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Quem são os Glazer, donos bilionários que colocaram o United num buraco e são odiados

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Na última segunda-feira, a ESPN contou em detalhes o que aconteceu na espiral de crise do Manchester United nos últimos anos, em que a equipe deixou de ser o "maior time do mundo" e tornou-se um clube que sofre na Premier League, em 12º lugar e com 37,5% de aproveitamento.

Para os torcedores dos Red Devils e pessoas que conhecem o clube de perto, os culpados por todos os problemas têm nome, sobrenome e nacionalidade: os norte-americanos Joel e Avram Glazer.

Os empresários são donos de uma fortuna de US$ 4,7 bilhões (quase R$ 20 bilhões), segundo a revista Forbes, e herdaram o clube de seu pai, o magnata Malcom Glazer. A grana da família vem principalmente do ramo imobiliário, mas também de negócios nos setores de alimentação, embalagem, saúde, bancos, gás natural, internet, ações e outros (leia mais no fim da matéria)

Malcom tornou-se proprietário do United gastando 790 milhões de libras (R$ 4,096 bilhões, na cotação atual) entre 2003 e 2005, quando foi comprando pouco a pouco o controle acionário da equipe, que pertencia aos empresários Michael Knighton e Rupert Murdoch (dono da rede de televisão norte-americana FOX).

Após sua morte, em 28 de maio de 2014, o time de Manchester caiu "no colo" de Avram, o filho mais velho, e Joel, um dos filhos mais novos, que também assumiram o Tampa Bay Buccaneers, franquia da NFL controlada pela família Glazer.

Inicialmente, os irmãos disseram que ouviriam os fãs e não iriam interferia no "United way of life". E suas primeiras atitudes foram de acordo com essa cartilha.

Na temporada 2005/06, os proprietários investiram no aumento da capacidade do estádio Old Trafford, além de terem firmado um lucrativo contrato de patrocínio com a seguradora norte-americana AIG.

Em seguida, os Glazer garantiram a permanência do técnico Alex Ferguson e do então CEO da equipe, David Gill, conhecido pelo bom trabalho no mercado da bola, que tinham destinos incertos com a chegada dos Glazer.

Nos anos seguintes, anunciaram importantes medidas financeiras nos bastidores, que mudaram bastante a vida do United.

Casos, por exemplo, do refinanciamento da gigantesca dívida da equipe e a abertura de capital do time na Bolsa de Valores de Nova York, em 2011.

Joel e Avram transformaram os Red Devils em uma máquina de fazer cada vez mais dinheiro, com recordes de receitas ano após ano.

No entanto, o sucesso esportivo, que é a maior preocupação da torcida, começou a minguar após a aposentadoria de Sir Alex Ferguson, em 2013, o que trouxe mudanças significativas à agremiação - desta vez, para pior.

As coisas na verdade começaram a desandar pouco antes do "adeus" de Sir Alex, quando, em fevereiro de 2013, o CEO David Gill deixou o United.

O selecionado para ser seu substituto foi Ed Woodward. Uma escolha que vem se provando cada vez mais errada...

Nos últimos anos, Woodward torrou milhões em contratações equivocadas de técnicos e jogadores, e pode celebrar apenas títulos medíocres para os padrões dos "Diabos Vermelhos", como uma Liga Europa (com José Mourinho no comando) e duas FA Cups (uma com Mourinho e outra com Louis van Gaal).

Na Premier League, o desempenho vem sendo pífio: desde que Woodward assumiu o cargo, o United terminou com uma média de 21,5 pontos atrás dos times campeões.

Isso sem falar no fato que o United deixou de ser presença constante na Uefa Champions League, competição em que costumeiramente era um "bicho-papão".

Não à toa, os torcedores odeiam cada vez mais os Glazer, que raramente são vistos nas partidas da equipe de Manchester.

Para a grande maioria dos fãs, não há qualquer motivo para se manter fiel a Woodward, como Joel e Avram são.

Além disso, muitos consideram que os irmãos só querem ganhar dinheiro com o clube, e estão pouco se lixando para o que a torcida quer - no caso, títulos e a volta do United ao topo do futebol.

Por isso, é cada vez mais comum as faixas com os dizeres "Glazers Out" ("Fora, Glazers") em Old Trafford. As manifestações virtuais também são pesadas: recentemente, a hashtag #GlazersOut tornou-se trending topic mundial no Twitter...

'AVRAM VAI A UNS 10 JOGOS POR TEMPORADA'

Samuel Luckhurst é editor-chefe de Manchester United no jornal Manchester Evening News - provavelmente a seção mais lida do diário local - e tem acesso aos bastidores do clube como poucos.

Na sua opinião, os Glazer realmente só tem interesse financeiro nos "Diabos Vermelhos", e demonstram isso de forma clara.

"Joel e Avram são inerentemente ruins para o clube. O patriarca da família, Malcolm, sequer visitou a cidade de Manchester. Já os filhos prometeram que haveria um ‘canal de comunicação’ com a torcida, o que nunca aconteceu. Avram Glazer talvez vá a uns 10 jogos por temporada, no máximo", conta, em entrevista à ESPN.

