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Premier League: como o VAR tenta superar as críticas para ser aclamado

Até as melhores ideias podem fracassar se mal executadas. O VAR nunca foi uma inovação de consenso. Alguns se opuseram por motivos filosóficos, alguns por que não o entenderam completamente (e ainda não o fazem), outros porque pensaram que seria impraticável.

Ainda assim, quando a Premier League introduziu o VAR nesta temporada, a novidade já era uma realidade de trabalho em 15 ligas de primeira linha em todo o mundo. A opinião pública mudou um pouco, principalmente após seu sucesso na Copa do Mundo de 2018 na Rússia e nos últimos estágios da última Champions League.

É claro que os problemas iniciais eram previstos, mas era hora de colocar as melhores equipes da Inglaterra em sintonia com o restante do mundo. E o jogo se beneficiaria a longo prazo.

Então, por que, apenas três meses depois, a Premier League está realizando reuniões de emergência de VAR, com o The Times relatando que alguns querem que seja descartada? Por que estamos falando sobre o VAR - e não o futebol - depois de um emocionante confronto de primeira linha entre Liverpool e Manchester City?

A resposta, fundamentalmente, está na primeira frase deste texto...

Implementação

A Premier League, por meio de algo chamado Professional Game Match Officials Limited (PGMOL, órgão que treina, fornece árbitros e administra o VAR) e seu diretor-gerente, Mike Riley, optou por fazer as coisas de maneira diferente do resto do mundo. Eles decidiram que não haveria análises em campo (OFRs, quando o árbitro consulta um monitor de campo, por recomendação do VAR) e que haveria um “sarrafo alto”, ou seja, um alto grau de complexidade, para o VAR intervir em primeiro lugar.

Havia lógica nisso: preservar o fluxo do jogo. O “sarrafo alto” não apenas garantiria que os erros mais notórios tivessem a intervenção do VAR, economizando tempo, mas também eliminaria a necessidade de OFRs. O pensamento era que, se os erros fossem claros e óbvios, certamente o árbitro concordaria e não precisaria olhar para o monitor.

Este foi um erro crítico. Não apenas por que é uma abordagem incorreta - como descobriremos em breve - mas por que nunca foi feita dessa maneira. Não nos 10 mil jogos competitivos ao redor do mundo em que o VAR havia sido usado e não nas duas últimas temporadas de testes na Inglaterra. Em outras palavras, as autoridades estavam voando às cegas das possíveis armadilhas.

Torcedores, jogadores e técnicos que experimentaram o VAR em outras competições - mesmo que à distância - não estavam familiarizados com a abordagem. O que é esse "sarrafo alto", por exemplo? Por que o VAR interveio em alguns casos e não em outros? Além disso, apesar dos esforços de comunicação, a falta de informações em tempo real para os espectadores - em casa e nos estádios - apenas aumentou a confusão.

Nas primeiras nove semanas da temporada, o VAR se envolveu predominantemente em decisões objetivas, como impedimento, como se tivesse medo de contradizer qualquer decisão oficial. Depois, após pressões e críticas da mídia e dos clubes, foi o contrário, apenas para “semi-estabilizar” na semana passada. Excluindo impedimentos ou invasões em cobranças de pênaltis, que são objetivas, houve 16 reviravoltas no VAR nesta temporada, e metade delas ocorreu entre a 10ª ou 11ª rodadas.

A realidade é que as decisões subjetivas podem ser interpretadas de maneiras diferentes. E é por isso que não fazer com que o árbitro em campo dê a sua avaliação, apenas para reconfirmar e talvez tranquilizar, é simplesmente bobo. Não se trata de “re-arbitrar” ou, para usar uma analogia legal, assumir um “duplo risco”. Em vez disso, é reabrir um caso por que existem evidências adicionais, fornecidas pelas câmeras.

A outra crítica importante diz respeito dos impedimentos, que foi elevada ao nível de quadro a quadro, com a axila de Roberto Firmino e o dedão do pé de John Lundstram entrando na consciência pública. Aqui, você tem alguma simpatia pelo PGMOL. As Leis do Jogo são o que são - Riley não as escreveu - e têm sido assim nos últimos 15 anos: qualquer parte do corpo com a qual você pode marcar um gol pode ser passível de impedimento.

A incapacidade de as pessoas em entender isso, juntamente com sua incapacidade de entender que os jogadores de futebol são objetos tridimensionais e, portanto, as linhas desenhadas em suas telas bidimensionais não serão retas, causou verdadeiros estragos.

