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Campeonato Carioca: os regulamentos mais difíceis e bizarros da história no Rio de Janeiro

O Campeonato Carioca finalmente chega às suas semifinais neste sábado, quando Flamengo e Fluminense abrem o mata-mata decisivo, às 19h, no Maracanã. O que mais gerou repercussão neste Estadual, entretanto, não foi o campo e a bola, mas sim o regulamento considerado complicado por torcedores, jornalistas e até mesmo jogadores.

Mas se o fã do esporte pensa que o ‘Cariocão’ deste ano é difícil de entender... A história mostra que a versão 2019 é fácil até demais.

“O de 1973, por exemplo, até agora não entendi”, brincou o jornalista Roberto Assaf, coautor do livro 'História dos Campeonatos Cariocas de Futebol: 1906-2010', em contato com o ESPN.com.br. A obra, feita ao lado de Clóvis Martins, é uma boa fonte para se entender como funcionavam os complexos regulamentos do torneio. Entre eles, cinco edições se destacam entre as mais confusas da história!

Clique no campeonato para (tentar) entender:

Carioca 1973: nem o especialista entendeu

Carioca 1990: deu volta olímpica, mas não foi campeão

Carioca 1995: octogonal com bonificações

Carioca 1997: final de seis pontos

Carioca 2002: o ‘Caixão 2002’

Bônus: o torneio de 90 anos

Carioca 1973: nem o especialista entendeu

O Campeonato Carioca de 1973 teve três turnos. O primeiro era a Taça Guanabara; o segundo, a Taça Francisco Laport. O terceiro era dividido em dois grupos: o Troféu Pedro Novaes e o Troféu José Ferreira Agostinho.

O primeiro turno foi disputado em pontos corridos por 12 clubes. Os quatro últimos foram eliminados, ao passo que o Flamengo, primeiro colocado, foi campeão.

O segundo turno também foi em pontos corridos, mas só com 8 clubes. O Fluminense ficou em primeiro e foi campeão.

O terceiro turno teve um campeão em cada grupo: o Vasco no Pedro Novaes e o Fluminense no José Ferreira Agostinho.

“O Vasco ganhou o grupo A do terceiro turno, mas não foi às finais, porque o regulamento previa que o clube campeão desta chave deveria disputar uma partida extra com o clube que houvesse vencido um dos turnos anteriores, no caso o Flamengo. O jogo foi 0 a 0, e o Flamengo, que levava a vantagem do empate por ter ganho um turno de 12 clubes, eliminou o Vasco. O Fluminense, que ganhou o grupo B do terceiro turno, entrou em vantagem na decisão do título, contra o Flamengo. Venceu o primeiro jogo e foi campeão”, explica Roberto Assaf.

Entendeu?

Carioca 1990: deu volta olímpica, mas não foi campeão

A final do Carioca de 1990, assim como em 2019, não seria disputada pelos campeões de turno. Pelo contrário: a equipe de melhor campanha garantia vaga direta na decisão, enquanto a semifinal única seria jogada pelos vencedores de Taça Guanabara e Taça Rio.

Os turnos, por sua vez, foram disputados em pontos corridos, sem mata-mata.

O Vasco ganhou a Taça Guanabara e o Fluminense ganhou a Taça Rio. Mas foi o Botafogo, segundo lugar nas duas e com apenas uma derrota, que teve a melhor campanha e foi direto para a final.

O Vasco venceu a semifinal e foi para a final contra o Botafogo. E aí tudo se complicou.

“O alvinegro venceu o Vasco por 1 a 0 e levantou o título. Mas não foi tão simples assim. O Vasco questionou a conquista do Botafogo ainda no gramado do Maracanã, alegando que o Glorioso não havia entendido o regulamento. Segundo os dirigentes cruzmaltinos, em caso de vitória do Botafogo no tempo normal, seria obrigatória a disputa de uma prorrogação. O time do Vasco ficou em campo, aguardando o início da etapa extra, enquanto os alvinegros preparavam a volta olímpica”, explica Roberto Assaf.

“Enquanto o Botafogo comemorava, o juiz Cláudio Garcia esperava o time da estrela solitária para começar a prorrogação. Passados alguns minutos, o Vasco desistiu de aguardar e também resolveu dar a volta olímpica. Enquanto o Botafogo desfilava com a taça oficial, o time de São Januário corria pelo gramado com uma caravela arranjada às pressas”, conta o jornalista.

A confusão foi parar no STJD, que decretou o Botafogo como campeão.

Carioca 1995: octogonal com bonificações

O Carioca de 1995 foi disputado num octogonal final: oito clubes jogando em pontos corridos para decidir o campeão. Mas essa é a única parte fácil do regulamento.