"Eles desviaram o United da rota por cerca de 15 anos, e a única coisa que ligam são para as receitas recordes que o clube continua tento. Qual outro time no mundo precisa emitir um comunicado para deixar aos torcedores claro que seu ‘objetivo primário’ é ganhar títulos?", ironiza, lembrando fala recente de Ed Woodward, que, em um encontro com torcedores, avisou que "embora nossa operação comercial bem-sucedida ajude a impulsionar o investimento, a prioridade é o foco em alcançar o sucesso em campo".

Luckhurst afirma que os Glazer até conseguiram firmar bons contratos de patrocínio desde que assumiram - vale lembrar que os acordos com a Adidas (fornecedora de material esportivo) e Chevrolet (patrocinadora máster) estão entre os maiores do planeta.

No entanto, a pouca atenção dada à parte esportiva terminou por transformá-los em entidades odiadas pelos "verdadeiros torcedores" dos Red Devils.

"Joel e Avram de fato conseguiram fechar grandes acordos comerciais, o que manteve os preços dos ingressos congelados por nove anos em Old Trafford. Esse talvez seja o único ponto positivo da gestão. Mas, ao mesmo tempo, eles afastaram de Old Trafford os verdadeiros torcedores do Manchester United", lamenta.

Para Mark Ogden, repórter-sênior de futebol da ESPN UK, há um ponto positivo na gestão Glazer: eles preferem não interferir diretamente no futebol, já que não entendem do problema.

O jornalista, no entanto, explica que isso acaba por gerar outro problema.

"Os Glazer tendem a não interferir no futebol, mas isso também significa que eles permitem que as situações ruins se desenvolvam por muito tempo, e, quando geralmente entram em ação, já é tarde demais", disserta.

Ogden ressalta, por outro lado, que os pontos negativos são gravíssimos.

"Falta de investimento no time e no estádio, péssimas contratações em todos os setores e muita lealdade a Ed Woodward, o atual CEO", aponta.

Para Stephen Howson, um dos mais influentes YouTubers da Inglaterra e focado na cobertura do United, os Glazer são "a raiz" de todos os problemas atuais do United.

"Nós estamos tentando competir contra clubes que têm donos que buscam a grandeza, mas os nossos donos fazem o mínimo possível para passar raspando de ano... Ao invés de nos perguntarmos qual é o melhor que podemos fazer, no momento a nossa única pergunta é: ‘Qual o requerimento mínimo?’", dispara, em conversa com a ESPN.

Howson também diz não ver qualquer ponto positivo no trabalho dos irmãos Joel e Avram.

"Não há qualquer ponto positivo na gestão dos Glazer. Já os pontos negativos são muitos, mas os maiores são a falta de investimento no clube de futebol e na infraestrutura do estádio, além dos bilhões gastos em refinanciamento de dívidas", opina.

E ONDE VEM O DINHEIRO DOS GLAZER?

A fortuna dos Glazer foi construída pelo patriarca Malcom, filho de imigrantes judeus que foram da Lituânia para os Estados Unidos nos anos 20, em busca de uma nova vida.

Quando seu pai, Abraham, morreu, Malcom tinha apenas 15 anos, mas teve que se virar. Ele começou vendendo relógios de porta a porta e provou-se em pouco tempo um comerciante de primeira, mesmo sem qualquer formação universitária.

Anos mais tarde, fundou uma joalheria, que também era especializada na manutenção de relógios de luxo.

Com o sucesso de seu primeiro empreendimento, Glazer passou a investir em negócios imobiliários, e daí para a fortuna foi um pulo.

Atualmente, a família controla a First Allied Corporation, dona de centenas de shopping centers nos Estados Unidos, e possuem negócios nos setores de alimentação, embalagem, saúde, bancos, gás natural, internet, ações e outros.

Malcom ganhou fama nacional nos EUA em 1995, quando comprou o Tampa Bay Buccaneers depois da morte do então dono Hugh Culverhouse.

À época, os Glazer pagaram US$ 192 milhões (R$ 786,2 milhões, na cotação atual) pela franquia da NFL, recorde da liga na ocasião. Malcom colocou os filhos Bryan, Joel e Edward para administrarem.

Depois, veio a compra do Manchester United, entre 2003 e 2005, que transformou Malcom Glazer em celebridade mundial.

Ele teve dois derrames cerebrais em 2006, que deixaram sua saúde fragilizada. Com isso, o controle dos Red Devils foi sendo aos poucos assumido pelos filhos Avram e Joel, que se tornaram donos de vez depois da morte do pai, em 2014.

Atualmente, a família Glazer é dona de 90% do Manchester United, com as ações divididas igualmente entre os seis filhos que ele teve com a viúva Linda.

Leia mais sobre a crise do Manchester United nesta quarta-feira, no ESPN.com.br