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Lado B da Copa América: Há 98 anos, charge na Argentina retratou brasileiros como 'macacos', e até presidente 'vetou' jogadores negros

Esta é a décima matéria da série Lado B da Copa América, que trará histórias relacionadas ao torneio que acontece no Brasil em 2019. Nada de esquema tático ou entrevistas de frases feitas, porém. Aqui, o conteúdo irá muito além das quatro linhas...

A história a ser contada se passou em 1921, na Argentina. Mas ela começa um ano antes.

Após conquistar seu primeiro título internacional em 1919, na Copa América que jogou em casa, o Brasil não foi bem na competição de 1920, sediada no Chile. Após uma vitória por 1 a 0 na estreia, contra os anfitriões, vieram duas derrotas - inclusive um 6 a 0 do Uruguai.

Eliminada, a seleção fez uma parada na Argentina para um amistoso e foi recebida com uma charge racista do jornal 'Crítica'. Na arte em questão, os jogadores brasileiros eram representados como macacos (veja abaixo). Sisson, capitão da equipe, incentivou um boicote à partida. Do mesmo jeito, Oswaldo Gomes, chefe da delegação, improvisou um time de sete atletas, que entrou em campo e perdeu de 3 a 1.

Lima Barreto, jornalista e escritor negro, autor de "Triste Fim de Policarpo Quaresma", respondeu a charge com uma crônica, tentando reatribuir valor ao termo "macaco" - algo que não foi conquistado até hoje. Em seu texto, ele diz que "não há nenhum insulto em chamar-nos de macacos. O macaco, segundo os zoologistas, é um dos mais adiantados exemplares da vida animal; e há mesmo competências que o fazem, senão pai, pelo menos primo do homem. Tão digno ‘totem’ não nos pode causar vergonha”. De nada serviu.

Assim sendo, chegamos em 1921. O Brasil foi à Argentina, país-sede da competição, sem negros. Epitácio Pessoa, presidente da república, se reuniu com os diretores da CBD (atual CBF) e pediu que apenas jogadores de pele mais clara e cabelos lisos fossem convocados.

Kuntz, Telefone e Barata; Laís, Alfredinho e Dino; Zezé, Candiota, Nonô, Machado e Orlando Torres — a equipe do técnico Ferreira Vianna Netto era branco, singular, pálido; mais ainda em fotos preto e branca.

O presidente negou publicamente que tenha feito tal pedido, mas o corte de Luís Antônio da Guia, irmão de Domingos da Guia, foi a primeira prova da veracidade da história, depois confirmada com a equipe. A história apresenta mais provas:

Os senhores absolutos do esporte, num golpe reprovável, sem base, anti-esportivo, excluem do quadro nacional (…) os negros e mulatos”, publicou O País, em 17 de setembro de 1921.

O livro Football et Mondialisation, publicado na França em 2006, também lembra o caso: “Em 1921, o presidente brasileiro Epitácio Pessoa formulou um decreto de brancura que proibia, por motivos de prestígio patriótico, selecionar jogadores com a pele negra."

E, assim como em 1920, Lima Barreto se posicionou. Em crônica publicada em outubro de 1921, foi contundente, lembrando também do que falou o "Correio da Manhã":

O football é eminentemente um fator de dissensão. Agora mesmo, ele acaba de dar provas disso com a organização de turmas de jogadores que vão à Argentina atirar bolas com os pés, de cá para lá, em disputa internacional. O Correio da Manhã, no seu primeiro suelto de 17 de setembro, aludiu ao caso. Ei-lo: O Sacro Colégio de Football [a CBD] reuniu-se em sessão secreta, para decidir se podiam ser levados a Buenos Aires, campeões que tivessem, nas veias, algum bocado de sangue negro — homens de cor, enfim. (...) O conchavo não chegou a um acordo e consultou o papa, no caso, o eminente senhor presidente da República.

Sua Excelência que está habituado a resolver questões mais difíceis como sejam a cor das calças com que os convidados devem comparecer às recepções de palácio; as regras de precedência, que convém sejam observadas nos cumprimentos a pessoas reais e principescas, não teve dúvida em solucionar a grave questão." Foi sua resolução de que gente tão ordinária e comprometedora não devia figurar nas exportáveis turmas de jogadores; lá fora, acrescentou, não se precisava saber que tínhamos no Brasil semelhante esterco humano.”

Caso o presidente tenha tentado defender tal seleção branca com argumentos de habilidade e qualidade dentro de campo, o argumento morrera fácil. Arthur Friedenreich, negro de olhos verdes, era apelidado à época como “El Tigre”, “Mulato de olhos verdes” ou “Rei do futebol”. Dizem que o atacante simbolizava essa época em que o futebol prestigiava jogadores mulatos, uma vez que conseguissem disfarçar sua negritude - em seu caso, por ser filho de mãe negra com pai alemão.

Fried foi o primeiro ídolo do futebol nacional, sendo artilheiro e fazendo o gol do título da Copa América de 1919, o primeiro título da seleção. Nem assim, foi à Buenos Aires na competição de 2021.

Sem negros, sem título. Após três jogos, duas derrotas e uma vitória, o Brasil terminou a competição em segundo lugar. A Argentina levou seu primeiro título, se igualando aos brasileiros, com uma taça, atrás do Uruguai, tricampeão.

Apesar do vice campeonato, a seleção ficou marcada pela má campanha, e o povo não aguentava mais a falta de Friedenreich. Com clamor popular, ele voltou a jogar na Copa América de 1922, no Rio de Janeiro. O Brasil foi campeão, e Pessoa revogou seu decreto.