Cinco dos 23 convocados pela seleção da Venezuela para a Copa América estiveram no último Mundial sub-20 e isso não é uma coincidência. Há quase 20 anos a equipe Vinotinto mudou a forma de trabalhar seus jovens apostando que a melhora deles impulsionaria o futebol local. Nesta sexta-feira, esse trabalho poderá ser notado.
Pela primeira vez em mais de 60 anos de existência, na seleção não é vista como uma "zebra" em um confronto com a Argentina. Pelo contrário, há quem considere que o selecionado venezuelano tem condições de eliminar o time Albiceleste, no Maracanã, às 16h (de Brasília), e chegar a semifinal, repetindo a campanha que fez em 2011.
A impressão tem a ver com o caminho até aqui. Os venezuelanos chegam invictos, com a segunda melhor defesa, e tendo conquistado cinco pontos, enquanto os argentinos fizeram quatro, correram risco de não se classificar e o técnico está ameaçado de demissão.
Tudo pode mudar em campo, mas o atual momento (que causa preocupação nos argentinos) ficou evidente nas coletivas na quinta-feira.
O primeiro passo no processo de evolução do futebol da Venezuela foi dado pelo técnico Richard Páez a partir de 2001, com a introdução de uma nova mentalidade desportiva. Quem veio depois dele (e foram somente mais três técnicos) deu sequência e aperfeiçoou.
Páez saiu em 2007. Na sequência, vieram César Fárias, de 2008 até 2013, Noel Sanvicente, de 2014 até 2016, e finalmente Rafael Dudamel.
"Desde a chegada do professor Sanvicente nós começamos a implementar a norma que, na Copa da Venezuela, todos os clubes são obrigados a ter um garoto sub-16 entre os profissionais. E no Torneio Apertura têm de ter um jogador sub-20", disse à reportagem Jesus Berardinelli, vice-presidente da Federação Venezuela.
Berardinelli está no selecionado Vinotinto desde 1995 e acompanhou de perto o trabalho que fez a equipe sair do ostracismo e incomodar as grandes seleções do continente. Para ele, mais do que métodos rigorosos de treinamento, desenvolvimento da preparação física e intercâmbio, o segredo foi o desenvolvimento e aumento da competitividade na base.
A iniciativa de trabalhar assim foi de Cesar Farías. Como agradou, o trabalho acabou sendo aprimorado.
"No início a norma não era obrigatória. O técnico podia escalar um jovem como titular e depois acaba tirando ele do jogo com apenas 20 minutos, por exemplo. A partir de 2017, com Dudamel, tornou-se obrigatório: os jovens têm de atuar os 90 minutos", disse Berardinelli.
"No passado, se buscavam os melhores jogadores disponíveis na base, mas depois definiu-se que a escolha deveria ser por jovens de um biotipo determinado. Quem define isso é Dudamel e sua equipe. Por exemplo, o jogador tem de medir 1,79 m e ter algumas características. Ainda que no período em que foram selecionados não tivessem tanta habilidade, acabaram adquirindo com os treinos e jogos".
A evolução foi mais fácil de perceber na base.
A Venezuela terminou o Sul-Americano sub-20 de 2017 na terceira colocação. Depois, no Mundial da mesma categoria e no mesmo ano, chegou até a final deixando pelo caminho Japão, Estados Unidos e Uruguai. Ainda derrotou México e Alemanha na fase de grupos.
Na final, a seleção acabou derrotada pela Inglaterra. Ainda assim, é o melhor resultado do futebol Vinotinto.
No atual grupo de 23 convocados para a Copa América, cinco nomes chamados por Dudamel estavam naquela competição. Casos dos goleiros Farínez e Nader, os defensores Herrera e Hernández e o atacante Soteldo, este do Santos e com 1.58 m.
"O professor Dudamel criou um módulo de desenvolvimento determinando que os jogadores deveriam defender seus clubes no domingo, mas, na segunda-feira, deveriam se apresentar para as categorias de desenvolvimento da seleção. Na quinta, seriam liberados para retornarem aos seus clubes. Esses atletas teriam um atendimento médico, alimentação e, toda semana, treinariam com a seleção", disse.
"Isso aconteceu constantemente durante dois anos. Ou seja, a equipe sub-20 tem uma preparação de dois anos e meio em período constante. Os frutos apareceram com o desempenho do time de base no Sul-Americano e no Mundial sub-20, em 2017", acrescentou.
Berardinelli também menciona que o que possibilitou os venezuelanos encurtarem em 20 anos um atraso de 40 anos de atrasos foi a saída de jogadores para outros países. Para citar um exemplo. A equipe que jogou a Copa América de 1999 tinha apenas dois atletas de clubes de fora da Venezuela. A seleção atual é o inverso. Tem somente dois que atual em território venezuelano.
"Também temos jogadores que já estão na Europa e têm uma formação, mas que nós podemos apenas convocar no período de data Fifa. E os jovens que vêm precisam se adaptar ao trabalho que o professor indica. Alguns vêm do sub-20 e têm muito tempo para se adaptar ao técnico e vice-versa. Da mesma maneira, tentam levá-lo à elite. Assim, equipes do mundo inteiro vão desejar comprá-lo. Assim ocorreu com Soteldo. Regressamos do Mundial sub-20 e ele foi vendido para o Chile. De lá veio para o Brasil e você vê como ele evolui".
Todo esse processo evolutivo fez a Venezuela ver o futebol atrair mais o interesse das pessoas.
"Arrisco dizer que hoje é o esporte mais popular, mais do que o beisebol. O calendário nos ajuda nisso. Temos futebol o ano todo, enquanto a temporada de beisebol está presente por três ou quatro meses", disse Jesus Berardinelli.
A evolução observada nesses 20 anos faz com os venezuelanos almejem agora um salto histórico no futebol.
Mais do que o desejo de eliminar a Argentina nesta sexta-feira no Maracanã e jogar a semifinal da Copa América contra a ,seleção brasileira, está a vontade de classificar-se para uma Copa do Mundo. É a única equipe da Conmebol que jamais jogou o torneio.
"O objetivo deste trabalho que estamos conduzindo há 20 anos é classificar a Venezuela para a Copa do Mundo. Colocamos como meta o Mundial do Catar, em 2022. Já temos condições de pensar em um salto como esse", concluiu o venezuelano de 59 anos.
