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Flamengo: 'Aí, eu conheci o tal do silêncio', diz brasileiro do Peñarol que calou 90 mil no Maracanã

A história do Maracanazo, todo mundo conhece. Esse é o termo que a História consagrou para designar a derrota brasileira, num Maracanã com cerca de 200 mil pessoas, na final da Copa de 1950, contra o Uruguai.

Menos pessoas, porém, são familiarizadas com a história do "Segundo Maracanazo".

"Aí, eu conheci o tal do silêncio", disse Jair, vulgo "Jajá Príncipe" ao ESPN.com.br. Como se fosse hoje, o homem que calou mais de 90 mil pessoas em 16 de novembro de 1982, quando o Peñarol bateu o Flamengo por 1 a 0, na fase semifinal da Libertadores daquele ano, recorda-se de cada detalhe.

O confronto que desclassificou os rubro-negros e qualificou os carboneros para enfrentar o Cobreloa na final foi o segundo entre os gigantes sul-americanos. O terceiro acontece nesta quarta (3), no mesmo palco, às 21h30.

"A gente sabia que o nosso time era pior. O Flamengo nos dava um banho no papel", relembra-se Jajá, ao falar do time que enfileirava talentos como Leandro, Tita, Adílio, Nunes, Júnior e Zico.

Mas o Fla também sabia que o Peñarol tinha uma arma que, se não era secreta, era notadamente letal: as cobranças de falta de Jair.

"Antes do jogo, o Carpegiani, que me conhecia do Inter, tinha avisado aos jogadores para não fazerem faltas na entrada da área, por minha causa", conta Jajá. Mas foi exatamente isso que Figueiredo fez ao empurrar o centroavante Fernando Morena, aos 23 do 1º tempo.

"O (goleiro) Cantareli sabia como eu batia: de trivela, no lado esquerdo do goleiro. Um pouco antes de cobrar, o Morena veio no meu ouvido para avisar que o goleiro deles estava no 'meu canto'", conta Jair.

Restou a Jajá mudar o jeito de cobrar. E, a Cantareli, buscar a bola no fundo do véu de noiva do Maracanã, enquanto Jair e os seus colegas uruguaios comemoravam um inesperado 1 a 0 contra os atuais campeões mundiais e da Libertadores, que seguiria até o apito final.

O Peñarol tomaria um sufoco enorme, com o goleiro Fernández tendo de fazer defesas atrás de defesas, em chutes de Nunes, Zico e Adílio.

"Tudo dava errado para eles. Zico perdeu gols embaixo da trave. O Nunes deu um calcanhar dentro da pequena área que acabou indo exatamente na direção do Fernández", conta Jajá. "O que aliava a pressão era uma chuvinha insistente que caiu durante quase o jogo inteiro", diz.

Com a vitória, o Peñarol abriu caminho rumo ao título. Rota, aliás, facilitada por uma manobra do presidente do clube, Washington Cataldi, que conseguiu tirar da repleta de areia do deserto e alta (2.400 m de altitude) cidade de Calama, e levar para Santiago, a finalíssima do torneio.

"Ainda bem. Porque lá, com a dificuldade da altitude, já e difícil respirar. Aí, você puxa o ar, e ele vem com areia, é impossível se sentir bem", lembra-se Jajá.

A mudança facilitou bem a tarefa dos uruguaios, que empataram sem gols, em casa, com os chilenos. Mas, no Estádio Nacional, na capital chilena, o uruguaios venceram por 1 a 0, com gol de Morena, aos 44 do 2º tempo.

"A gente já estava pensando no terceiro jogo quando o 1 a 0 aconteceu", confessa Jair.

O MUNDO É AURINEGRO

Se bater o Flamengo e o Cobreloa já fora surpreendente para os carboneros, vencer o Aston Villa em Tóquio, no Mundial Interclubes, era praticamente um delírio.

Mas Jair decidiu estudar qual seria o jeito mais fácil de fazer isso. E conta ter percebido que o goleiro inglês Jimmy Rimmer, de mais de 1,90, tinha dificuldade em seu canto inferior direito.

"Até ele chegar lá, no cantinho, demorava um tempão", conta, entre risos, o brasileiro.

Foi lá que Jajá cobrou falta, aos 27 da primeira etapa para fazer 1 a 0. Aos 23 da segunda, Walkir Silva faria o segundo e garantiria o troféu.

"Pelo Peñarol, conquistei tudo que dava: Liga, liguilla (eliminatória para a Libertadores), Libertadores e Mundial", conta o brasileiro, que se considera um quase uruguaio.

"Eu conquistei uma segunda pátria. Quando vou para lá, até hoje sou festejado, me abraçam, me beijam", conta orgulhoso, Jajá.

E pensar que ele só foi parar em Montevidéu por ter sido trocado, sem sua vontade, por Ruben Páz, pelo Inter.

"Um ano antes, eu estava indo para o Atlético de Madrid, mas o negócio deu errado, porque o presidente pediu muito alto. Um ano depois, chegava a um futebol falido, de um país que não ganhava nada, nem com seleção, nem com clube, há 13 anos", conta Jajá.

"Minha mulher foi quem insistiu, porque lá eu ia ter chance de mostrar meu futebol. E ela estava certa", diz.

GARRA

Assim como na época de Jajá, o atual Flamengo, ao menos no papel, é bem superior ao Peñarol.

E, como naquela época, existe esse conhecimento por parte dos jogadores.

É aí que entra em cena a garra uruguaia, que Jajá conhece bem e que exalta com gosto.

"Eu não sei o que acontece. Eles viram leões em campo", diz Jajá. "Eles sabem jogar esse tipo de competição, parece que jogam pela honra do país sempre que entram no gramado", diz ele.

"Vai ser um jogo difícil, este de hoje. A ser decidido pelos detalhes", acredita.

Como foi aquele confronto, 25 anos atrás. Por um detalhe chamado Jair.