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Ex-Botafogo lembra como Seedorf se preocupava até com pés descalços e fez 'brigões' de organizada quase chorarem

A passagem de 18 meses de Clarence Seedorf pelo futebol brasileiro deixou grandes marcas na história do Botafogo e dos jogadores do clube alvinegro. Um dos atletas que mais foi influenciado pela convivência com o astro - que jogou em times como Ajax, Real Madrid, Inter de Milão e Milan - foi o zagueiro Dória.

O defensor, que tinha a mania de andar descalço pela concentração, não esquece da lição que aprendeu após levar uma bronca do camisa 10.

"Uma vez sai do quarto para pegar um biscoito ou suco e ele me viu. Eu tomei um puta susto e ele me perguntou: ‘Por que você está indo descalço?’. Respondi: 'Eu vou só tomar um suco, é rapidinho'. Ele me deu o chinelo dele e eu fui todo sem graça", disse Dória, ao ESPN.com.br.

"Quando voltei, ele falou: 'Nunca mais ande descalço. Imagine se você der uma topada ou cortar o pé porque amanhã temos jogo. E você ficar de fora por que está descalço?' Eu levei isso para a minha vida toda. Toda vez que vou sair descalço, lembro do Seedorf e penso: 'Vou colocar o chinelo' (risos)", contou o defensor.

Além das aulas fora de campo, Dória também viu o holandês ensinar, em 2013, como acalmar uma torcida organizada furiosa apenas com conversa, sem necessidade de partir para violência.

O clube vivia uma crise financeira e os salários dos jogadores estavam vários meses atrasados.

"Ele é um cara que sabe usar muito bem as palavras e tem muitos argumentos. Todo dia tinha reunião com a diretoria, quase não tinha treinos. Parecia até uma disputa. O foco não era mais o futebol, era saber quando eles iriam nos pagar para que pudéssemos trabalhar direito. Tinham jogadores que ganhavam pouco e não tinham como pagar as contas e estavam endividados", contou o zagueiro.

"Os torcedores estavam muito bolados e mandaram a gente jogar e honrar a camisa. Estávamos separados por uma porta, mas o Seedorf mandou eles entrarem para conversar. Eram uns 200 deles contra uns 15 nossos. Nisso, o Seedorf disse que estávamos honrando a camisa e trabalhando todos os dias. Ele explicou que não tínhamos dinheiro muitas vezes para colocar gasolina e falou para eles se colocarem no nosso lugar."

A situação, que era muito tensa, mudou completamente.

"No final, os caras ficaram do nosso lado. Eles foram para bater na gente. Os caras quase choraram e ficaram tristes pela nossa situação e do clube. Pediram desculpas por ter ido ameaçar a gente e batem palmas para nós", recordou.

Palpites em tudo

Seedorf dava palpites em quase tudo dentro do clube: viagens, alimentação dos jogadores, treinos e até os horários de recuperação.

"Tudo tinha a mão dele. Ele era um cara muito intenso e muito correto. Tudo que ele fazia era pra melhorar o time. Às vezes alguns jogadores não gostavam porque estavam acostumados a fazer as coisas de outra forma, mesmo que estivesse errado", elogiou.

Dória gostava de conversar com o astro holandês.

"Ele ia algumas vezes nos nossos quartos e os mais jovens dividiam com mais quatro colegas que chamávamos de Maracanã. Ele ia lá cantar com a gente músicas do Bob Marley, ele canta bem".

Vencedor do Prêmio ESPN Bola de Prata Sportingbet em 2013, Seedorf ajudou o Botafogo a ser campeão carioca (2013) e a se classificar para a Libertadores após 18 anos. O holandês aposentou-se dos gramados no final do ano após o Brasileiro, aos 37 anos.

"Foi legal demais tê-lo como companheiro e ter aprendido muito. Eu era muito jovem estava começando a conhecer as coisas do futebol", contou.

Começo no futebol

Dória começou no futsal e foi para o futebol de campo, aos 11 anos. Por ser quase um artilheiro nas quadras, ele tentou ser lateral, mas por ser muito algo foi para a zaga. Ele chegou a perder um teste no Grêmio por ter fraturado o dedinho do pé e foi reprovado no Fluminense antes de ir para o Botafogo.

"Eu devo tudo ao Botafogo porque passei a vida inteira por lá desde garoto na base. Bastante coisa mudou e fui crescendo junto com o clube". Ele fez toda a base na equipe de general Severiano antes de subir ao profissional, aos 17 anos, e 2012.

"O Oswaldo de Oliveira colocou o time para treinar com os juniores por uma semana. Depois, eu fui muito bem na Copa São Paulo. Teve um jogo que marquei dois gols de cabeça, mas nós caímos nos pênaltis. Ele gostou de mim e fui chamado porque alguns jogadores se machucaram. Ele me colocou para jogar depois de dois treinos com o profissional contra o Coritiba".

O primeiro jogo, porém, reservou uma surpresa para o jovem.

"Engraçado que com 30 segundos na minha estreia a bola bateu em um jogador, acertou minha canela e entrou! Fiz um gol contra (risos). Todo mundo achou que eu ia jogar super mal e que as coisas iam dar errado. Mas foi ao contrário. Me recuperei e vencemos o jogo lá, algo que não acontecia há anos", recordou.

O defensor brilhou com a camisa alvinegra antes de ser vendido ao Olympique de Marselha, da França, em 2014. No ano seguinte, o zagueiro foi emprestado ao São Paulo por seis meses antes de ir ao Granada, da Espanha.

Depois, passou por Yeni Malatyaspor, da Turquia, até chegar ao Santos Laguna, do México, que é o atual líder da Liga Mexicana com 100% de aproveitamento em quatro jogos. O zagueiro balançou as redes uma vez em 2019.