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Almoço na Argentina, Guardiola com Ibra e Luxa demitido: como Keirrison trocou o Palmeiras pelo Barcelona há dez anos

Os palmeirenses não tinham como não se empolgar. Em 19 de janeiro de 2009, chegava ao clube o centroavante Keirrison, 20 anos, artilheiro do Campeonato Brasileiro do ano anterior, pelo Coritiba, com 21 gols.

O início foi arrasador. Em 16 jogos no Campeonato Paulista,13 gols (0,81 por partida). Na Copa Libertadores, outros seis em doze aparições no time que foi até as quartas de final do torneio.

Na época, houve quem o comparasse a Evair, pelo porte físico, inteligência e faro. Parecia aposta certa sua presença na seleção brasileira que disputaria a Copa do Mundo no ano seguinte. Que seu destino, em breve, seria a Europa, parecia uma obviedade.

Apenas parte disso se concretizou - e jamais do modo que se esperava.

Em 26 de junho de 2009, Keirrison era afastado do Palmeiras pelo técnico Vanderlei Luxemburgo. Estava negociado com o Barcelona campeão espanhol, da Copa do Rei e da Champions League.

Em 24 de junho de 2019, Keirrison foi dispensado pelo CSA, vice-lanterna da Série A do Campeonato Brasileiro, uma semana depois de ser contratado por um salário quase simbólico.

Ao longo dessa década, Keirrison viveu tragédias familiares, quatro cirurgias, passou por seis clubes e anotou apenas 29 gols em 148 jogos disputados - cinco a mais do que fizera em 34 partidas pelo Palmeiras.

Para tentar entender o que houve nesse período, o ESPN.com.br conversou com alguns personagens importantes dos bastidores da vida daquele que, um dia, foi chamado de "K9".

N.R.: a reportagem tentou falar com Keirrison, mas ele preferiu não dar entrevista.

CHEGOU PENSANDO EM SAIR

Embora parecesse que tudo acontecia às mil maravilhas para Keirrison no Palmeiras, desde sua chegada, houve alguns senões.

O primeiro foi logo na coletiva de apresentação do jogador, no antigo Salão Nobre do clube - demolido para a construção do Allianz Parque.

"Lembro-me que, antes da entrevista coletiva, o (assessor de imprensa) Helder Bertazzi foi instruir Keirrison e sugeriu que ele dissesse que chegar ao Palmeiras era a realização de um objetivo", relembrou-se Luiz Gonzaga Belluzzo, presidente do clube na época.

"Um dos empresários dele me disse, então: 'não, mas o objetivo dele é o Barcelona'", conta Belluzzo. "Eu achei aquilo bem estranho, fiquei embasbacado, e lembro que tivemos de explicar que não cairia bem ele dizer isso chegando ao Palmeiras", diz.

Para Belluzzo, ficou a percepção de que Keirrison já chegara ao clube alviverde pensando em sair. E ele não estava errado. Em 2008, o Barcelona entrara na vida do atleta.

"Nós tínhamos negociado o Henrique (zagueiro, hoje no Corinthians) com o Barcelona e falamos que tínhamos um garoto, também vindo do Coritiba, que era artilheiro do Campeonato Brasileiro", conta Naor Malaquias, agente do jogador até hoje.

"Eles passaram a observá-lo mais de perto e quiseram conhecê-lo pessoalmente lá por novembro (de 2008). Ele estava brigando para ser artilheiro do Brasileiro, ainda no Coritiba, e pedimos uma folga", relata.

"Não tinha como, mas pedimos uns dias de folga para resolver questões pessoais de patrocinadores. Saímos com ele, avisamos o patrocinador e fomos para Buenos Aires encontrar os caras do Barcelona", relata.

"Almoçamos e não falamos nada de negócios naquele dia. Descemos no Rio no mesmo dia, porque o Coritiba ia jogar depois. Esse encontro foi fundamental para que eles tomassem a decisão de contratá-lo, porque gostaram muito da personalidade dele. Era um jovem que sabia aonde queria chegar e não era deslumbrado", diz Malaquias.

O Barcelona monitorou Keirrison por meses, até chegar uma oferta oficial.

"Geralmente, eles contratam de clubes como Porto e Benfica. É muito raro eles fazerem uma compra diretamente do Brasil", diz.

