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João Pedro foi garimpado pelo Fluminense após viagem de 17 horas de ônibus: 'Parecia o Robinho'

Grande sensação do Fluminense na temporada, João Pedro está encantando os torcedores. Ele fez três gols e deu uma assistência na goleada por 4 a 1 contra o Atlético Nacional, da Colômbia, em jogo válido pela Copa Sul-Americana.

Filho do ex-volante Chicão, que foi vice-campeão paulista com o Botafogo de Ribeirão Preto em 2001, João Pedro começou em uma escolinha do próprio time tricolor, aos cinco anos.

Depois, passou por franquias de Santos e Corinthians na cidade do interior de São Paulo antes de ser descoberto em um torneio em Val Paraíso. Um dos principais responsáveis pela vinda do jovem foi Luiz Felipe, que à época era auxiliar do Sub-11 do Fluminense e trabalhava como captador de talentos.

"Eu viajava bastante para fazer captação em quase todo Brasil. O Ricardo Correa me ligou falando que tinha avaliação em cinco cidades do interior de São Paulo. Ele disse: ‘O que você acha, dá para ir? Nossa verba não é de avião e você precisará ir de ônibus’. Respondi: Não tem problema. Peguei 17 horas de viagem e fui para a competição", disse, ao ESPN.com.br.

"Ela era de Sub-11 até Sub-17. Vi o torneio todo. Quando vi o João, lembrei na hora do Robinho, do Santos. Era igualzinho! Jogava no meio e naquela categoria jogava o campo todo. Quando vi batendo na bola, os dribles, muito liso. Lembrei na hora do Robinho, daquele vídeo dele dos tempos de futsal", contou.

Luiz Felipe voltou à noite para o hotel e como estava com fome resolveu sair para jantar em alguma lanchonete.

"Tinha uma barraquinha de cachorro quente na praça em frente e quando chego lá quem estava sentado? O João Pedro, a mãe dele e mais dois garotos que atuavam com ele. Dei os parabéns pelo jogo e falei para eles que era funcionário do Fluminense. Fiz um convite para eles conhecerem a nossa estrutura de Xerém", explicou.

"Eu o vi jogar no dia seguinte e ele foi bem outra vez. Fiz um relatório ao departamento de captação do Fluminense e mantive contato com a família. Nesse tempo outros times convidaram o João Pedro, mas a Flávia, mãe dele, foi muito firme", elogiou.

Chamado para fazer testes em Xerém, ele foi aprovado rapidamente e mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, em 2012.

"Quando ele veio ao Fluminense, tínhamos trazido outro menino muito bom também, mas os pais não o deixaram ficar. Acho que eles não gostavam do Rio de Janeiro. Mas o João foi bem e permaneceu", contou.

Apesar da oportunidade, a família passou por muitas dificuldades financeiras. Sem receber o aluguel da casa que possuíam em Ribeirão, a ajuda de custo de R$ 300 por mês oferecida pelo Fluminense não era suficiente para as despesas.

"A gente estava passando necessidade. Eu tinha uma calça, um tênis...Minha mãe comia ovo todo dia e deixava o pedaço de carne para mim. Ela sempre me apoiou e dizia que era importante eu comer. Eu não desisti por causa dela e isso me deixa mais forte", disse o atacante, à Fox Sports.

A mãe de João Pedro foi falar com o diretor da base do Flu. Após explicar a situação, o clube fez um novo contrato com o garoto e a situação passou a melhorar. A gratidão pelo gesto foi tão grande que a família depois recusou ofertas de outras equipes brasileiras.

Na base do Flu, ele alternou período entre os reservas e os titulares por causa do físico franzino. Em 2018, teve uma rápida ascensão após deixar de ser atacante que atuava pelos lados para ser mais um centroavante

Com isso, passou a balançar as redes de forma contundente. Fez 38 gols (dois deles em amistosos) pelo time sub-17 e foi vendido por 10 milhões de euros (R$ 45 milhões) ao Watford, da Inglaterra, antes mesmo de chegar ao profissional.

Promovido este ano ao time principal, João Pedro foi lançado por Fernando Diniz. Desde então, fez sete gols e deu duas assistências.

"Até hoje mantenho contato com a Flávia e com João. Você trabalhando nessa área acaba entrando na vida deles também. Digo que a Flávia é uma das grandes responsáveis por isso porque foi batlhadora. Ela pediu transferência de emprego de Ribeirão para o Rio e depois ficou desempregada. Eles passaram muito sufoco", recordou.

"Quem sabe não teremos um grande jogador de seleção brasileira no futuro? Ele tem muito talento e condições para chegar longe na carreira".

O garoto deve se apresentar ao time inglês em janeiro de 2020, quando já terá completado 18 anos.

Luiz Felipe trabalhou no Fluminense como captador de talentos, auxiliar técnico e treinador das categorias de base, sendo campeão brasileiro Sub-20. Também teve passagens por Vasco e Ceará, antes de assumir o time profissional do Serra Macaense, equipe que disputará a partir de primeiro de junho o Campeonato Carioca da Série B1.