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1º da 'Era Palmeiras-Parmalat', Jean Carlo relembra glórias, invasão de ônibus e perrengues em excursão russa: '15 dias a pão, manteiga e Coca-Cola'

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Reforço para o meio-campo afirmou que já torcida para a equipe alviverde (0:29)

A história da co-gestão Palmeiras-Parmalat normalmente é contada por meio de nomes como Edmundo, Roberto Carlos, Zinho e Paulo Nunes, entre outros. Mas o que poucos se lembram é de que tudo começou com um paranaense de Cascavel, chamado Jean Carlo.

Estrela no pequeno Matsubara de sua cidade natal, o meia-atacante com cabelo no estilo "chitãozinho", toque de bola refinado e bom chute de fora da área - que ele usava menos do que deveria, o próprio confessa - foi a primeira contratação da parceria depois da assinatura do contrato.

Jean, 47, que foi auxiliar-técnico do Jagariúna na Copa São Paulo deste ano, desembarcou no Palmeiras em 1992, aos 21. Numa época em que computadores pessoais mal existiam, muito menos a Internet, houve até jornais que grafaram seu nome à moda italiana, "Giancarlo", tamanho era o desconhecimento sobre ele. Algo que logo mudaria, na época - assim como a vida do jovem jogador.

"Foi uma coisa muito rápida. O Palmeiras tinha vendido o Edu Marangon para o Santos e o Luiz Henrique para o Monaco e estava atrás de um meia. Uns 15 dias antes da minha contratação, eu fiz um período de testes no clube", contou Jean ao ESPN.com.br.

"O Nelsinho Baptista, que era o técnico do profissional, gostou muito de mim, falou que eu era acima da média", relembra-se. "Mas, daí, eu voltei para Cambará e, num jogo pelo Matsubara, eu fiz três gols e dei três assistências, quando ganhamos por 6 a 1. O Carlos Pracidelli (auxiliar-técnico de Felipão atualmente), que já era funcionário do Palmeiras, foi lá me ver e indicou minha contratação de vez", diz.

Jean estreou pelo Palmeiras cercado de expectativa em um jogo numa quarta-feira à tarde, contra o Juventus, no Canindé, em 19 de setembro de 1992.

"Minha estreia foi muito emocionante, por estar numa equipe grande. Mas foi também bem tranquila, porque fui muito bem recebido pelos jogadores: Marcos, Tonhão, Biro, Marcinho, Marques, Carlos (goleiro), Toninho (Cecílio), (Dorival) Júnior...", relembra-se.

"O jogo acabou empatado (0 a 0), estávamos em um momento ruim, mas eu lembro de ter recebido apoio da torcida", conta. "Quando cheguei ao clube, o Palmeiras era 11º colocado no Paulista. Daí. vieram Maurílio, Zinho, Mazinho, Cuca e a gente conseguiu chegar ao vice-campeonato paulista", relembra-se o jogador.

Na decisão, o time do técnico Otacílio Gonçalves perdeu para o São Paulo recém-campeão mundial (vitória por 2 a 1 sobre o Barcelona, em Tóquio). Mas a semente plantada naquele primeiro torneio floresceu.

"Depois vieram Edilson, Roberto Antônio Carlos, uma safra boa, uma geração campeã", conta ele. Mas, mesmo antes da chegada do time de 1993, já era possível perceber que a Parmalat não seria um mero patrocinador na história do Palmeiras.

"Havia um cara muito presente no dia-a-dia, que era o (diretor José Carlos) Brunoro. O trabalho que ele fazia não existia, até então, no futebol brasileiro", afirma. "Ela era muito ligado à gente, fazia a ligação com a diretoria. Víamos que havia um grande profissionalismo ali", diz.

O grande aporte da multinacional italiana, é claro, foi bom para o Palmeiras. Para a história de Jean Carlo, porém, acabou não sendo tão positiva, já que ele perdeu espaço para Edilson, no time titular, a partir de 1993.

"Mas isso também foi um pouco culpa minha. Eu não era um meia de entrar na área para concluir, eu ficava mais na armação, ao contrário dele", explica-se. "Mesmo assim, todos nós que estávamos no banco naquela época, 1993 e 1994, eu, Maurílio, Amaral, Tonhão, éramos muito importantes para o time", diz. Eram só cinco jogadores no banco, mais o goleiro, e apenas duas substituições. E eu entrava sempre, era um 12º jogador", diz.

