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Há 50 anos, Corinthians enfrentava seu maior luto e surgia o apelido Porco para o Palmeiras

Dois temas aparentemente desconexos marcaram Corinthians e Palmeiras há 50 anos. Um deles continua presente na rotina alviverde, enquanto o outro acabou se perdendo durante o tempo e é possível que os jovens alvinegros o desconheçam.

Para entender essa história é necessário contá-la de forma cronológica.

O ponto de partida é a virada do dia 27 para 28 de abril de 1969, quando o lateral-direito Lidu, 22, e o ponta-esquerda Eduardo, 24, ambos do Corinthians, morreram em um acidente de carro na Marginal do rio Tietê, em São Paulo.

Provavelmente poucos conhecidos hoje, eles viviam, há 50 anos, os melhores momentos das carreiras. Eram titulares do time alvinegro. Eduardo tinha até sido convocado algumas vezes para a seleção brasileira por João Saldanha.

No final da noite de 27 de abril, ambos voltavam de uma comemoração pelo bom momento corintiano no Campeonato Paulista. Tinham jantado no restaurante Recreio Chácara Souza, no bairro de Santana, na zona norte.

O motivo para festejos é que o Corinthians, que não vencia o estadual desde a edição de 1954, fazia uma campanha notável. Tinha vencido todos os clássicos (inclusive contra a Portuguesa, jogo que tinha esse status, somava só uma derrota e liderava o Grupo B. Dos 30 pontos disputados, somava 26. Eram 12 vitórias, dois empates e somente uma derrota.

Mas, ao regressarem do restaurante de Santana para o Parque São Jorge, sede do Corinthians e local onde ainda residia Lidu (Edu morava há algumas ruas do clube), um acidente na avenida Marginal Tietê (em construção) mudou tudo.

A dupla estava a bordo de um Fusca, cor "castor" (segundo os jornais da época), com placa 9-26-79. Lidu conduzia o veículo pela pista da Marginal, mas perdeu o controle a 50 metros da ponte da Vila Maria, invadiu a contra-mão (na época, só havia pista em uma margem e com fluxo nos dois sentidos) e capotou na pista contrária.

O fato de o carro ter sido encontrado no sentido oposto ao caminho para o Parque São Jorge causou inicialmente uma interpretação equivocada dos fatos. A perícia acreditava que os jogadores tinham deixado o estádio corintiano e estavam se deslocando para o centro da cidade. Só depois do relato das testemunhas é que se esclareceu o trajeto correto.

De acordo com a "Folha de S.Paulo" da época, os peritos cogitaram três possibilidades para o acidente.

A primeira é que Lidu "teria se distraído momentaneamente e só no último momento percebeu o ligeiro desvio da pista para a esquerda. Para evitar a guia e o poste que surgiam, desviou o carro bruscamente para a esquerda, perdendo seu controle, subindo no canteiro que separava as duas pistas, capotando e indo parar na pista de mão sentido contrário".

A segunda possibilidade: "O carro teria sido fechado por outro veículo, que trafegava em uma transversal, existente no local”. A terceira: "O carro teria desviado para a esquerda para evitar pedras ou buracos”, perdeu o controle e capotou.

Até hoje não há uma conclusão de como foi o acidente. O que conseguiu se constatar na época é que o carro estava a uma velocidade superior a 80 quilômetros por hora, única forma de ter capotado.

Espírito de porco

Qual o papel do Palmeiras nessa história?

Os jornais da época registraram que o clube alviverde foi o único a votar contra o pedido do Corinthians para inscrever dois novos jogadores no Campeonato Paulista nas vagas de Lidu e Eduardo.

Isso aconteceu em uma reunião do conselho arbitral do campeonato na sede da Federação Paulista de Futebol, ainda na avenida Brigadeiro Luís Antônio, em 2 de maio de 1969. Estiveram presentes os 14 representantes dos clubes do torneio e quem presidiu o encontro foi José Ermírio de Moraes Filho, presidente em exercício da entidade estadual.

