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Hugo Souza conta como virou goleiro do Flamengo e chegou à seleção de Tite antes de jogar no profissional

Convocado em agosto deste ano por Tite para a seleção brasileira principal, Hugo Souza é considerado uma das maiores promessas para o futuro do Flamengo. Tanto é que antes mesmo de estrear como profissional, ele teve seu contrato renovado até 2023.

Em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br, o goleiro de 19 anos contou como iniciou no futebol, as dificuldades que enfrentou até o momento de maior emoção da carreira. Em medida que visa dar mais experiência para jovens das categorias de base da própria seleção, ele ficou no banco reservas nos amistosos contra os Estados Unidos e El Salvador.

"Foi uma supresa muito boa porque a seleção é o ápice qualquer jogador. Todos têm esse sonho e eu cheguei muito novo. Isso me deu muito mais confiança e credibilidade. Me valorizou em todos os aspectos. Eu e minha familia ficamos muito felizes porque só nós sabemos o que passamos até chegar nesse ponto. Deus nos coroou com essa chance", disse o jogador.

Com idade para jogar a Olímpiada de 2020 e o Sul-Americano Sub-20 do ano que vem, ele pretende usar os conhecimentos que adquiriu com os jogadores mais experientes para evoluir como goleiro.

"Foi uma bagagem muito grande. Saber como eles fazem as coisas nos ajuda muito. A convivência foi bacana porque são muito humildes e me acolheram muito bem", elogiou.

Há nove anos na Gávea, Hugo Souza foi campeão da Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2018 deste ano e virou atualmente a quarta opção do elenco de Dorival Jr. devido ao afastamento de Diego Alves.

Grande fã de Júlio César (ex-Flamengo), Buffon (PSG) e Petr Cech, o goleiro de 1,96m gosta de jogar com os pés e treinar faltas. "Sou destro e o fato do [ex-goleiro Rogério] Ceni cobrar falta me influenciou muito. Eu ainda não tive a chance de bater falta, mas treino bastante", comentou.

Veja a entrevista completa com Hugo Souza:

Como você começou no futebol? Têm jogadores na família?
Sou de Duque de Caxias e tive uma infância bem voltada ao futebol. Meu irmão jogou na base do Botafogo. Meu pai, que chama Sabará, foi zagueiro de times menores como Mesquita e América-RJ. Ele não conseguiu ter muito sucesso, mas tinha o sonho de ter um filho jogador. Eu comecei a jogar com quatro anos. Um primo jogava futsal no Vasco e fui fazer testes na linha e um dos um goleiros faltou. Eu pedi para agarrar, não sei por que até hoje (risos). No primeiro dia eu não sabia nada, nunca tinha jogado, via como uma brincadeira. Um diretor viu e chamou meu pai: 'Seu filho será goleiro'. E nos deu um uniforme. Meu pai não deixava meu irmão, que era meia, ser goleiro (risos). Ele tinha aquela coisa com goleiro. Mas quando eu disse que ia ser goleiro, ele falou: 'É isso o que tem, então vamos embora (risos)'.

Quais os goleiros que você se inspirou?
Eu sempre me inspirei no Júlio César, que é um ídolo para mim, e o Buffon. Gosto de estudar a posição e ver vídeos de goleiros de antigamente. Vejo o Cech, o Van Der Saar, o Taffarel, o Marcão e o Rogério Ceni. São referêncais muito grandes para mim. O fato do Ceni cobrar falta me influenciou muito. Eu ainda não tive a chance de bater falta, mas treino. Também acompanhei muito o Dida no Milan e depois quando voltou ao Brasil. Era bem alto, mas não era lento. Um baita goleiro.

Até quando você ficou no Vasco?
Eu saí no fim de 2008 porque trocou a direção e fui para o Fluminense. Depois de seis meses, voltei ao Vasco. Fui campeão no futsal e na época eu recebia uma ajuda de custo, que por mais que fosse muito pouca, bancava a minha casa. Meus pais estavam desempregados e não tínhamos renda. Era nossa única renda. Quando saí do futsal para o campo cortaram a verba. Foi um período bem complicado e não tinha dinheiro para ir treinar. Às vezes meu pai precisou fazer bicos. Como eu era novo meus pais não me deixavam trabalhar. Pedimos dinheiro emprestado para família e foi um momento muito delicado que passamos. Nisso, eu saí do Vasco.

E o que fez depois?
Fiquei um tempo parado no primeiro semestre de 2009. Fui treinar em um clube de várzea e foi muito bom porque nunca tinha jogado no campo antes. Era uma escolinha e comecei a pegar o jeito. Fiquei lá por um mês e meio e, como já tinha a base do futsal, aos 10 anos já era titular com a galera de 14 anos.

