Sem ter passado por categoria de base alguma, ele precisou de apenas 90 dias para sair dos campos de várzea do Brasil, deixar de trabalhar como pintor e virar um jogador profissional.
Essa é a incrível história de Gustavo Henrique da Silva Sousa, o Gustagol, hoje atacante do Corinthians, que foi herói na vitória no clássico sobre o São Paulo, neste domingo.
Ele foi o artilheiro máximo da edição de 2014 da Copinha ao marcar nove gols pelo modesto Taboão da Serra. Foi o marco do início da vida no futebol do garoto nascido em Registro.
Gustavo tem origem humilde e uma história traumática. O pai dele ficou sete anos preso - voltou a ser encarcerado ano passado - e sua mãe precisou se desdobrar para criar o filho. Para ganhar dinheiro, ele auxiliava seu tio Sidney, que era pintor de paredes.
"Eu ficava bravo quando ele me chamava. Não gostava porque queria jogar bola na rua ou fazer outra coisa. Ele queria que eu ajudasse minha mãe. Eu estava com quase 18 anos e achava que não tinha mais chances de virar profissional", disse o centroavante, ao ESPN.com.br, em 2016.
"Meu tio me marcava melhor que os zagueiros, não deixava eu escapar nem dar 'migué' de jeito nenhum (risos)", recordou. O jogador havia tentado a sorte em vários clubes, mas sem conseguir sucesso.
"Tinha feito testes de segundo volante no Atlético Sorocaba-SP. Depois como atacante no Audax-SP, também passei pelo Funorte-MG como segundo volante. Eu fui junto com um amigo e não ficaram com ele, então não quis ficar por lá. Fui para o Cotia e não ficaram comigo", lamentou.
Ele ainda passou por um time comandado por Pavão, ex-lateral do São Paulo, mas desiludido, ficou apenas no futebol de várzea de sua região. Até que recebeu uma chance no Taboão da Serra, nas rodadas finais do Paulista Sub-20. No clube, mostrou seu "faro" de gol e balançou as redes por seis vezes em apenas quatro partidas. Mesmo assim, não tinha vaga garantida na edição do ano seguinte da Copa São Paulo.
"Eu era a quarta opção para o ataque e estava para ser mandado embora. Daí teve um amistoso contra o Santos, era minha última chance de mostrar serviço. Encarei como um prato de comida e fui muito bem, até a comissão técnica deles me elogiou demais", vibrou.
A partida foi passaporte para a mudança de vida de Gustavo, que foi relacionado para a Copinha, mas na reserva. O atacante titular, porém, estava contundido e a chance caiu no seu colo.
"A Copinha foi onde tudo começou, futebol as coisas mudam da noite para o dia. Você dorme reserva e acorda titular. Como estreei com três gols contra o Luverdense acabei engrenando", falou.
Gustavo foi marcando um gol atrás do outro e foi a sensação de janeiro daquele ano. Com a fase iluminada do atacante, o Taboão fez uma grande campanha, sendo eliminado apenas nas quartas de final para o Santos, que foi o campeão. Disputado por vários clubes, ele foi comprado pelo Criciúma.
"Depois disso, o assédio foi muito grande por parte de empresários, mas fui muito blindado por causa disso. Foi bom porque fui para um time que estava na primeira divisão. Trabalhei com grandes jogadores como Paulo Baier, Souza e Zé Carlos e Cléber Santana", recordou.
No time de Santa Catarina, ele passou um tempo no Sub-20 para aprimorar os fundamentos pela ausência de categorias de base e subiu ao time de cima. Depois foi emprestado para Atlético Tubarão-SC, Resende-RJ e Nacional-POR, antes de retornar ao "Tigre", no qual brilhou na Série B.
Ele foi contratado pelo Corinthians em 2016, mas em sua primeira passagem pelo Parque São Jorge fez apenas nove jogos, não balançou as redes e foi bastante criticado.
Sem espaço, foi emprestado no ano seguinte ao Bahia e depois ao Goiás, mas somou apenas sete gols. Quando passava férias nos Estados Unidos, recebeu um telefonema de Rogério Ceni o convidando para jogar no Fortaleza.
Juntos, eles foram vice-campeões do Cearense e faturaram a Série B do Campeonato Brasileiro com relativa folga. Gustagol foi o principal artilheiro do futebol brasileiro em 2018, com 30 gols.
Gustagol voltou ao Corinthians depois do empréstimo e rapidamente caiu nas graças do técnico Fabio Carille. Desde então marcou sete gols em nove partidas.
O atacante tem contrato até o final de 2020 e a multa rescisória é de 50 milhões de euros (R$ 209 milhões). Os direitos econômicos estão divididos entre Corinthians (45%), Criciúma (35%) e Taboão da Serra (20%).
Até agora ele teve sondagens de clubes da segunda divisão da Turquia e de uma equipe da China, mas todas foram recusadas.
Além disso, suas atuações chamaram atenção até mesmo de José Mourinho, que afirmou após o empate entre o time alvinegro e o Racing, que consegue ver Gustagol “perfeitamente na Europa”.