Representando o Palmeiras, estava o diretor de futebol José Gimenez Lopes. Ele foi um dos últimos a se manifestar --depois vieram Santos, São Paulo e XV de Piracicaba-- e votou "Não", dando justificativas depois do encontro.

"Se eu, em nome do Palmeiras, desse o 'sim' e não quebrasse a provável unanimidade, estaria admitindo as modificações pretendidas e que poderiam não ter legitimidade perante os órgãos superiores", disse Lopes.

"Além de tudo, o Palmeiras já teve problema idêntico. Luiz Carlos morto em acidente também automobilístico [em 1966] e Suingue, seriamente ferido. Que se processe a coisa legalmente e então discutiremos", completou.

O cartola alviverde foi uma figura muito marcante na história do Palmeiras, com diversas passagens (e brigas) no departamento de futebol do clube. Ele era conhecido pela frase "Se é bom para eles, é ruim para nós". Para Lopes, "eles" eram os corintianos.

Contrariado, o Corinthians afirmou no mesmo dia da reunião que aceitava a decisão e que prosseguiria no campeonato com o elenco que tinha à disposição. Mas não foi bem assim que a história ficou entre os torcedores.

O que entrou para a história é que o presidente corintiano Wadih Helu teria acusado o Palmeiras de ter "espírito de porco", algo que jamais foi documentado, mas acabou sendo utilizado como provocação nos Dérbis.

"Não me recordo da provocação do Wadih Helu ao Palmeiras. Aliás, não tenho recordações do presidente corintiano fazendo referências pejorativas a clubes rivais. Acredito que foi a própria torcida do Corinthians começou com essa coisa de porco, relacionando o Palmeiras com o porco", disse Celso Unzelte, comentarista dos canais ESPN.

No entanto, segundo o jornalista e professor, o apelido já tinha sido usado de forma pejorativa contra os palmeirenses.

"Em 1969, o porco é a retomada de uma provocação. Porco era uma denominação pejorativa em geral aos italianos na época da Segunda Guerra Mundial. Em particular, no âmbito do futebol, embora a gente não tenha muita documentação sobre isso, mas sabe-se que quem fazia oposição ao Palestra Itália no pós-guerra, forçando a barra para mudar de nome para Palmeiras, utilizava-se essa denominação porco de forma pejorativa. Depois caiu no esquecimento", disse.

"A tragédia de Lidu e Eduardo e o voto contrário de José Gimenez Lopes acabam evocando a história do espírito de porco, mas era uma coisa mais de arquibancada. De novo, não há documentação sobre isso. A provocação ganha força nos anos 70 e se consolida nos anos 80, quando alguém solta um porco no Morumbi com a camisa do Palmeiras. E depois acaba sendo assumida pelo Palmeiras em 1986, quando o Jorginho, que era ídolo do time, posa para a capa da revista 'Placar' com um porquinho no colo", afirmou Celso Unzelte para a reportagem.

Como ele disse, o apelido, usado de maneira pejorativa, acabou sendo adotado como mascote oficial pelo Palmeiras em 1986. Houve uma tentativa anterior, em 1983, mas que foi frustrada e gerou briga dentro do clube.

Mas o jornalista lembrou que a provocação corintiana tinha também uma resposta palmeirense.

"Na mesma época se chamava o corintiano de cachorro, algo que não existe mais. Lembro-me de um adesivo com a seguinte frase: 'Porco verde não existe, isso eu posso garantir, mas cachorro preto e branco está cheio por aí'".

Corinthians em 1969

Essa longa história acabou sendo esquecida por que o final de Campeonato Paulista para o Corinthians também foi traumático. O clube até se classificou para o quadrangular final, mas já vinha em baixa.

Após a tragédia de Lidu e Eduardo, o time fez dez jogos, com quatro vitórias, dois empates e quatro derrotas. Conquistou 10 dos 20 pontos que disputou e perdeu os primeiros clássicos --para Palmeiras (0x2) e São Paulo (0x2).

A vaga no quadrangular final foi comemorada, mas o time alvinegro perdeu os três clássicos decisivos. Caiu para o Santos (1x3), São Paulo (2x3) e Palmeiras (2x3). Terminou em último e somou o 15º ano consecutivo na fila.