Opinião - Sobre a desistência de 'The Gay Footballer': Falaria sobre frustração, mas temos que respeitar

No início de julho deste ano, uma conta anônima no Twitter atraiu a atenção de dois setores da imprensa. Setores que nem sempre falam sobre o mesmo assunto: a imprensa esportiva e a LGBTQI+. Intitulada 'The Gay Footballer', a conta trazia postagens de um homem que se dizia jogador profissional de futebol, atuante por um clube participante da Championship, a segunda divisão do Campeonato Inglês.

O autor das postagens relatava que já teria falado sobre sua orientação sexual para sua família e, a partir deste momento, estava em conversas com a agremiação na qual atua para pedir o suporte necessário antes de revelar sua identidade.

Conforme a história se desenvolvia, ele respondia algumas mensagens, inclusive às que questionavam sua atitude ou a importância do tema. Confirmou que encontrou apoio do time. E a expectativa cresceu em torno da história. Até que se anunciou uma data para a revelação: 24 de julho. Se confirmado o nome de um jogador profissional em atividade e declaradamente gay no futebol inglês, seria mais um momento histórico.

Não seria o primeiro, já que Justin Fashanu falou sobre sua sexualidade ao The Sun em 1990 - e na época, não teve a recepção desejada - suicidou-se aos 37 anos em 3 de maio de 1998. Não seria o único em atividade hoje, pois temos Collin Martin jogando pelo Minnesota United, da Major League Soccer (MLS), a principal liga de futebol dos Estados Unidos; e ainda recentemente tivemos Robbie Rogers, pelo L.A. Galaxy, também na MLS.

Mas a MLS ainda não tem, nem de longe, a mesma visibilidade do futebol inglês. A própria cultura do futebol nos Estados Unidos tem um alcance menor em comparação a outros esportes, como o futebol americano, o beisebol e o basquete, o que facilita a criação de um ambiente de aceitação de um jogador gay.

O que Collin e Robbie representam não é menos importante. Mas o impacto será desproporcional quando tivermos o mesmo caso em um país onde o futebol é o esporte com maior destaque, como é na Inglaterra. Como é no Brasil. A mesma Inglaterra onde, até 1967, as relações sexuais entre dois homens eram proibidas por lei (e em se tratando de Reino Unido, vale apontar que a descriminalização chegou até à Escócia somente em 1981 e só no ano seguinte a Irlanda do Norte aderiu).

Anunciada a data, nos preparamos para a abordagem do assunto na ESPN. Concordamos editorialmente em não antecipar o assunto e aguardar a história completa. Na noite de terça (23), as últimas postagens do The Gay Footballer foram sobre não se sentir forte o suficiente para seguir em frente com a revelação da sua identidade. E a conta foi deletada.

Falaria em frustração, mas temos que respeitar

Entre as primeiras reações, fala-se sobre desrespeito, uma certa revolta. Eu falaria sobre frustração. Ainda não estamos em posição de dizer se a conta era real ou não. Se a motivação por trás da criação do perfil era legítima ou não. Mas, infelizmente, trabalhar com a hipótese de que esta história seja real faz sentido.

É muito fácil entender que exista alguém sofrendo para tomar a decisão de declarar sua sexualidade quando se é homossexual. Porque não existe só um alguém que passa por isso. Existem vários. Na Inglaterra, na França, na Espanha, no México, na Argentina, no Brasil. Em países na África, na Ásia. É um caso tão realista quanto todos estes casos que, sabemos, são reais.

Quase 30 anos após Fashanu declarar sua sexualidade e 50 anos após a Revolta de Stonewall, é triste que ainda seja tão difícil termos ídolos gays jogando futebol livremente. É frustrante. Mas ao mesmo tempo é compreensível que seja necessário adquirir coragem dos primeiros a tomarem a decisão de se declarar. E quando não se encontra tamanha coragem, temos que respeitar.

É preciso trazer mais estes assuntos à tona

Desde 2017, tenho me envolvido com produção de materiais e sugerido pautas que tratem da temática LGBTQI+ no esporte. Um dos maiores exemplos destas produções é a série Futebol Fora do Armário, na qual falamos sobre o tabu ainda existente entre os jogadores profissionais, influenciado por diversos fatores, como as torcidas, por exemplo. Falamos do excelente movimento de times que nascem inclusivos e hoje se multiplicam pelo país.

Como gay e profissional de mídia esportiva, entendo que seja meu papel trazer estes assuntos à tona. No país com os maiores índices de crimes de ódio contra a população LGBTQI+, é nosso papel, como mídia, abordar essas pautas. Ainda existem pessoas que são impedidas de praticar alguns esportes ou mesmo torcer para um time, deixadas de fora da sociedade.

Portanto é, sim, fundamental que estas pautas tenham o devido tratamento e exposição. Para que, em breve, jogadores profissionais não sofram para decidir como querem viver suas vidas. E os LGBTQI+ se vejam representados no esporte, sintam-se bem-vindos e seguros para praticar e torcer.