A presença do Japão na Copa América pode surpreender muitos torcedores. Porém, ela não é inédita. Em 1999, a seleção nipônica também disputou a competição, e contou com um brasileiro no elenco.
O ex-atacante Wagner Lopes fez a quase a carreira toda de atleta no país asiático, onde atuou por quase 15 anos. Naturalizado, ele foi chamado para disputar o torneio sediado no Paraguai.
O primeiro gol daquela edição, inclusive, foi dele. O hoje técnico do Atlético-GO marcou diante da seleção peruana logo aos 6min do primeiro tempo, em um gol que já vinha sendo desenhado ao lado do companheiro Hiroshi Nanami.
“Treinamos (isso) muito na véspera da estreia. Ele mandava a bola no bico da pequena área, e eu atacava. E nosso gol saiu exatamente assim. Você poder fazer o primeiro gol da Copa América - neste caso foi um brasileiro naturalizado - me deixou muito feliz, muito orgulhoso. Tínhamos conversado antes: ‘vamos fazer esse gol, porque eles não conhecem nossa jogada’”, contou Wagner Lopes ao ESPN.com.br.
O ex-atacante já atuava no Japão em 1989, quando o Brasil bateu o Uruguai na decisão e conquistou seu primeiro título na Copa América em 40 anos. Ele assistia aos jogos com uma semana de atraso, já que dependia das fitas de VHS que a então namorada – hoje esposa – enviava. A competição já tinha um significado para Wagner, mas não o fazia imaginar o que viveria dez anos depois.
“Foi uma experiência fantástica, fizemos uma intertemporada na Argentina, no CT do Boca Juniors. Tínhamos uma seleção bem reformulada, bem diferente do que tinha sido na Copa do Mundo. Tudo era novidade”, declarou.
“Jogar no Defensores del Chaco com, sei lá, 60 mil pessoas, enfrentando a seleção paraguaia, com Chilavert, Roque Santa Cruz, Gamarra, com grandes jogadores... são situações que você não tem oportunidade toda hora.”
Se era algo novo e uma experiência única para Wagner Lopes, era ainda mais para seus companheiros.
Os causos
Daquele torneio, Wagner Lopes lembrou de quando os japoneses se surpreenderam com a equipe de segurança que havia no local onde estavam hospedados.
“Nós ficamos em um clube de golfe, que era o hotel em que estávamos em Assunção. Eles tinham alguns problemas internos, e a segurança era muito grande para proteger a gente. E os jogadores ficavam assustados: 'por que cara do exercito está aqui com metralhadora?’ Os caras toda hora encostavam em mim e perguntavam: ‘por que tanta segurança, não é muito exagero?’ (risos). Eu brincava: ‘Não, não é exagero não, quanto mais segurança melhor'", disse.
"No Japão não tem nada disso, não tem hábito de a segurança utilizar arma, então para eles era uma novidade ver os soldados com metralhadoras, revólveres, para eles era um negócio surreal. Isso me chamou bastante atenção, devia ter algum perigo eminente, porque a segurança foi muito forte para a delegação japonesa.”
Outra situação vivida em meio a esta experiência social aos japoneses foi um banho gelado, metafórica e literalmente. Depois de a seleção nipônica perder para os anfitriões por 4 a 0, os atletas tiveram de lidar com outro problema no vestiário.
“No dia do jogo contra o Paraguai, estava um frio danado, estádio lotado, e não tinha água quente para tomar banho. Foi uma coisa que demos risada para caramba. Eu falei: ‘vocês estão pensando que na América do Sul é igual no Japão? Aqui a coisa é diferente’. Todo mundo teve que tomar banho frio para ir ao hotel depois. Estava tudo enlameado, cheio de barro, foi um dia chuvoso, bem frio”, recordou Wagner.
Mas todos encararam a ducha gelada?
“Todo mundo não, sempre tem uns ‘migués’ que vão embora sem tomar banho, mas não dava não, estávamos todos sujos, enlameados, ainda mais com 4 a 0 na cabeça.”
Apesar deste contratempo, o ex-atacante foi elogioso ao falar do tratamento no país-sede. “Eu vejo que o paraguaio é muito carinhoso, igual o brasileiro, abraça, você chega e é bem recebido. Os japoneses ficaram muito felizes com essa receptividade”.
A trajetória
Em 1999, os japoneses foram derrotados pelo Peru por 3 a 2, antes de serem goleados pelo Paraguai na segunda rodada. O único ponto foi somado no empate por 1 a 1 com a Bolívia, o que não impediu que a seleção terminasse na lanterna da chave. Wagner fez dois gols no torneio, tendo definido a igualdade no terceiro confronto, ao converter um pênalti.
Na atual edição da Copa América, o Japão, que conta com um elenco jovem, começou sendo goleado pelo Chile por 4 a 0. O próximo compromisso será na quinta-feira, quando enfrentará o Uruguai na Arena do Grêmio, às 20h (de Brasília).