Dito isto, o VAR não fez nenhum favor à velocidade das decisões de impedimento, que foram mais lentas do que deveriam ser. Exemplo: o impedimento de Lundstram, que negou um gol ao Sheffield United contra o Tottenham. Levou mais de três minutos para chegar a uma decisão. Isso tem muito a ver com destreza e experiência na calibração do equipamento de imagem para refletir as três dimensões.

Com o tempo, você espera que esse aspecto do sistema melhore. Como um ex-árbitro da partida me disse: “O VAR é como uma Ferrari - você precisa saber como conduzi-lo para obter o melhor dele. Nem todo mundo tem a experiência ou capacidade de fazê-lo, e certamente, não acontecerá imediatamente.”

Casos excepcionais

O Reino Unido é repleto de tradições milenares. Ou, se preferir, é um lugar que valoriza seu passado. Não é que as coisas sejam necessariamente lentas para mudar; de fato, a vanguarda da inovação está presente em muitos setores. É que quando a mudança é forçada - ou parece que está sendo forçada - do lado de fora, os poderes que tendem a se enrijecer. Mas, quando a mudança vem de dentro, ela é prontamente adotada. O futebol, uma das maiores exportações do país, é um espelho disso.

A Premier League é um dos exemplos de inovação. Comercialização de produtos oficiais, transmissões de jogos e análises estatísticas são apenas exemplos de como a liga atua para melhorar o jogo globalmente – e lucrar cada vez mais com isso. Igualmente, este é o país em que, até meados da década de 1990, você só tinha dois substitutos no banco da FA Cup, com a rotação de equipes sendo vista como uma estranha influência estrangeira e a formação 4-4-2 estava tão arraigada que até nomearam uma revista com esses números - e os torcedores vaiaram Sir Alex Ferguson por abandoná-la.

O simples fato é que o VAR - e as novas interpretações da regra de mão na bola / bola na mão - não se originaram em terras britânicas e, como tal, sempre seriam vistas com um certo grau de cautela por grande parte do público. Nem todo mundo foi tão extremo quanto o técnico Ian Holloway, ex-Queens Park Rangers, “Acho que são pessoas nos dizendo o que devemos fazer com o nosso jogo... Você não pode ter alguém nos dizendo como fazer o nosso próprio jogo…”, mas se encaixa na narrativa de instituições externas que se intrometem em assuntos domésticos.

Não importa o fato de que metade dos votos no IFAB, International Football Association Board, que instituiu o VAR e é responsável pelas leis do jogo e suas interpretações, provem das quatro associações do Reino Unido. Ou que o diretor técnico da entidade, David Elleray, que não é apenas inglês, mas passou a maior parte de sua carreira de árbitro trabalhando em várias funções na tradicional Harrow School, que considera Sir Winston Churchill como seu mais destacado aluno.

O termo “island mentality”, algo como "mentalidade da ilha", é exagerado e, muitas vezes, injusto. Mas há um toque de verdade quando se fala em futebol inglês e sua relação com o VAR.

Mudanças na regra

Em um esforço para padronizar o jogo em todo o mundo, a IFAB decidiu ajustar várias leis e suas interpretações no ano passado, com as mudanças entrando em vigor em 1º de julho, a tempo da introdução do VAR na Premier League. Isso provaria ser um golpe duplo, à medida que as mudanças se confundiram com o próprio VAR em um ciclo vicioso que deixava alguns comentaristas atordoados e confusos. As mais significativas, pelo menos no que diz respeito ao futebol inglês, foram as orientações sobre os toques na bola com a mão.

Diferentes países tinham há diferentes padrões nas determinações sobre bola na mão / mão na bola. A Espanha, por exemplo, era notoriamente rigorosa em comparação com a Inglaterra, o que significava que alguns pênaltis em LaLiga seriam motivo de riso na Premier League. As novas diretrizes ainda deixam margem para discussões (ou seja, sem senso comum), mas são mais rigorosas do que as que os clubes ingleses estavam acostumados.

Esse não é um problema de VAR, mas acabou se confundindo com ele, principalmente por que o sistema de revisão é usado para julgar esses tipos de lances. Para torcedores comuns e comentaristas, às vezes sentimos muitas mudanças de uma só vez, com críticas raivosas aos ajustes na regra da mão na bola sendo direcionadas ao VAR e transformando-o em mais um dano colateral.

Imprensa, percepções e poder

A Copa de 2018 foi a primeira com o VAR e, de todas as formas, foi um sucesso estrondoso. Mas, embora tenha ajudado a construir apoio na Inglaterra, mostrando como o sistema pode funcionar, ela provou ser uma faca de dois gumes, porque estabeleceu padrões inatingíveis. O pessoal comparou a versão vista na Rússia com o que testemunha toda semana na Premier League e percebe que a última é um fracasso comparativo.