Para jogar no Palmeiras, Keirrison foi negociado para a Traffic, que tinha uma parceria com o Palmeiras na época. O Coritiba manteve 20% dos direitos.

Com o jogador num clube maior, o interesse do Barcelona cresceu. Txiki Begiristain, então vice-presidente do Barça e hoje diretor no Manchester City, veio ao Brasil e assistiu alguns jogos do Keirrison no camarote da Traffic, no antigo Estádio Palestra Itália.

"Nesse tempo, tivemos vários interesses de Ajax e Feyenoord, da Holanda, clubes da Espanha e da Alemanha. Mas ofertas oficiais foram do Barça, do Feyenoord e do Atlético de Madrid", diz Malaquias.

"Eles fizeram uma oferta à Traffic de 14 milhões de Euros, mais valores de bônus por jogos disputados e tal", lembra Malaquias. Pelo lado de Keirrison, a negociação foi rápida porque o jogador já queria jogar no Barcelona. E a Traffic também aceitou. O acordo foi selado em maio.

Naquele mês, o Palmeiras fez um de seus jogos mais importantes no ano. Pelas quartas de final da Libertadores, o clube tinha pela frente o decadente Nacional, do Uruguai. No dia 29, empatou por 1 a 1 no Palestra Itália.

A torcida palmeirense já pegava no pé do jogador, cujo desempenho se tornava cada vez mais errático. Em alguns jogos, Keirrison ficou no banco para que Obina jogasse.

Em 19 de junho, o Palmeiras foi a Montevidéu. Uma vitória simples daria a vaga ao Alviverde. O empate por 0 a 0, com atuação ruim do camisa 9, eliminou os brasileiros da competição.

"Naquele dia, eu me lembro de perguntar aos jogadores, após a eliminação, como eles se sentiam. E o Keirrison, para meu espanto, me disse, com todas as letras, que não sentia nada", conta Luiz Gonzaga Belluzzo.

DEMISSÃO DE LUXEMBURGO

Luxemburgo perdeu o emprego no Palmeiras por causa da negociação de Keirrison. Ao saber da saída do jogador, sem consultar a diretoria, o técnico declarou, publicamente, que o jogador não jogava mais no Palmeiras enquanto ele fosse técnico.

Sete dias haviam se passado desde a eliminação na Libertadores.

"Eu estava em Campinas e ouvi, pelo rádio, a declaração do Vanderlei", conta Belluzzo. "Eu não podia deixar aquilo acontecer e, na mesma hora, liguei para o (diretor Gilberto) Cipullo e avisei que iria demiti-lo", conta o dirigente.

"Não sei se acertei ao demitir o Vanderlei, porque o time ia bem no Brasileiro. Mas eu não podia tolerar aquela insubordinação. Não cabia ao Vanderlei dizer aquilo", diz Belluzzo.

O fato, porém, é que não havia mais clima para a permanência de Keirrison no Palmeiras, mesmo antes da atitude do técnico. Atletas já se queixavam da falta de empenho do centroavante.

RODANDO PELA EUROPA

Segundo Naor Malaquias, na época em que contratou Keirrison, o Barcelona também estava negociando com o David Villa. Mas o negócio com o espanhol não deu certo, e o clube contratou nada menos que Zlatan Ibrahimovic para a mesma posição de Keirrison.

"O Guardiola chegou para a gente e falou: ‘Ibra é Ibra. Vamos ter que emprestar o Keirrison para ele pegar uma cancha’", conta Naor Malaquias.

Na avaliação do agente, é neste momento que vem o maior erro na condução da carreira do jogador. Os empresários tinham duas ofertas nas mãos: uma do Benfica e outra do Zaragoza, idênticas.

"Tinham mais cinco propostas, mas o Barcelona só concordava com as duas", conta Malaquias.

"Só que o presidente do Benfica pegou o avião dele e colocou o (dirigente) Rui Costa, o (agente) André Cury, meu irmão (o agente Marcos Malaquias) e o Kerisson nele, e nos levou para Lisboa. Mostrou o estádio, a estrutura e não dá para comparar, porque o Benfica é um dos maiores clubes do planeta", relembra-se.

"O time tinha David Luiz, Ramires, Saviola, Luisão, Aimar e Cardozo. Um timaço! Acabamos optando pelo Benfica. Esse foi meu erro como agente. Deveria ter batido o pé para o Zagaroza porque ele precisava de minutos em campo. E não precisava ir para um clube do tamanho do Benfica. Ele já era jogador do Barcelona", diz ele.

