Apenas nove meses após sair do Real Madrid como o único treinador da história a vencer três vezes seguidas a Uefa Champions League, Zidane está de volta ao Santiago Bernabéu. Em sua primeira passagem pelo time merengue, o técnico conquistou títulos importantes e uma grande admiração dos jogadores.
O ESPN.com.br conversou com alguns brasileiros que trabalharam com o francês ao longo da carreira. Nos depoimentos, eles falaram como é trabalhar com o antigo craque e a forma como ele lida com o elenco.
Nunca tira o craque
Para alcançar o tricampeonato da Champions League, "Zizou" fez uso de seu próprio segredo do sucesso: nunca tirou Cristiano Ronaldo de campo.
Nos três anos em que o Real terminou como campeão sob seu comando, o português jogou praticamente todas as partidas em sua totalidade. Há apenas duas exceções, ambas na temporada 2015/16: nas oitavas de final, quando foi substituído no minuto derradeiro diante da Roma e na volta da semifinal, contra o Manchester City, quando não teve escolha e teve de vetá-lo do confronto por uma lesão muscular.
Sua filosofia de ter sempre seu melhor jogador em campo, aliás, provavelmente surgiu ainda em sua época de jogador. Nas oitavas de final da Champions League de 2004/05, o Real Madrid vencia e se classificava diante da Juventus de Fabio Capello, em pleno estádio Dele Alpi, mas tudo começou a cair por terra quando o então técnico Vanderlei Luxemburgo resolveu tirar o francês do jogo, no segundo tempo.
"Eu achei que jogando em casa eles iam partir pra cima, fazer marcação pressão mais forte, que seria mais dura. O jogo começou morno e eles lá atrás, esperando a gente. Na minha cabeça a equipe deles era muito boa. No segundo tempo eu preparei para que recebêssemos uma marcação pressão no começo e a Juventus da mesma forma", comentou "Luxa", em entrevista ao ESPN.com.br, lembrando daquela partida.
A Juventus fez 1 a 0 com Zalayeta e levou a partida para a prorrogação. "O Zidane cansou e não conseguia mais jogar. Eu o tirei e pus o Guti. Era uma substituição normal porque manteria a estrutura da equipe", continuou.
"Só que após ele sair, a Juventus veio para o abafa. Não deixava mais meu time respirar, ficaram em cima. Eles venceram e nos eliminaram. Eu fiquei com aquilo na cabeça. Eu chamei o Zidane para conversar na minha sala e falei: 'Zizou, o que aconteceu neste jogo? Estava quase ganho'. 'Mister, nós perdemos quando o senhor me tirou. Eles têm um respeito muito grande pela gente'. Eles não iam para cima com medo deles. O fator respeito acabou", recordou Vanderlei.
"Eu não imaginava que o Zidane seria treinador, mas já tinha perfil de liderança diante do grupo. Falava pouco, mas observava muito. E essa situação que ele me falou já é uma observação que jogador dificilmente percebe, aquilo ali o que acontece dentro do jogo. Ele era tático e responsável", completou o treinador.
Cobra muito e dá show...
Se, em campo, o Zidane jogador era daqueles de não gastar muitas palavras com os companheiros, à beira do gramado e nos treinamentos a situação é contrária.
Quem conheceu bem as cobranças do treinador foi Abner, lateral-esquerdo que está no Athletico-PR e que foi comandado por "Zizou" no Real Madrid Castilla - time de transição merengue - entre 2014 e 2015.
"Ele é bem tranquilo, mas, quando começa a trabalhar, ele cobra muito. É bem participativo em tudo. Ele fazia vários treinos com a gente dentro do gramado, dando passes, fazendo jogadas. Ele tem muita qualidade e muito inteligência. Ele passa a experiência que viveu no futebol para os jogadores", contou Abner, em entrevista ao ESPN.com.br.
O francês tinha uma maneira especial de inspirar seus comandados durante as atividades.
"Ele jogava com a gente nos rachões. A gente brincava muito com ele porque ele ainda está em forma e o controle de bola dele estava em dia (risos). Jogava bem ainda, dava um show", lembrou Abner.
"Uma vez estávamos treinando e achei uma coisa muito engraçada. Ele estava numa equipe e o Enzo, filho dele, na outra. Teve um lance que eles foram dividir a bola e o Zidane chegou duro (risos). Foi na bola, mas não deu mole. Achei bacana, nunca imaginei que ele poderia fazer isso", contou Danilo, quando foi comando por Zizou no time merengue, ao ESPN.com.br.
Admira brasileiros
Além da parte técnica, Zidane é descrito como um treinador que sabe gerir o grupo de jogadores.
"Ele é um cara muito técnico, sério e objetivo, mas é super aberto para conversas. Ele quer sempre vencer. Acho que isso nos ajudou [naquela época] demais a conquistarmos a Champions", relatou Dailo.
Abner já enxergava um potencial em Zidane já como treinador no Castilla.
"Por ter começado havia muito pouco tempo como treinador e ter assumido uma grande responsabilidade, ele estava preparado. Estudou para poder chegar onde está. Ele foi jogador e sabe como a gente pensa e quer. Isso ajuda muito no dia a dia. Ele gosta que o time jogue para frente e que tenha muito a posse de bola", relatou.
Apesar de ter sido carrasco do Brasil em duas Copas do Mundo (1998 e 2006), o antigo camisa 10 da seleção francesa é fã dos brasileiros.
"Zidane admira muito a qualidade dos brasileiros, dos caras que jogaram com ele e que viu jogar. Principalmente o Ronaldo e o Roberto Carlos, porque comentava que nos tempos em que era jogador se dava muito bem com eles. Ele gostava muito de jogar ao lado deles", disse Danilo.
