<
>

Famosa 'classe de 92' do United agora é dona de time nanico e sonha em leva-lo à Premier League

Gary Neville está ficando agitado. 20 anos atrás, ele foi crucial no time do Manchester United que venceu a Uefa Champions League, Premier League e a Copa da Inglaterra na mesma temporada. Agora, em um dia ensolarado de outubro, ele está sentado em seu lugar habitual no camarote executivo do Peninsula Stadium e batendo sua mão nos vidros. Hoje em dia, o ex-lateral é co-proprietário do Salford City, time que atualmente disputa a National League, correspondente à quinta divisão do futebol inglês e quatro promoções distante da Premier League. Nada de absurdo, para um time que conseguiu três promoções em quatro anos.

Dono de 10% do time, Gary tem como sócios Phil Neville, Paul Scholes, Ryan Giggs e Nicky Butt, que também possuem 10% do time cada um, todos membros da famosa "classe de 1992" do United. Eles ainda contam com o aporte do bilionário Peter Lim, dono dos 50% restantes da equipe. Quando decidiram fazer o investimento, o Salford estava na 8ª divisão e costumava atrair cerca de 300 torcedores para o seu pequeno estádio construído nos anos 50. Além disso, seus jogadores eram pintores ou bombeiros que atuavam pelo clube para ganhar um dinheiro a mais.

Desde então, os ídolos do Manchester United bancaram melhorias no estádio, que passou a ser uma arena para mais de 5 mil pessoas e decorada com poltronas modernas e hospitalidade corporativa. Tudo é tão novo, que ainda é possível sentir o cheiro da tinta fresca. As cores predominantes do local são vermelho, branco e preto, as mesmas de Old Trafford, onde todos eles fizeram história.

Depois de tudo isso, a base de torcedores por jogo passou de 300 para 2.500, muito mais do que a expectativa dos ex-jogadores quando assumiram. "No nosso plano de negócios para o quarto ano, esperávamos 750 pessoas por jogo", diz Neville.

No dia 20 de novembro, a equipe tem um dos jogos que pode ser considerado o mais importante de sua história, já que fará um replay com o Shrewsbury Town pela Copa da Inglaterra e, se conseguir a classificação, além de chegar à 2ª fase da competição pela primeira vez em sua história, também é bem provável que encare um time da Premier League na eliminatória seguinte.

Apesar de apenas 19 jogos terem sido disputados, o Salford está bastante vivo na briga por uma vaga na League Two, grande objetivo inicial dos donos. "Quando estivermos lá, podemos alcançar as estrelas", declarou Nicky Butt, na época da compra. Ambição? O plano deles é repetir o feito do Bournemouth. Quando Eddie Howe assumiu como técnico, há cerca de dez anos, a equipe estava à beira do rebaixamento na 4ª divisão e hoje se encontra nas primeiras posições da Premier League.

"Você provavelmente vai rir, mas eu penso no Bournemouth. No início, eu queria chegar à 2ª divisão, mas eu não queria chegar até lá e dizer 'está feito, agora não nos importamos mais'. Queremos que o clube chegue o mais longe possível e o modelo do Bournemouth parece viável para mim", opinou Scholes.

Quando os novos donos decidiram mudar as cores do time de laranja e preto para vermelho e branco, alguns dos mais fiéis torcedores da equipe não gostaram e chegaram a reclamar. Isso porém rapidamente se dissipou com as melhorias causadas para a sociedade, como uma instituição de caridade e também porque eles conseguiram manter os preços dos ingressos atrativos, na casa das 10 libras para adultos. "A coisa boa é que você vê crianças vestindo a camisa do Salford. Você sempre verá camisas do Manchester United por aqui, mas as pessoas estão abraçando o clube", comemorou Scholes.

"Para ser honesto, com o dinheiro que gastamos, poderíamos ter definitivamente assumido um clube na League One. Mas nós não queríamos ir para um clube já estabelecido", explicou Nevile.

Porém, não é todo mundo que gosta da ideia de um clube pequeno contar com um aporte financeiro tão grande. No últimos mês, Andy Holt, dono do Accrington Stanley, acusou o Salford de "tentar roubar" uma vaga nas principais divisões ao contratar um jogador por 300 mil libras. "Fomos chamados de muitas coisas. O Manchester City 'sem divisão' ou que estamos arruinando o futebol", lembrou Neville. "Com todo o respeito, mas Chelsea e Manchester City nunca teriam ganho um título da Premier League se não tivessem aumentado o orçamento".

E apesar das mudanças no pequeno clube já serem notórias, a ambição dos "atletas executivos" é grande. "Se a gente entrar na League Two, nossa média de torcedores subirá para 3 mil torcedores. Se chegarmos até a League One, teremos 5 mil. Na Championship, estaríamos perto de 10 mil. Estamos muito longe disso, mas já podemos ver a trajetória desses quatro anos de trabalho, de onde estávamos para onde estamos", concluiu Neville.