Não por acaso, Jean Carlo protagonizou um dos momentos mais cruciais da história daquele time. Ele entrou em campo e fez o gol do Palmeiras na derrota para o Mogi Mirim de Rivaldo e Válber, em pleno Parque Antárctica, por 2 a 1.

"A torcida pedia meu nome, mas o Otacílio colocou o Maurílio em campo primeiro. Aquilo já deixou a torcida nervosa. Aí, logo eu entrei e fiz o gol do Palmeiras, o que deixou o pessoal ainda mais nervoso", diz.

Naquela época, Jean Carlo também quase foi para a seleção brasileira.

"Eu, o Sampaio, Mazinho e Evair seríamos convocados para um amistoso. Mas o Palmeiras tinha um jogo contra o Remo, pela Copa do Brasil na mesma semana. O time vinha mal e o clube não nos liberou. Vencemos por 5 a 2, mas eu perdi minha chance de jogar pelo Brasil e nunca mais fui lembrado", conta.

A derrota acabou culminando com a demissão de Otacílio e a chegada de ninguém menos do que Vanderlei Luxemburgo, que levaria o time à conquista do Estadual, encerrando uma fila alviverde de 16 anos sem conquistas.

A ERA LUXEMBURGO

"O Otacílio era um paizão, um cara sensacional. Mas o Vanderlei era muito diferente. Deu pra ver logo de cara, mesmo ele vindo do interior (Ponte Preta), que estava ali um técnico moderno", diz.

Jean Carlo se lembra muito bem da preleção para o jogo com o Corinthians, na final do Paulista de 1993. No sábado, 12 de junho, Vanderlei mostrou um vídeo motivacional de 16 minutos.

"Ele sempre tinha vídeos para assistirmos. Ele mostrava detalhes", conta. "Vanderlei trazia a noção tática para a gente, ele começou com isso por aqui", diz. "A gente já entrava em campo sabendo o que ia acontecer", diz.

Mesmo naquele tensão que precedeu a decisão com o Corinthians, porém, houve espaço para descontração. Tanto é que o comediante Batoré esteve em Atibaia, onde o time estava concentrado, para fazer um show.

"Tinham sido dias de vídeo atrás de vídeo. Aí, na sexta, deu para relaxar", conta.

Quando não havia artistas convidados, a graça, naquele grupo, normalmente ficava por conta do volante Amaral.

"Uma vez o Vanderlei cutucou ele: "Tu não é metido a saber tudo? Então traduz aí: o que é outdoor em português?"

Amaral não teve dúvida e cravou: "Pô, Vanderlei, é cachorro-quente!", contou, aos risos, Jean Carlo.

PELO TETO

Jean ficou no Palmeiras entre 1992 e 1994, conquistando um Brasileiro (93), dois Paulistas (93/94) e um Rio-São Paulo (93). Mas foi mesmo o Estadual que tirou o Palmeiras da fila a conquista mais marcante.

"Pode perguntar para qualquer um daquele grupo. O Paulista, por tudo que representava, foi o maior", diz. "No ônibus, quando passamos em frente ao Parque Antárctica, os torcedores entravam pelo respiro do teto", diz, entre risos.

"A ficha foi cair uma semana depois. Era uma loucura", diz. "O torcedor do Palmeiras até hoje me reconhece, os mais antigos. Os mais jovens, de olhar, nem sempre. Mas sabem quem eu sou quando ouvem o nome", diz.

A despeito de ter estado em alguns dos jogos mais significativos na história do clube, o jogo inesquecível para Jean Carlo foi uma partida isolada de Campeonato Paulista, em 1992.

"Foi um empate por 1 a 1, contra Inter de Limeira. Estávamos perdendo até os 44 do 2º tempo. Aí, num bate rebate na área, o Tonhão chutou e a bola sobrou pra mim, na marca do pênalti. Eu bati de esquerda e empatei", relembra-se.

"Foi muito marcante porque havia parentes meus no estádio, que puderam ver esse lance. É o jogo mais emocionante para mim", revela.

RÚSSIA, PÃO E COCA-COLA

Nem só de títulos, porém, Jean Carlo viveu no Palmeiras. Uma excursão do time à Rússia, em 1994, durante a Copa do Mundo, trouxe várias histórias engraçadas.

"A coisa lá era muito precária", conta o meia. "Eu mesmo passei quinze dias à base de pão, manteiga e Coca-cola", relembra-se. "Eu já sou ruim de mais para comer, mas lá era muito complicado", diz. "Tinha um tempero que eles colocavam em cima do arroz que tinha um cheiro insuportável", lembra-se.

