Falecido na última quinta-feira (28), Otacílio Pires de Camargo, o Cilinho, foi um dos principais técnicos do futebol brasileiro. Ele foi o criador dos 'Menudos do Morumbi', apelido dado ao time de jovens do São Paulo que marcou época no início dos anos 1980.
Conhecido por ser um treinador rígido e "paizão", como seu ex-comandado Silas o define, o comandante ajudou a revelar nomes como o do próprio Silas e mais Müller e Sidney. Uma de suas práticas mais famosas era mandar bilhetinhos para os atletas com alguma mensagem.
"Ele mandava mais na concentração, sempre colocava embaixo do prato da gente na hora do almoço", recordou Silas, ex-jogador do clube tricolor, em entrevista ao ESPN.com.br em 2015.
O campeão paulista de 1985 e 1987 usava as mensagens também para motivar seus jogadores.
"Na Libertadores, um jogador do Colo-Colo falou que ia atropelar a gente. O Cilinho recortou o jornal e fez cópias para cada um. A gente entrou mordido em campo (risos). Ele dizia que o jogador comum via a jogada acontecer, já o craque antevia a jogada, ou seja, sabia antes o que ia acontecer", recordou Silas.
Além dos bilhetes, nas palavras de Silas, o ex-comandante do São Paulo era um visionário em outros setores do futebol.
"Muito do que acontece hoje ele já previa mais de 30 anos atrás, como treinos com campo reduzido, utilizava psicólogos para ajudar os atletas. Além disso, levava um cara que foi ministro da Economia para falar de finanças com a gente, trazia pessoas do teatro para dar palestras. Ele se preocupava muito com o ser-humano também", disse.
O conhecimento do ex-técnico de 80 anos era tão grande que impressionava até os próprios jogadores.
"Ele enxergava o jogo bem demais. Uma vez, no interior pelo Paulista, percebeu que o Careca não estava bem e o tirou no intervalo. Ele falou assim: 'Vamos ganhar pelo lado direto com o Silas, Zé Teodoro e Pianelli, que entrou no lugar do Careca'. Não deu outra, o que ele falava, acontecia".
Contra o Palmeiras, Silas conta como uma vez fizeram uma armadilha para os defensores rivais.
"Ele mostrava qual lado o zagueiro marcava melhor e mandava nas duas primeiras bolas que a gente tentasse passar por aquele lado, para dar confiança para o adversário. Na terceira, era para pegar de surpresa pelo lado ruim, que o cara não esperava. Dava certo e a gente ficava de boca aberta comentando: 'O cara sabe demais (risos)'", recordou.
Alguns conselhos do mestre seguiram como lemas para o ex-atleta. "Qualquer jogo que você fizer, sempre terá alguém olhando. Se tiver apenas uma pessoa no estádio, se empenhe e dê tudo na partida", disse Silas.
Cilinho era um disciplinador, mas mostrava seu lado bem humorado até na hora das broncas.
"O Márcio Araújo uma vez foi tentar sair jogando e perdeu uma bola. Então o Cilinho falou nervoso para ele assim: 'Dá um bico nessa bola, manda pro cemitério que o coveiro é meu amigo. Na segunda ele traz a bola de volta pra nós (risos)", divertiu-se.
Outra prática comum do técnico era usar os jogadores como carregadores de relíquias para sua loja de antiguidades em Campinas. "Toda vez que jogávamos no Norte ou Nordeste, ele comprava aquele monte de coisas. Ele dava para os moleques mais novos trazerem na viagem. E o medo de quebrar o negócio? (risos)", gargalhou Silas.
O ex-meia cansou de carregar objetos importantes para Cilinho, mas uma vez perdeu uma relíquia particular para o comandante após vencer a Itália por 1 a 0, às vésperas da Copa de 90.
Com profunda tristeza, o São Paulo Futebol Clube lamenta o falecimento de Otacílio Pires de Camargo, o Cilinho, aos 80 anos de idade, nesta quinta-feira, em Campinas (SP). pic.twitter.com/S0jtE96qsg
— São Paulo FC (@SaoPauloFC) November 28, 2019
"Fui eleito o melhor do jogo e troquei camisa com o Giannini. Quando cheguei ao Morumbi, todo feliz, ele fala assim: 'Trouxe ela para mim?' Eu pensei: 'Caramba não tem jeito vou falar o quê? Trouxe sim, professor, sexta te entrego'. Dei a camisa com uma dor no coração, ela acabou desfalcando a minha coleção (risos)", gargalhou.
Mesmo assim, o pupilo acredita que o objeto foi uma pequena retribuição aos ensinamentos que recebeu em tanto tempo. "Tenho muito carinho e uma dívida eterna de gratidão com ele", ressaltou.
Quando ainda não tinha carro, todo final de jogo ele pegava carona com Cilinho até Campinas e iam conversando. O assunto era futebol, certo?
"Nunca falava sobre a partida, ele sabia separar muito bem as coisas. Ele perguntava sobre a minha vida, sobre a namorada, qualquer assunto, menos bola (risos)".
Silas só lamenta não ter guardado uma das mensagens que talvez fosse uma relíquia com um valor sentimental, que dinheiro nenhum no mundo possa comprar.
"Ele uma vez escreveu que a gente deveria andar descalço num jardim com flores, conviver com a natureza, mas que o futebol era um esporte viril. Era um cara muito sério e fechadão, mas às vezes tirava uma coisas do nada, meio de filosofia, sabe?", concluiu.
Carreira
Cilinho, nascido em 9 de fevereiro de 1939, começou sua carreira como técnico em 1966, na Ferroviária, de Araraquara, cidade do interior de São Paulo.
Apontado como um dos revolucionários do futebol do interior paulista, nos anos 1970, ele fez grande trabalho à frente da Ponte Preta antes de ir para o São Paulo e conquistar o Campeonato Paulista de 1985.
O time jogava de forma ofensiva e veloz. 'Menudos do Morumbi' foi o apelido dado devido à baixa idade do time e ao sucesso do grupo musical portorriquenho Menudo.Ao todo, pelo Tricolor foram 249 partidas como treinador - é o quinto técnico com mais jogos no clube -, obtendo 111 vitórias, 87 empates e 51 derrotas.
Cilinho retornou à Ponte Preta antes de encerrar sua trajetória no futebol, ficando como o treinador com mais partidas à frente do clube (345).
Entre uma passagem e outra, passou por Guarani, Corinthians, Portuguesa, Sport, Comercial, XV de Jaú e Santos. Seu último trabalho foi no Rio Branco, de Americana, também no interior paulista.
Paulista de Campinas, ele estava com a saúde bastante debilitada há quase dois anos, especialmente após o Acidente Vascular Cerebral (AVC) sofrido em abril de 2018. Chegou a ficar meses internado no Hospital da PUCC, em Campinas, e estava sendo submetido a tratamento especial e fazendo uso de cadeira de rodas.
