Apesar dele negar, a imprensa argentina aponta um homem como principal culpado pelos vexames ocorridos no último final de semana em Buenos Aires, que acabaram adiando a esperada final da Libertadores entre River Plate e Boca Juniors.
Trata-se de Héctor Godoy, mais conhecido como "Caverna", que é o chefão da "Borrachos del Tablón", maior torcida organizada do River, desde 2009.
Em reportagem publicada nesta terça-feira no site Infobae, o jornalista argentino Gustavo Grabia, especializado nas maiores uniformizadas do futebol argentino e autor do livro "La Doce - A explosiva história da torcida organizada mais temida do mundo", traçou um perfil do polêmico hincha e mostrou como ele ficou milionário com a venda ilegal de ingressos.
Na matéria, Grabia lembra que a polícia apreendeu 7 milhões de pesos (R$ 699.270,20) na casa de Héctor Godoy, além de 300 bilhetes da final da Libertadores, na casa do líder da organizada - fato que vem sendo apontado como decisivo para os ataques promovidos por torcedores do River ao ônibus do Boca, que levaram a partida a ser adiada.
Em seguida, o jornalista conta um pouco da "vida e carreira" de Godoy.
"Ele foi apelidado de 'Caverna'. Segundo seus detratores, isso se deve à forma de pensar e resolver os conflitos com métodos primitivos", explicou.
O polêmico e violento barrabrava começou a frequentar a arquibancada do Monumental de Núñez nos anos 90, fazendo parte de uma torcida chamada "Los Yougures", que era chefiada por outros dois famosos torcedores: Adrián Rousseau e Alan Schlenker.
Essa facção tomou controle do Monumental em 2002 pelas vias oficiais: "Caverna" foi um dos sete nomes escolhidos pelo então presidente do River, José María Aguilar, para formarem parte de uma "comissão permanente" de funcionários do clube, com "cargos e funções misteriosas" e "salários estratosféricos", segundo a reportagem. Foi assim que Godoy passou a ter pleno acesso a ingressos e tornou-se poderosíssimo.
Até a Copa do Mundo de 2006, o grupo permaneceu unido e faturou alto. No entanto, após o Mundial da Alemanha, por questões de dinheiro e poder, começou a se dividir em dois grupos: um chefiado por Adrián Rousseau e outro pelos irmãos Alan e William Schlenker.
A coisa desandou de vez em março de 2007, antes de um jogo contra o Lanús, pelo Campeonato Argentino. O episódio ficou conhecido como "A batalha dos Quinchos", quando as facções divididas se enfrentaram e trocaram tiros dentro das próprias instalações do clube.
Os conflitos tornaram-se cada vez piores a partir daí, e o ponto decisivo foi em agosto de 2007, quando o torcedor Martín Gonzalo Acro, de 30 anos, foi assassinado.Alan e William Schlenker foram apontados como culpados, e Adrián Rousseau tornou-se o novo "todo-poderoso" no Monumental de Núñez.
Nessa época, Rousseau já havia sido banido dos estádios pela polícia argentina, e designou dois irmãos, Godoy e Martín Araujo, para serem seus "braços direitos".
Em dois anos, os Araujo tornaram-se extremamente poderosos sob a gestão do presidente Daniel Passarella. Por consequência, o "Caverna" também ficou bastante influente, já que cuidava do comércio ilegal de ingressos, obtidos através da diretoria do clube.
Com o tempo, porém, Héctor Godoy foi ganhando a liderança da "Borrachos del Tablón", e tornou-se celebridade de vez antes da vitória por 1 a 0 sobre o rival Boca Juniors, na semifinal da Copa Sul-Americana de 2014, que terminaria com River Plate campeão.
Na ocasião, "Caverna" foi esfaqueado dentro do Monumental de Núñez enquanto distribuía ingressos. O caso o fez ainda mais famoso e poderoso, mas também levou o torcedor a ser colocado na lista de pessoas proibidas de entrarem em estádios através do programa "Tribuna Segura", do Governo argentino.
Desde então, ver o barrabrava em partidas no estádio alvirrubro é algo raríssimo. Nas viagens internacionais do River, porém, Héctor é figurinha carimbada - inclusive foi flagrado comandando a torcida contra o Grêmio, na semifinal da Libertadores, em Porto Alegre.
"Ele encabeçou a caravana de ônibus e esteve dentro do estádio, celebrando a classificação do River à final. E todos os tíquetes obviamente passaram por suas mãos", salientou o Infobae.
Devido ao seu poder, "Caverna" passou a ser investigado pelo promotor argentino Norberto Brotto, o que levou à apreensão da quantia milionária de dinheiro na casa do barrabrava no último final de semana.
Agora, ele terá que explicar à Justiça a origem da grana e dos ingressos.
Em um áudio divulgado pela emissora argentina A24, "Caverna" disse que está "à disposição para esclarecimentos" e negou ter comandado os ataques ao ônibus do Boca Juniors antes da final da Libertadores.
"Quero dizer que após a operação de sexta-feira, ocorrida no meu domicílio, me pus imediatamente à disposição da Justiça por intermédio do meu advogado", afirmou.
"A respeito do episódio (de sábado) sou absolutamente alheio a qualquer tipo de atuação da qual pretendem me acusar. Gravo este áudio a fim de esclarecer minha situação e desmentir (...) os que me apontam como o autor do lamentável episódio", acrescentou.