Como surgiu o Flamengo na sua vida?
O pai de um amigo meu, que tinha jogado comigo no Vasco e estava no Flamengo, ligou para o meu pai. Ele queria saber como eu estava e me convidou para ir ao Flamengo. Então, um diretor me chamou para fazer teste no futsal, deu tudo certo e estou aqui até hoje. Fui em março de 2009. No fim do ano, o pessoal do futsal passou a fazer a transição para o campo comigo. Em 2010, passei a jogar as competições e foi tranquilo.

Voce era colega do Vinícius Jr. na base? Você esperava esse sucesso todo dele?
Ele é um ano mais novo do que eu, mas jogamos juntos desde o Sub-15. Já era titular e mostrava ser diferente. Já decidia muitos jogos e cresceu muito rápido, mas era algo esperado por nós que vivíamos perto dele. Fico muito feliz porque mostra o trabalho da nossa base e valoriza as pessoas que estão lá. Isso é muito bom para a gente. Nós crescemos juntos. O Lucas Tuller também jogou comigo desde o futsal.

Quais os momentos especiais você viveu? Como foi a Copa São Paulo dese ano?
Tive momentos muito bons, fiz uma boa Taça BH e fui chamado para seleção Sub-20. Vencemos o Carioca Sub-17 e a Taça Rio em cima do Vasco com 4 a 0 e 6 a 1. Foi bem interessante. Já tinha participado duas vezes na Copa SP e esse ano eu comecei como titular os três primeiros jogos. Mas tive que subir aos profissionais e desci para a final, mas quem jogou foi o Yago, que fez um grande trabalho. O título nos coroou. Por mais que não tenha jogado a final, fiz um bom trabalho e ele deu continuidade a isso. Vai para o nosso currículo.

Você esperava ser convocado pelo Tite para a seleção principal? Vi que você chorou ao saber...
Não esperava, acho que ninguém esperava. Quando aconteceu foi aquele baque em mim e na minha família. Foi uma supresa muito boa porque a seleção é o ápice de qualquer jogador. Todos têm esse sonho e eu cheguei muito novo, aos 19 anos. Me deu muito mais confiança e credibilidade. Me valoriozu em todos os aspectos. Eu e minha familia ficamos muito felizes porque só nós sabemos o que passamos até chegar nesse ponto. Deus nos coroou com essa chance.

Como foi conviver com o Tite e os grandes jogadores do Brasil? Você ainda não estreou no profissional...
Foi uma experiência muito dirente para mim. Eram atletas e uma comissão técnica de alto nivel Você trabalhando com os melhores se sente um deles. Claro que ainda falta muito para chegar ao nível deles, ainda falta bastante, mas foi uma bagagem muito grande. Saber como eles fazem as coisas nos ajuda muito. A convivência foi bacana porque eles são muito humildes e me acolheram muito bem. Pude estar com com Thiago Silva, Neymar, Alisson e outros caras consagrados. Estar trabalhando com eles te espanta no começo. Mas eles me deram tanta confiança que me senti bem. Pude desempenhar o melhor que pude.

Quais as melhores histórias da seleção?
Passei pelo trote que todo novato recebe (risos). Tive que cantar o Hino Nacional e uma música do Exaltasamba, dançar, tudo isso faz parte. O trabalho com o Taffarel foi algo especial e emocionante. Ele é um grande profissional, um ídolo nacional por tudo que representa e teve muito percentual na minha convocação. Sou muito grato à ele.

Como está sua situação hoje no Flamengo?
Aqui no Flamengo as coisas mudaram um pouco. Querendo ou não, passei a ser visto de outra forma e o noso trabalho na base também, que é muito bom. Todos os goleiros que jogam aqui vão muito bem. O Yago foi muito bem na Copinha, o Gabriel foi bem na Copa do Brasil e eu no Brasileiro. Hoje, infelizmente com essa situação do Diego Alves, que não sabemos como ficará, eu estou como quarto goleiro do profissional e desço para jogar o Sub-20.

Quais seus maiores sonhos na carreira?
Eu quero jogar no profisional do Flamengo, na Europa e um dia chegar à seleção novamente. Senti esse gosto e não quero parar nunca mais. Espero que um dia isso vire rotina e que meu trabalho me faça chegar no nível dos caras que estão lá hoje. Quero me tornar ídolo na casa também, mas respeito o momento de cada um, sem passar por cima de ninguém. Só trabalho e busco meu espaço. O peso desta camisa é grande. Claro que fazer história com ela é difícil, mas não é impossível.

Você foi convocado para a seleção de base. Tem como objetivo jogar a Olimpíada de 2020?
Fui chamado para Torneio de Touloun de 2017 e amistosos da Sub-20 deste ano. Posso colocar que tenho como metas chegar ao Sul-Americano Sub-20, Mundial Sub-20, Jogos Pan-Americanos de 2019 e Olimpíada de 2020. E por quê não a Copa do Mundo de 2022? A gente pode alcançar sim, tem que trabalhar e Deus tem me honrado bastante. Essas são metas que dependem do nosso trabalho.