ele ia me cortar e, claro, sempre me perdia na jogada. Ele era a 'Alegria do Povo', e eu, de uma forma também fazia parte do espetáculo”, definiu Coronel.

Na ocasião, Coronel contou que, mais que adversário de Garrincha, ele era amigo pessoal do craque.

Relembrou histórias lindas de pescarias e cachaçada entre os dois e revelou que, quando ia pescar com Mané na Ilha do Governador, por várias vezes foi assistente do craque botafoguense ao cuidar dos caranguejos caçados pela dupla.

Para mim, foi marcante também quando formos até o quartinho que ele tinha alugado no subúrbio da cidade de Paracambi e, chegando lá, o dono do imóvel havia sumido com a caminha dele e e outros pertences, tudo por causa da falta de pagamento do aluguel...

Na nossa memória ficou também a cena do Coronel com uma pastinha surrada que ele carregava pra cima e pra baixo com um projetinho onde ele sonhava tornar-se um gerente de futebol.

Lembro bem que no final da reportagem pensei em até pedir para alguns amigos de Quatis que agilizassem uma rifa, um evento para arrecadar fundos para que o Coronel dos pobres pudesse pelo menos se alimentar de forma digna.

Saí de lá com uma vaquinha que deu pra fazer na hora e entreguei, sei lá, um dinheirinho que daria pra umas dez marmitas, no máximo. E foi pouco, na verdade, foi medíocre a nossa ajuda perto do que a própria sociedade brasileira poderia ter feito com um ídolo de uma nação. Não falo aqui em dinheiro, pois ninguém tem obrigação. Mas algo que proporcionasse ao Coronel uma oportunidade, um emprego ou até mesmo um prato de comida.

O que dói é o desprezo. Não só pelo craque que foi como pelo ser humano que partiu.

Na época em que estivemos com Coronel nossa reportagem recebeu um 10 e um 0 na coluna de televisão da Patrícia Kogut, no jornal "O Globo". Lembro que fiquei chateado por ter escrito equivocadamente que a cantora Beth Carvalho era vascaína, quando na verdade era uma botafoguense fanática.

Tudo uma bobagem, pois tanto a cantora, que era amiga pessoal de Coronel, como o próprio jogador já não mais estão por aqui. Foram embora para um lugar que, tomara Deus tenha mais respeito à memória dos nossos ídolos. Sem vaidade.

Coronel foi velado na Câmara Municipal de Quatis e enterrado na mesma cidade nesta sexta-feira, 6 de dezembro. Fora uma nota de pesar do Vasco da Gama e uma outra bela reportagem da "Folha de S. Paulo" não vi mais ninguém homenageando o craque.

Coronel foi embora aos 84 anos e a tão sonhada homenagem, ninguém, absolutamente ninguém, fez em vida.

Assim como Altair, outro ídolo do nosso tão vitorioso futebol, mais um craque da bola se despediu do Brasil sem receber o carinho e o reconhecimento merecidos. E daí?