"A gente viajava pelo interior da Rússia com aqueles aviões de guerra, em que você senta de frente um para o outro, com assentos iguais ao de um sofá", conta. "Descíamos em campos de treinamento militar, não eram nem aeroportos de verdade", diz.

"Nós chegamos no dia em que o Brasil estrearia na Copa, justamente contra a Rússia. E ficamos em um hotel enorme, mas que estava desativado, não tinha uma TV para ver o jogo", diz.

Os jogadores tinham a opção de se deslocarem por 15 km para ir a um lugar onde havia uma TV. Mas, cansados, refutaram. Começou então uma verdadeira operação de guerra, com alguém arrumando uma TV e instalando uma antena, na última hora, para que eles conseguissem ver a estreia dos colegas Zinho e Mazinho no Mundial dos Estados Unidos.

Quem também poderia estar nos EUA, e não na Rússia, naquele dia, lá era o zagueiro Cléber. Mas a logística complicada pós-União Soviética impediu, segundo Jean, que o jogador pudesse se deslocar para os Estados Unidos.

"Nós ficamos sabendo que havia a intenção de levar o Cléber, mas não havia como ele chegar", diz Jean.

"E pensar que a Rússia sediou uma Copa, com toda aquela estrutura, no ano passado. Como pode, com todo aquele perrengue que passamos?", indaga, entre risos.

Na volta da excursão, que também passou pelo Japão, o Palmeiras foi derrotado pelo São Paulo nas oitavas da Copa Libertadores (0 a 2), e acabou eliminado.

Certamente, o período do time pelo leste da Europa e pela Ásia não ajudou a equipe a estar na melhor forma para o jogo decisivo.

LONGEVIDADE

Jean Carlo deixou o Palmeiras depois do Paulista de 1994 e não participou da campanha do bicampeonato brasileiro, naquele ano.

Foi para o Cruzeiro, comandado pelo técnico Ênio Andrade. Por pouco, não foi companheiro de um jovem moleque de 18 anos, que há pouco havia conquistado a Copa do Mundo.

"Eu cheguei bem na transição desse time. O Ronaldo foi para o PSV, e eu cheguei para o Cruzeiro", diz. Por lá, Jean Carlo ficou apenas um Brasileiro, sem muito destaque.

A passagem ruim pela Toca da Raposa o levou para o Juventude de Caxias do Sul (1995), que também era patrocinado pela Parmalat, onde Jean afirma ter reconstruído sua carreira. De lá, foi para o Athletico Paranaense (1996) e depois para o Guarani (1996), que o adquiriu em definitivo, após breve passagem pelo São José.

Experiente em clubes com patrocinadores fortes, o jogador foi então para o Fluminense do início dos anos Unimed, onde disputou a Série C com o time que era comandado por Carlos Alberto Parreira, em 1999.

Jean jogou ainda pelo CSA-AL, River-PI, Botafogo-PB, Vitória-BA e Pirambu-SE, entre outros. O jogador atuou até os 42 anos, quando se aposentou no Sinop-MT, em 2013. Mesmo ano em que começou a carreira como técnico, no Operário-MS, rival do Comercial-MS, onde, como jogador, em 2011, ainda teve lampejos de idolatria por parte dos torcedores.

No Estádio Morenão, em Campo Grande, uma placa na parede de um dos corredores de acesso do estádio, diz: "Aos 38 minutos do primeiro tempo, o atleta Jean Carlo, camisa 10 da equipe comercialina, marcou um gol de rara beleza que se tornou digno desta placa".

Jean deu prosseguimento na carreira como técnico e obteve todas as licenças necessárias. Em 2016, ele já havia comandado o Jagariúna, no sub-17 e no sub-18. Em 25 de novembro do ano passado, Jean Carlo assumiu como auxiliar-técnico de Marcos Bruno, no sub-20 do clube. Na Copa São Paulo deste ano, a equipe acabou eliminada na primeira fase, perdendo seus três jogos.

"Estou me preparando para essa carreira difícil, de técnico", conta Jean.

Como técnico, é possível que ele continue tendo um sobrenome que não está em sua certidão de nascimento. Ao longo da carreira, por onde quer que tenha ido, mudavam camisas, torcidas e condições de trabalho. Só não mudava uma coisa:

"Sempre fui o Jean Carlo, ex-Palmeiras. Aquele época marcou muito", diz ele, hoje, um torcedor alviverde.