A fase inicial tinha 16 clubes divididos em dois grupos de oito. Esses grupos jogaram entre si em turno e returno, com o melhor colocado de cada turno em cada chave ganhando um “ponto bônus” para a fase final.

Além disso, a melhor campanha geral de cada grupo (considerando turno e returno) se classificava para a final da Taça Guanabara, que por sua vez também rendia um “ponto bônus” ao campeão.

Classificavam-se para o octogonal os quatro melhores colocados de cada grupo (considerando turno e returno).

O Flamengo ganhou os dois turnos do Grupo A e faturou a final da Taça Guanabara, chegando ao octogonal com três pontos de bonificação. Botafogo e Vasco ganharam um turno cada do Grupo B, chegando na fase final com um ponto de bonificação.

O Fluminense, que chegou ao octogonal com nenhum bônus, somou mais pontos que todos na fase final e acabou campeão carioca – com gol de barriga de Renato Gaúcho na última rodada, ultrapassando o então líder Flamengo.

  • Bizarrice extra: o Entrerriense, oitava melhor campanha, teve que disputar uma repescagem contra o melhor time da segunda divisão para garantir vaga no octogonal final.

Carioca 1997: a final de seis pontos

Botafogo e Vasco fizeram a final do Carioca de 1997 numa “melhor de seis pontos”. Mas tem um detalhe: o time alvinegro já chegou na decisão com quatro pontos de bônus. Explica-se.

O regulamento previa três turnos: a Taça Guanabara, com 12 clubes, a Taça Rio, com 8 clubes, e o 3º turno, com seis equipes. Se um time ganhasse todos os turnos, seria campeão.

O Botafogo faturou os dois primeiros turnos, ao passo que o Vasco foi campeão da terceira etapa – com direito a polêmica de bastidores e o Flamengo abandonando o campeonato.

Por ter ganhado Taça Guanabara e Taça Rio, a equipe da estrela solitária entrou com quatro pontos bônus na final. O Vasco venceu a primeira partida e diminuiu a desvantagem, mas uma vitória do Botafogo na segunda partida consolidou a taça, chegando a sete pontos.

Carioca 2002: o ‘Caixão 2002’

O Carioca 2002 começou com uma determinação: os quatro grandes estão na fase final.

Os quatro pequenos que somassem mais pontos durante os dois primeiros turnos (Taça Guanabara e Taça Rio) se juntariam aos grandes na fase final. Classificaram-se Americano, Bangu, Friburguense e Volta Redonda.

Flamengo, Fluminense, Botafogo e Vasco colocaram times alternativos e o Americano foi campeão dos dois turnos.

“O Carioca de 2002, também chamado de Caixão, foi muito achincalhado porque os quatro grandes jogavam com reservas e juniores, embora na hora decisiva tenham utilizado os titulares, pois estavam eliminados do Rio-São Paulo”, diz Roberto Assaf.

“É evidente que o objetivo principal da então presidente da Federação, Eduardo Vianna, o Caixa D’água, ao elaborar um campeonato tão longo - começou em 1º de fevereiro e acabou em 27 de junho – era tumultuar o Rio-São Paulo, do qual vários clubes cariocas participaram, sem que nenhum conseguisse passar à fase final”, explica o jornalista.

A fase final teve dois grupos de quatro, nos quais se classificavam os dois primeiros de cada para as semifinais. Só o Fluminense avançou entre os grandes, ao lado de Bangu, Friburguense e Americano. O time tricolor se sagrou campeão ao bater o Americano na final.

Bônus: o torneio de 90 anos

O Campeonato Carioca de 1907 foi disputado por apenas quatro clubes, mas seu título ficou em disputa na justiça por 90 anos.

O regulamento era até simples: Fluminense, Botafogo, Paysandu e Internacional se enfrentavam em turno e returno, por pontos corridos. Quem somasse mais, era campeão.

A Associação Athletica Internacional, porém, complicou tudo. Ela foi suspensa pela Liga Metropolitana de Sports Athléticos e não pode enfrentar o Fluminense. Tampouco apareceu para jogar contra o Botafogo, posteriormente.

As duas equipes grandes terminaram empatadas em pontos e o Flu tinha mais saldo de gols. Sentindo-se prejudicado, o Botafogo sugeriu um jogo extra para decidir o campeão, mas seus rivais alegavam que já existia o critério de desempate.

“Discussões se seguiram, sem que a Liga conseguisse encontrar uma solução que pudesse satisfazer as duas partes. A crise provocou a dissolução da entidade, a 28 de outubro, e a extinção do Internacional. E a cidade ficou sem campeão”, conta Roberto Assaf.

Após (muitas) idas e vindas na justiça, em 1996 a Ferj declarou os dois como campeões oficiais.