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Copa América: em Salvador, Brasil já encarou rojões, bandeiras queimadas e ovada em Renato Gaúcho

“Na Bahia, o axé é diferente. As pessoas sentem falta da seleção brasileira, dessa energia que a seleção leva onde passa. Certeza que lá vai ser mais animado que aqui.” Foi assim que o lateral e capitão brasileiro Daniel Alves previu o jogo contra a Venezuela, na terça-feira, em Salvador.

As vaias em São Paulo, na vitória por 3 a 0 sobre a Bolívia na estreia da Copa América, incomodaram a equipe de Tite. As reclamações no intervalo no Morumbi, no entanto, foram pequenas se comparadas a um dos momentos mais tensos da seleção com sua torcida...

Em Salvador.

Aconteceu em 1989, último ano em que a competição sul-americana foi disputada em território brasileiro. Meses antes do torneio, o Bahia havia conquistado o Campeonato Brasileiro da temporada anterior, fato fundamental para entender a revolta soteropolitana.

O atacante Charles era um dos principais nomes daquela equipe tricolor, ao lado de Bobô. Para a Copa América de 89, estava com a seleção no período de preparação, mas chegou às vésperas da viagem para Salvador, que receberia os primeiros jogos brasileiros, sem estar confirmado na lista de 20 convocados. O técnico Sebastião Lazaroni tinha 19 nomes definidos.

A definição deveria vir até o dia 30, véspera da estreia contra a Venezuela - curiosamente, também o rival da próxima terça. A viagem para a capital baiana, porém, aconteceu um dia antes, sem a lista final fechada, e Charles foi o jogador mais aclamado no desembarque.

O clima se transformaria no dia seguinte, com a confirmação de que o baiano não ficaria no grupo: no programa Telesporte, da TV Itapoan (na época, ligada ao SBT, hoje à Record), líder de audiência na região, o comentarista Raimundo Varela liderou campanha pelo boicote à seleção. No treino da equipe, Lazaroni foi xingado enquanto concedia entrevista coletiva.

Nos bastidores, a escolha do treinador também teve repercussões. Ricardo Teixeira, então presidente da CBF, defendeu a permanência de Charles para evitar “uma semana infernal” em Salvador, como escreveu na Folha de S.Paulo Luciano Borges, hoje produtor da ESPN.

Eurico Miranda, então diretor da CBF, falou em “erro tático que poderia ter graves consequências” e defendeu que Charles ficasse com as vagas de Cristóvão (Borges, hoje treinador), Silas ou Baltazar. A justificativa de Lazaroni? “Gosto de olhar nos olhos dos meus atletas. Se faço isso, como vou falar com esses jogadores depois?”, disse.

Na concentração da seleção, no hotel que curiosamente se tornou o mesmo que o Brasil está hospedado em 2019, mais problemas. O então presidente do Bahia, Paulo Maracajá, invadiu o apartamento de Charles ao ser comunicado da dispensa e o retirou imediatamente do local.

“O Charles me garantiu que queria ficar com o grupo, mas o Maracajá não quis nem diálogo e foi logo mandando o jogador pegar a mala”, disse o então supervisor da seleção Paulo Angioni.

Veio, então, a estreia contra a Venezuela, e a seleção foi vaiada na Fonte Nova. Mais do que isso: a torcida chegou a disparar rojões sobre a comissão técnica. Bandeiras do país eram queimadas nas arquibancadas. Só que, por ironia do destino, Bebeto, baiano e um dos mais revoltados com a situação, marcou um dos gols da vitória por 3 a 1 e cobrou a torcida.

Em seguida, jogo contra o Peru, que também será rival brasileiro nesta Copa América. O clima foi ainda pior: na subida ao campo, Renato Gaúcho, hoje técnico do Grêmio, levou uma ovada.

“É uma coisa que chamou muita atenção. Os titulares subiram a escada para o campo. Quando nós, os reservas, estavam subindo, o Renato Gaúcho, que usava uma cabeleira... Jogaram muitos ovos embaixo daquela cabeleira. Foi uma coisa horrível”, relembra o goleiro Acácio.

Em campo, empate em 0 a 0, e Lazaroni sentia a pressão. "Se eu quiser continuar no cargo, terei de vencer a Copa América. Não era assim antes. Agora mudou", afirmou.

O próximo compromisso, a Colômbia e, na preparação, Charles treinou com o time, o que fez a seleção ser aplaudida em atividade no CT do Galícia. No jogo, porém, novo empate sem gols.

Foi o fim da passagem por Salvador daquela seleção, que foi vencer o Paraguai, por 2 a 0, dois gols de Bebeto, no Arruda, no Recife, para garantir a classificação. Depois disso, veio quadrangular final, todo disputado no Maracanã, contra Argentina, Paraguai e Uruguai, no qual, com três vitórias, o Brasil confirmou o título, então o seu quarto na Copa América.

Já a Fonte Nova, desde 89, ficou sem receber jogos oficiais da seleção até a Copa das Confederações de 2013, em vitória por 4 a 2 sobre a Itália – foram três amistosos no período.

No total, o desempenho brasileiro no estádio é ótimo: 13 jogos, com nove vitórias, quatro empates e nenhuma derrota. Na última partida, 3 a 0 sobre o Peru nas eliminatórias em 2015.