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Neymar, 27 anos: entre contradições e coisas de seu jeito, ele cumpriu o que prometia no futebol?

Se um ano humano equivale a sete em anos de cachorro, qual é a equação que compara a vida de uma pessoa normal à de um jogador de futebol profissional?

Neymar faz 27 anos nesta terça-feira e, no mês que vem, completa 10 anos de sua estreia profissional. Se fosse um trabalhador normal, como o resto de nós, já teria passado da metade de sua carreira, talvez estivesse perto dos 50 anos. Nem perto do fim, mas no estágio em que o tempo que ainda tem pela frente é menor do que o tempo que já passou.

Neymar sempre foi apontado como o próximo grande sucesso do futebol brasileiro, o mais recente de uma longa lista de promessas que deveriam crescer, ganhar Copas do Mundo e reivindicar seu lugar ao lado de Pelé (ainda o melhor de todos os tempos para muitos), Zico, Romário, Ronaldo, Ronaldinho... Todos nomes conhecidos antes do seu 20º aniversário, todos muito prestigiados e todos tinham aquele "empurrãozinho" do destino.

De muitas maneiras, porém, Neymar foi considerado mais do que isso. Ele era "A" resposta. A resposta do Brasil aos tempos de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, os dois homens que incendiaram o debate do melhor de todos os tempos do futebol, saindo do loop infinito de Pelé-Maradona, .

Com o português, Neymar compartilha o dia do aniversário - sim, hoje Ronaldo completa 34 anos - e o amor pelas redes sociais. Com argentino, divide a eterna rivalidade e compartilhou o vestiário em Barcelona por quatro temporadas.

Agora, enquanto Ronaldo e Messi continuam marcando e dominando depois dos 30 anos, a ironia decretou que a próxima grande estrela do futebol é um jogador que Neymar vê todos os dias nos treinamentos do PSG: Kylian Mbappe.

Com apenas 20 anos completados desde dezembro, seu parceiro de ataque já tem uma medalha de campeão da Copa do Mundo para polir em casa.

Tudo isso levanta a questão: Neymar cumpriu sua promessa?

O caminho mais rápido para a imortalidade no futebol é o sucesso com sua seleção nacional. Aqui, a trajetória é mista. A primeira Copa América de Neymar, em 2011, viu seu time brasileiro ser eliminado nas quartas de final nos pênaltis. Sua segunda durou 180 minutos porque foi expulso e em seguida suspenso por ir atrás do árbitro depois do apito final.

A Copa do Mundo? Em 2014, ele não estava totalmente em forma e carregou o peso das expectativas de 180 milhões de brasileiros esperançosos e os fantasmas do Maracanaço nas costas. Ele levou uma seleção bem inferior a ele às semifinais, apenas para perdê-la (e a consequente humilhação do 7 a 1 contra a Alemanha) depois de ter uma vértebra quebrada.

Quatro anos depois, ele desembarcou na Rússia com mais uma lesão, cheio de atitude e ressentimento. Ele tentou fazer demais nas primeiras fases, depois evoluiu conforme o torneio avançou, mas a Copa acabou para o Brasil com uma derrota nas quartas de final para a Bélgica.

Isso nos privou da imagem icônica de Neymar levantando um grande troféu com a seleção - a menos que você conte o ouro olímpico ou a Copa das Confederações -, mas isso importa? Nós queremos realmente desenterrar esse assunto?

O fato de Neymar já estar no top 10 do Brasil em aparições internacionais, já ser o terceiro maior artilheiro da seleção de todos os tempos e ter uma chance legítima de se aposentar como número um em ambas as categorias não é o suficiente para calar os opositores?

Deixando de lado o fato de que ele terá 30 anos em 2022 - e há outras duas Copas América até lá, incluindo a deste ano no Brasil - o que mais chama a atenção é como o recorde de Neymar nos clubes sugere uma consciência de querer fazer história.

Neymar poderia facilmente ter trocado o Brasil pela Europa aos 18 anos, já tendo conquistado seu primeiro título. Mas ele recusou as propostas e ficou para ganhar a Copa Libertadores com o Santos, o primeiro desde... quem mesmo? Pelé, quase meio século mais cedo. É algo que é frequentemente esquecido na Europa: ele correu o risco de uma lesão grave - aconteceu com seu parceiro, Paulo Henrique Ganso -, perdendo algumas dezenas de milhões, para ficar e deixar uma marca maior em seu país de origem.

De certa forma, isso se encaixa na escolha que faria anos depois, agitando o mundo no verão europeu de 2017, quando o Paris Saint-Germain fez dele o jogador mais caro de todos os tempos, e ele trocou o Camp Nou pelo Parque dos Príncipes.

Seus críticos falaram um pouco mais de ganância (ele teve um aumento de mais de R$ 140 milhões por temporada), ego (ele não estava mais na sombra de Lionel Messi) e estilo do que efetividade.

Com toda a badalação da linha de frente MSN (Messi, Suárez e Neymar) o Barcelona venceu apenas dois campeonato espanhóis e uma Champions League nos quatro anos em que esteve lá. Neymar viu como uma necessidade traçar seu próprio caminho. Que melhor maneira de fazer isso do que transformar um pretendente em uma potência?

Você é tentado a ser cínico, especialmente quando considera seu apelo comercial, que é multiplicado por seus 100 milhões de seguidores no Instagram, uma aparência meticulosamente em constante mudança e uma campanha de marketing global alimentada por dinheiro do Catar. No entanto, se você pensar em voltar alguns anos para o momento em que ele disse "não" para a Europa, talvez - apenas talvez - você possa lhe dar o benefício da dúvida.

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Acrescente o fato de que, na temporada passada, uma lesão o deixou de fora da partida de volta contra o Real Madrid nas oitavas de final da Champions. Hoje, de novo, uma lesão pode roubar sua chance no maior torneio do futebol de clubes nesta temporada. Ele só teve azar?

E você pensa como ele é o garoto-propaganda de um certo tipo de futebolista vedete, a ponto de uma pesquisa da emissora de rádio francesa RTL descobrir que 84% dos entrevistados culpam suas "provocações" pelas faltas abusivas que ele sofre dos defensores.

Essa é a contradição do Neymar.

Este é um cara que tem surfado na onda da badalação e da imagem com riquezas incalculáveis, mas ao mesmo tempo parece não se importar como é visto pelos oponentes e pelo público em geral.

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Um cara que aceita a responsabilidade de sua seleção nacional, mesmo quando tem que jogar com nomes que estão longe de seu nível.

Um sujeito retratado como ganancioso e egoísta, mas que ao mesmo tempo constrói um megacomplexo que ocupa um quarteirão inteiro em seu bairro natal, Villa Jardim, em Praia Grande, perto de São Paulo, com o objetivo de fornecer refeições, atendimento médico, aulas de idioma e atividades extraescolares para crianças carentes a poucos passos de onde ele cresceu.

Claro, muitos atletas também são filantropos, mas a fundação de Neymar atende 2.500 crianças diariamente e é financiada diretamente por ele e seus patrocinadores, que ele convence a apoiar.

Neymar correspondeu à badalação? Se badalação significa chegar ao nível de Pelé, então não. Se significa ser o melhor jogador que ele pode ser - malditas lesões - e não se esconder quando é importante, ao quebrar recordes e afetar a vida das pessoas, então ele está muito próximo.

Ele está fazendo do seu jeito.