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Copa América: como 'Maestro' Tabárez resgatou e colocou o Uruguai de volta no topo

As salas de aula e os campos de futebol, a princípio, não parecem ter muita relação. ‘Maestro’ (professor, em espanhol) Óscar Washington Tabárez, porém, prova o contrário.

Com conceitos elementares da educação, ele revolucionou o futebol uruguaio.

Depois de sua carreira como jogador, Tabárez virou técnico e se alternou com o emprego de professor e diretor em escola pública. Posteriormente, comandou o Uruguai entre 1988 e 1980, passou pelo Boca Juniors, pelo Milan e ganhou a Copa Libertadores pelo Peñarol em 1987. No entanto, sua carreira como treinador ficaria marcada bem mais para a frente, depois de cerca de quatro anos.

Em 2006, Tabárez foi chamado para ser o técnico de seu país novamente. Além disso, acumularia a função de diretor das seleções nacionais e teria uma missão enorme: resgatar uma das nações mais tradicionais do futebol.

Quando o ‘Maestro’ assumiu o cargo, os bicampeões mundiais tinham acabado de perder para a Austrália, ficando de fora do terceiro dos quatro últimos Mundiais. No que disputaram, em 2002, tinham caído na fase de grupos.

O outrora futebol violento viu o educador salvá-lo.

Um contrato didático precisava ser escrito. O ‘Processo’ estava por começar.

Primeiramente, a Associação Uruguaia de Futebol estabeleceu a padronização de jogo para todas as categorias de suas seleções e estariam todas sob o mesmo “guarda-chuva”, como apontou o presidente da federação, Ignacio Alonso, ao ESPN.com.br. Mas ia além disso.

“Tinha também a parte de uma condução esportiva, um conceito de incorporação de valores tradicionais do futebol uruguaio e valores básicos da família, da tradição, dos trabalhadores uruguaios, da nossa nação, quanto a respeito, a ordem, a disciplina e a relevância à nossa camisa da seleção”, disse.

Tabárez foi o “mentor”, “a figura central, que pensou e desenhou, que colocou no papel e que executou” este projeto. A ideia era a formação do indivíduo e que os atletas fossem atuando juntos desde a base. “Os jogadores das seleções juvenis são os que quando chegam a ser maiores, integram a seleção principal, salvo algumas exceções”.

Dos 14 no,es que integram o elenco da Copa América e possuem menos de 30 anos, somente quatro não passaram pela seleção sub-20: Jonathan Rodríguez, Giovanni González, Maxi Gómez e Lucas Torreira.

"O que mais valorizo deste processo é como as seleções juvenis se vincularam à principal, e é o lugar em que colocamos a mão quando se precisam de jogadores. Se produziu um processo de trabalho que está definido e seguimos insistindo. Às vezes, tem que se tomar seu tempo", afirmou Tabárez em entrevista coletiva nesta quarta-feira, véspera da partida contra o Japão, pela segunda rodada do grupo C da Copa América. As equipes enfrentam-se na Arena do Grêmio, em Porto Alegre, às 20h (de Brasília) desta quinta.

Dos 12 jogadores que atuaram na reestreia do técnico, só 4 continuam em atividade, sendo que apenas o capitão Diego Godín permanece na seleção. Ou seja, uma geração se passou, mas os resultados ficaram. Desde a chegada do treinador de 72 anos, os uruguaios foram a todas as Copas, sendo semifinalistas em 2010 e quadrifinalistas em 2018 – nunca caíram na fase de grupos. Em 2011, conquistaram a Copa América.

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Hoje, o elenco conta com duplas de zaga e ataque que estão entre as melhores do mundo e voltaram a ter nomes em diversos grandes clubes da Europa. O país consegue isso tendo uma população inferior a 3,5 milhões de habitantes - para efeito comparativo, a cidade do Rio de Janeiro tem cerca de 6,5 milhões.

“Para nós é chave o fato de ter permanecido com uma condução de uma metodologia, de um processo, porque temos um país pequeno quanto a população e, portanto, não podemos perder as oportunidades quanto a captação de recursos humanos, de talentos e no trabalho com eles”, afirmou Alonso.

“Quando o 'Maestro' chegou, tinha coisas muito claras do que ia fazer, a mudança foi tudo muito natural através dos anos. Creio que todos os uruguaios se sentem orgulhosos”, afirmou o goleiro Fernando Muslera, na quarta-feira, em entrevista coletiva no hotel onde a seleção está hospedada.

O ‘Maestro’ deixou a sala de aula, mas não deixou de educar. Em vez de formar jovens, formou o processo que resgatou o futebol do Uruguai.

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