Não é difícil de entender. A Copa contou com os melhores árbitros, escolhidos a dedo, enquanto a Premier League é, para todos os efeitos, limitada a um número menor de juízes ingleses e galeses. O VAR ajuda quanto melhor é o time de arbitragem: se for bom, precisará de menos ajuda, e as falhas não serão tão visíveis.

O outro ponto óbvio é que uma Copa abrange 64 jogos e já tivemos quase quatro vezes mais partidas disputadas na Premier League. É mais difícil ser consistentemente bom ao longo do tempo, e as falhas se destacam muito mais do que os muitos jogos em que o VAR é usado sem incidentes.

A Premier League pode ser a competição de futebol mais voltada para o torcedor, pelo menos em termos de reação ao que eles querem (quero dizer fãs, mas aqui eles são principalmente clientes). Isso pode ser bom de algumas maneiras, mas também significa preocupar-se continuamente com a reação de certos meios de comunicação e especialistas.

Certos tropas reclamam de “terem sido ser roubados da alegria espontânea da celebração” (Nota do autor, isso é insensato: celebre duas vezes, uma vez quando entra e outra quando o árbitro aprova) e que “torcedores no estádio ficam confusos quanto ao que está acontecendo” (Autor aqui de novo, isso é duplamente tolo: se um gol foi marcado ou uma falta cometida na área, há uma boa chance de o VAR o rever... a menos que você esteja morando embaixo de uma rocha, você deveria saber disso). Essas tropas, muitas vezes, assumem uma importância desproporcional.

Adicione o fato de que muitos ex-jogadores que se tornaram comentaristas não são bem versados no VAR (ou na regra da mão na bola / bola na mão), e você obtém uma ampliação instantânea da sabedoria convencional: o VAR era bom na Copa, agora é ruim.

Você pode adicionar dois outros fatores. Um é o vácuo de poder no topo da Premier League desde a saída de Richard Scudamore como presidente-executivo. Esperto, o veterano Scudamore soube manter clubes e meios de comunicação na mesma página por duas décadas. Seu substituto, Richard Masters, só conseguiu o emprego em outubro, depois de meses como chefe interino, enquanto a organização tentava (e falhava) ao tentar contratar um substituto mais destacado. Não é de surpreender que ele tenha achado difícil manter as páginas nos mesmos lugares.

A outra questão é a proliferação de ex-árbitros na mídia, muitos dos quais trabalharam para ou com Riley. Eles formam um grupo peculiar cujas carreiras competitivas atingem o pico em seus 40 anos. Vários se tornaram atiradores profissionais desde que se aposentaram, seja para chamar a atenção por que agora estão do lado de fora ou para acertar histórias antigas.

O que vem por aí?

Esse gênio não vai voltar para a garrafa. Uma coisa é filosofar sobre uma Premier League pós-VAR que se parece com a era pré-VAR, mas, na próxima vez que um time for rebaixado por causa de uma decisão discutível ou uma taça conquistada graças a um gol em posição ilegal, os cães do inferno serão desencadeados.

Algumas mudanças imediatas poderiam ajudar. Um resumo das conversas entre árbitro e VAR, divulgadas em tempo real, pode anular algumas especulações que às vezes fazem o homem na cabine de vídeo parecer cego ou incompetente. Os replays nos estádios também ajudariam, e já que nem todos os clubes têm telões, algum pensamento criativo pode ajudar: que tal permitir que aqueles que estão nas arquibancadas com Wi-Fi vejam a decisão do VAR com um pouco de explicação?

Além disso, a decisão mais fácil é também a mais lógica: alinhe a versão do VAR da Premier League ao resto do mundo. Em primeiro lugar, isso significa ter OFRs para que, no mínimo, o árbitro - a pessoa que representa a autoridade - possa "tomar" as decisões, se isso significa corrigir a si próprio ou anular o VAR.

O resto é dar tempo ao tempo. Torcedores e comentaristas serão educados. O diálogo dos árbitros com o VAR se tornará mais eficiente e direto ao ponto, são conjuntos de habilidades relacionadas, mas distintas. E, em alguns anos, podemos ter uma classe totalmente diferente de VAR: indivíduos que podem não ter personalidade ou aptidão para serem árbitros de primeira linha, mas têm olhos de águia e destreza o suficiente para lidar com os ângulos de reprodução e o software de imagem.

Agora, voltando à analogia da Ferrari: a Premier League parece Ferris Bueller, lendário personagem de Matthew Broderick em “Curtindo a Vida Adoidado”, pegando emprestada a Ferrari vintage do pai de Cameron. Com um pouco de paciência e algum trabalho sério, eles ainda podem aprender a conduzi-lo adequadamente, mas apenas se tiverem a humildade de também aprender com o resto do mundo.