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Ele se reinventou como lateral aos 27, foi cobiçado pelo Palmeiras e comprado pelo São Paulo

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Um dos laterais que passou pelo São Paulo nos últimos anos, Luis Ricardo teve de se reinventar aos 27 anos como jogador para justamente ter a ascensão que imaginava. Mas a trajetoria deste goiano já era longa no futebol.

Ele jogou em times de várzea e se profissionalizou no Vila Nova. Defendeu times como Marcílio Dias, Avaí, Ponte Preta e Mirassol até chegar à Portuguesa, em 2010, justamente o clube onde mudou a rota.

"Eu estava jogando como camisa 9 contra o Grêmio Barueri, em 2011. O nosso lateral foi expulso no começo do segundo tempo. Geralmente nessa situação o treinador tira o atacante. Eu sabendo que ia sair, fui até a beira do campo e falei: 'Jorginho não me tira, eu continuo aqui na beirada'. Ele ficou meio sem reação e respondeu: 'Fica aí e vamos ver o que vai dar. Mas não vai abrir, fecha bem o lado'", contou, ao ESPN.com.br.

Como já havia jogado como ala nos tempos de Avaí, o jogador achou que poderia dar conta do recado. Ele foi tão bem que nunca mais voltou a ser atacante.

"Logo em seguida, o Jael foi contratado para o ataque e o Jorginho falou para mim: 'Se adapta porque você vai ficar como lateral'. Eu pensei: 'Quero estar jogando'. Chamei o Anderson Lima, que era auxiliar técnico e tinha sido um baita lateral, e pedi umas instruções. Eu nunca tinha jogado assim na vida", contou.

O novo lateral então precisou passar por uma fase de adaptação, com vários treinos fora do horário de expediente.

"O Anderson me falava: 'Você precisa manter a linha, nunca abrir'. Eu tinha facilidade porque era rápido, conseguia cortar e dar passes. Isso foi me dando confiança. Ele me mostrava como bater na bola e eu brincava: 'Eu era atacante! Meu negócio era fazer gol ao invés de dar passes' (risos). A gente ria, mas eu aceitei bem as dicas e fui me aperfeiçoando", disse.

Luis Ricardo foi um dos pilares da equipe da Portuguesa que ficou conhecida como "Barcelusa", que foi campeã da Série B do Brasileiro de 2011.

"Eu virei um dos caras que mais dava passes para gols no nosso time. O Ananias, que nos deixou muitas saudades, era um dos que mais fazia gols com meus passes. Éramos muito amigos e concentrávamos juntos. Nós formamos uma família na Portuguesa e até hoje temos amizade", contou.

'Sai do gol, Dida!'

No ano seguinte, a Portuguesa caiu na Série A1 do Paulista, mas fez uma campanha segura na Série A do Brasileiro com Dida, recém-saído da aposentadoria, debaixo das traves.

"O Dida não gostava de sair no gol em cruzamentos e o [zagueiro] Valdomiro falava: 'Luis, fale para Dida sair do gol'. Respondi: 'Val, o Dida não saía do gol no Milan, na seleção e no Corinthians. Você quer que eu fale para ele sair do gol na Portuguesa?' (risos)", recordou.

"Teve um jogo que o Val gritava: 'Vem Dida!' E nada do Dida sair. Daí, os caras quase fizeram um gol e ele me pediu para falar com o Dida, mas eu respondi: 'Fale você!' Daí, ele abaixou a cabeça e gritou: 'Sai do gol, Dida!' Ele não tinha coragem de olhar para o Dida (risos). Eu zoava: 'Olha o seu tamanho para ficar pipocando para o Dida!' Ele respondia: 'Como eu vou falar com o homem? Tenho que respeitar a história dele'. Até hoje eu falo 'sai do gol, Dida!' quando encontro com o Valdomiro (risos)", disse.

Em 2013, Luis Ricardo fez sua última temporada com a camisa da Portuguesa. Com as boas atuações, passou a ser cobiçado por vários clubes.

"Tinha uma proposta do Cruzeiro, mas eu estava para ir para o Palmeiras por empréstimo. A Lusa queria um valor e a princípio estava certo, mas eles mudaram de ideia. Daí, a situação ficou meio indefinida."

No meio desta novela, Luis jogou contra o São Paulo e viu que seu destino poderia mudar. Após fazer um gol no time tricolor, ele foi pego de surpresa pelo técnico Muricy Ramalho no intervalo do jogo.

"Ele pegou na minha mão e falou: ‘Se prepara porque estou te trazendo para cá’. Eu voltei para o segundo tempo e não queria mais jogar (risos). Eu não estava sabendo de nada porque ninguém tinha me procurado e nem saído na imprensa. Mas fui para casa com o coração cheio de alegria", contou.

"Depois de um tempo, ficou um certo impasse com o Palmeiras. O São Paulo veio, pagou a Lusa e me levou. Foi a realização de um sonho de criança. Eu era são-paulino e quando jogava no Mirassol nós treinávamos no CT do São Paulo quando jogávamos na capital. Eu pensava: 'Quero um dia estar aqui'", recordou.

'Estava no meio dos galácticos'

Luis Ricardo chegou ao clube do Morumbi no começo de 2014.

"Em 2009, quando joguei contra o São Paulo, eu peguei a camisa do zagueiro Renato Silva. Guardei ela e fiz uma oração em cima dela, pedindo a Deus. Quem sabe? Depois de seis anos eu estava lá. Quando entrei no CT, as lágrimas desceram e vi que Deus poderia realizar os nossos sonhos", afirmou.

Na equipe comandada por Muricy Ramalho, porém, o lateral fez apenas nove jogos.

"Nosso time tinha Pato, Rogério Ceni, Ganso, Luis Fabiano, Kaká e Álvaro Pereira. Eu me sentia no meio dos galácticos! Foi uma satisfação porque fomos vice-campeões do Brasileiro. Eu era um lateral ofensivo, mas nosso time era ofensivo demais e por isso não joguei. Eles precisavam de um cara que marcasse mais. Se me colocassem eu também iria só atacar (risos)", contou.

"Eu pensei que uma hora ia jogar mais, mas não atuei mais porque o time encaixou e deu certo. Ele usou o Paulo Miranda e depois colocou o Hudson na lateral. Eu perdi espaço. Eu ia para os jogos, mas não entrava", lamentou.

Com isso, Luis Ricardo trocou o São Paulo pelo Botafogo no começo do ano seguinte. Na equipe alvinegra, ele viveu uma das melhores fases da carreira, mas também teve uma lesão que o atrapalhou.

"Vencemos a Série B de 2015 e no ano seguinte eu estava bem para caramba. Era o meu auge, eu estava como capitão do time e dando passes para gols. Mas sofri uma lesão na quarta rodada do Brasileiro contra o Grêmio. O jogo estava no fim e fiquei um ano parado", afirmou.

No retorno, o lateral não conseguiu retomar o antigo lugar.

"Isso atrapalhou minha sequência quando voltei. Fiquei sem espaço e demorou até retomar, mas pude atuar pela primeira vez na Libertadores de 2017 e foi especial. Em 2018 ia para poucos jogos e meu contrato encerrou", explicou.

Neste ano, o jogador disputou o Paulistão pela Ponte Preta antes de ficar sem clube.

Aos 35 anos, Luis admite que seu destino teria sido outro se tivesse permanecido no ataque.

"Sendo muito sincero, eu acho que não [teria chegado a grande clubes]. A concorrência no ataque é muito grande, se você fica dois jogos sem fazer gols fica fora do time. Eu tive essa chance de virar lateral pela necessidade e deu certo!", finalizou.