LaLiga: Como o Espanhol se tornou o campeonato mais competitivo entre os grandes da Europa

Ou Barcelona ou Real Madrid, sempre um dos rivais leva o título espanhol, certo? Pelo menos por enquanto, se acontecer, será com emoção.

A temporada 2019-2020 é uma das mais equilibradas de todos os tempos de LaLiga. Especialmente se levarmos em conta apenas os anos que seguiram o atual sistema de pontuação, implantado em 1995. Criticado por décadas pela falta de competitividade, o Espanhol é, até o momento, o mais embolado entre os cinco grandes campeonatos europeus.

Analisando a tabela até a recente pausa para data Fifa (13ª rodada), vemos Barcelona e Real Madrid respectivamente na ponta, como habitual, mas muita gente bem perto, como Atlético de Madrid, Sevilla e Real Sociedad. Os cinco clubes estão separados por apenas 2 pontos.

Já a distância do líder para o 8º colocado – o primeiro que não se classifica para algum torneio europeu – é de 5 pontos, superando a antiga marca mais baixa nessa altura do campeonato, de 6 pontos, registrada em 1998.

É importante ressaltar que Barça e Real têm um jogo a menos que as outras equipes, já que ‘El Clásico’, que aconteceria no dia 26 de outubro, foi adiado pelo momento conturbado na região da Catalunha, e acontecerá em 18 de dezembro.

Levando em conta o restante da Europa, o aproveitamento do líder Barcelona em LaLiga até então é de 66% – o menor entre todos os líderes dos cinco principais campeonatos europeus. Na Inglaterra, o Liverpool reina invicto com 94%; na Itália, a Juventus também não perdeu, 88%; França e Alemanha também tem líderes mais tranquilos: PSG com 77% e Borussia M'Gladbach com 75%.

O suspense de uma “crise” assolou Barça e Real nas primeiras rodadas, ora com vitórias sofridas, ora com empates sofríveis. Isso sem falar nas zebras que colocavam mais lenha na fogueira, como a derrota do Real para o Mallorca, por 1 a 0, na nona rodada, ou até a do Barcelona para o recém-promovido Granada (talvez a maior surpresa do primeiro terço da temporada), por 2 a 0, quatro rodadas antes. Mas a crise esportiva é diferente da financeira, e LaLiga diz que tem o "plano perfeito" para evitar qualquer problemas com os cofres.

O equilíbrio em campo não apareceu da noite para o dia. Segundo LaLiga, é resultado de um projeto da organização com o objetivo de elevar o nível do campeonato, aumentando também a renda e mantendo os times fora do vermelho. Como?

Qual é a fórmula do sucesso?

O presidente de LaLiga, Javier Tebas, assumiu o cargo em 2013 e definiu como uma das prioridades a reforma no sistema de controle financeiro, além da readequação da divisão das verbas televisivas entre as equipes, plano que entrou em ação dois anos mais tarde.

“É um controle financeiro que funciona de forma preventiva, ou seja, os times trabalham junto da liga todo o planejamento prévio para a temporada”, explica Albert Castelló, delegado de LaLiga no Brasil, em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br.

“Por exemplo, se um time vai lucrar com patrocínios, ele tem que apresentar o contrato; se vai lucrar com bilheteria, tem que mostrar sa média de público aumenta ou diminui. Então, antes de a temporada começar, essas equipes apresentam estudos que projetam como a economia deles vai se comportar durante o ano. Com isso, conseguimos calcular e autorizar o quanto de despesa o time poderá arcar durante a temporada.”

A estratégia leva em consideração todos os problemas trazidos pela crise econômica da Espanha em 2009-2010: “Naquela época, tínhamos regras financeiras mais estritas, então precisávamos fazer alguns ajustes para atender os pedidos dos clubes, que se afundavam em dívidas. Era uma bola de neve que vinha crescendo e que não trazia uma imagem muito positiva para a economia dentro do futebol.”

“A gente faz o controle tendo em mente o tamanho da conta do clube e só autorizamos os gastos quando as entidades realmente pode assumi-los. Desse jeito, garantimos que todos os salários serão pagos, assim como todos os outros compromissos financeiros, de forma que os clubes cheguem ao final da temporada podendo contratar ou fazer algo maior.”

Refletindo isso, a Real Sociedad, um dos destaques da temporada, reabriu o estádio Anoeta (agora chamado de Reale Arena) após grande reforma, que modernizou e ampliou a capacidade da casa. Outro bom exemplo é a contratação de Nabil Fekir pelo Betis. Cobiçado por vários clubes, o campeão do mundo pela França acertou com o clube espanhol por 19,75 milhões de euros (R$ 50 milhões).

O foco do plano é manter a saúde financeira do futebol espanhol de forma que os clubes com menor poder lucrativo não se afundem em dívidas, podendo entrar em cada temporada com o objetivo maior do que simplesmente não lutar contra o rebaixamento.

O poder da televisão

Em 2015, LaLiga deu início ao projeto de venda centralizada do direito de transmissões televisivas e rearranjou a distribuição desta verba entre os clubes. Em pouco tempo, os lucros dispararam.

“Antes faturávamos por volta de 600 milhões de euros, agora faturamos quase 1,9 bilhão (cerca de R$ 8,8 bilhões). Assim, o aumento de receita fez com que pudéssemos distribuir esse dinheiro de forma mais igualitária entre os clubes, e alguns times 'menores' passaram a ganhar três vezes mais do que anteriormente.”

Como funciona a venda dos direitos de televisão? 90% da renda fica com a primeira divisão do torneio e 10% com a segunda.

Dentro da primeira, 50% é dividido de forma igualitária entre os 20 clubes; 25% é repartido em função da posição média que o clube ficou nas últimas cinco temporadas, e os outros 25% de acordo com a audiência do clube na TV e o engajamento em redes sociais, entre outras métricas.

O Athletic Bilbao é um dos exemplos desse crescimento dos lucros. O clube estava acostumado a receber 17 milhões de euros das transmissões, mas, com a reforma, passou a lucrar 71 milhões de euros, ou seja, quatro vezes mais.

Barcelona e Real Madrid continuam ganhando a mesma coisa – por volta de 140 milhões de euros – pelas métricas utilizadas.

Tudo isso significa que Barcelona e Real deixarão de reinar?

Não necessariamente. A história dos clubes é inquestionavelmente gigantesca, assim como sua popularidade, o que garante lucros exorbitantes com ações que vão além de LaLiga. Os trabalhos anteriores buscando aumentar a receita com vendas de produtos, merchandising e prêmios com torneios continentais são bons exemplos.

“É difícil de se dizer se isso pode ser mais ou menos provável (o fato deles deixarem de tomar as primeiras posições da liga), mas acredito que os primeiros clubes que souberem implantar um novo sistema, como fez o Atlético de Madrid, vão gerar mais possibilidades dentro do campeonato”, afirmou o delegado.

“Esse é o desejo. Com o trabalho que estamos fazendo em cada temporada, pode se tornar mais habitual vermos outros clubes brigando no topo da tabela.”

Já na 15ª rodada, outro grande clássico de LaLiga acontece neste domingo (1). Atlético de Madrid e Barcelona se enfrentam no Wanda Metropolitano e o fã do esporte acompanha ao vivo e exclusivamente na ESPN Brasil e no WatchESPN, às 17h (de Brasília), com vídeos em tempo real no ESPN.com.br.