Para azar de K9, Cardozo não estava jogando bem, mas subiu muito de produção quando o brasileiro chegou em Lisboa, anotando 38 gols na temporada.

Seis meses se passaram, e Keirrison não achava uma brecha para jogar. Os empresários, então, foram buscar um novo clube para ele. Nessa época, Mutu, atacante romeno da Fiorentina, caiu no antidoping por cocaína. Rui Costa, dirigente benfiquista que tinha jogado na "Viola", sugeriu a ida dele para a Itália.

Segundo Malaquias, assim como ocorrera com Cardoso, a chegada de Keirrison fez com que Gilardino, capitão da equipe, também subisse de produção.

Quando deixou a Fiorentina, um ano e três meses depois de sair do Palmeiras, Keirrison somava 19 jogos e apenas dois gols, somadas as passagens por Barcelona, onde jamais entrou em campo, Benfica e pelo clube italiano.

VOLTA AO BRASIL E JOELHOS FRÁGEIS

Keirrison precisava jogar e uma volta ao Brasil apareceu como possibilidade.

Em 9 de julho de 2010, Keirrison foi anunciado pelo Santos. Na Baixada, ele sofreu uma lesão e ficou na reserva. Estava no elenco campeão da Copa Libertadores da América de 2011. Do banco, viu Zé Love se consagrar como parceiro de Neymar em sua posição.

O jogador foi então emprestado para o Cruzeiro em 16 de agosto de 2011. No final do ano, Keirrison voltou a sofrer uma ruptura de ligamentos cruzados do joelho - algo que já lhe acontecera em seu primeiro ano como profissional, em 2006. Em Minas, fez apenas um gol em nove jogos.

Em 22 de março de 2012, o Cruzeiro o liberou para retornar ao Coritiba, seu primeiro clube, para terminar sua recuperação. Porém, no ano seguinte, antes mesmo de voltar a jogar, sofreu uma nova ruptura dos ligamentos, que o tirou mais de uma temporada dos gramados.

Em 2015, no Coritiba, até ensaiou uma volta aos melhores momentos. Em 47 jogos pelo clube, fez sete gols, que lhe renderam uma transferência ao Londrina para 2016. Nesse mesmo ano, porém, o jogador passou por uma tragédia familiar. Seu filho Henri, de apenas dois anos, morreu em decorrência de uma infecção.

No interior do Paraná, Keirrison teve uma participação destacada novamente, com oito gols em 30 jogos. Assim, ele ainda conseguiu retornar à Europa, agora para o modesto Arouca, de Portugal, onde, mais uma vez, se lesionou e pouco jogou - dois jogos.

Em 11 de julho de 2017, Keirrison assinou um contrato válido por um ano com a diretoria do Coritiba novamente. Era a terceira passagem do jogador pelo clube paranaense, que lhe devia cerca de R$ 3,6 milhões referentes a salários atrasados. Jogou pouco no clube e foi para o Londrina de novo - dessa vez, sem destaque.

Keirrison chegou ao CSA em 14 de junho deste ano, após ficar seis meses sem entrar em campo.

"É um jogador muito educado. Um excelente profissional", diz Rafael Tenório, presidente do clube alagoano. "Para ele jogar aqui, o acerto com ele foi quase simbólico", conta Tenório. O salário dele no clube não excedia os R$ 40 mil mensais.

Mesmo assim, Keirrison, mais uma vez, deixou o clube sem entrar em campo, uma semana depois de ser anunciado.

"Foi em comum acordo", conta Tenório. "Infelizmente, o tempo que ele levaria para estar apto para jogar é maior do que o tempo que teríamos", disse o dirigente.

"Ele está novo, mas as lesões atrapalham", reconhece Naor Malaquias.

"Fizemos, com o CSA, um acordo de produtividade e não escondemos nada de ninguém (no que diz respeito às lesões). Fizemos os exames todos. Mas, no sábado (23), disseram que não iam ficar com ele, apesar de terem anunciado a contratação. Faltou um pouco de tato por parte deles", afirma.

"Mas nós vamos fazer de tudo para dar a mão para ele por tudo que passou", afirma Malaquias, esperançoso, acreditando que a história do atleta no futebol ainda não chegou ao fim.