Poucas torcidas no mundo sabem fazer o que La Doce, a tão temida organizada do Boca Juniors, faz nos estádios. Não importa se o jogo é na Bombonera ou fora dos domínios boquenses. O apoio à equipe é digno de admiração, mas ela também sabe causar temor.
Mais numerosa do que as torcidas dos rivais, mais influente na política do país e também mais violenta, La Doce tem uma ficha corrida bem complicada e enfrenta um verdadeiro caminhão de acusações. Basta dizer que já escapou duas vezes de ser fechada por crime de lavagem de dinheiro, teve membros presos por causar mortes e hoje dois de seus líderes foram banidos dos estádios.
"A barra brava do Boca tem duas características muito particulares. É a maior da Argentina e é o grupo que tem os melhores contatos no mundo político, policial e em todos os poderes estabelecidos na Argentina", disse Gustavo Grabia, jornalista argentino e autor do livro "La Doce - a Explosiva História da Torcida Organizada Mais Temida do Mundo", lançado em 2012.
Grabia é especialista no assunto. Pesquisa o comportamento das torcidas organizas argentinas há mais de 20 anos. Nesse período conseguiu comprovar a relação desses grupos com o crime organizado. Ficou admirado ao ver que o futebol não tem nada a ver com o motivo da existência das barras bravas há várias décadas e nunca deixou de denunciar e lutar contra eles.
"Na partida contra o Palmeiras [na noite desta quarta-feira], os líderes da torcida que estão proibidos de frequentar estádios e sair do país conseguiram uma autorização para viajar para o Brasil. E eles vão assistir à partida no Allianz Parque", disse Grabia.
O duelo vale vaga na final da Copa Libertadores e por isso o interesse pelo jogo é maior. Os torcedores boquenses esgotaram na última sexta-feira os 1.800 ingressos para o setor visitante, mas uma massa bem maior viajou para São Paulo.
Em contato com a reportagem, a assessoria da polícia militar disse não esperar um número acima desse. De qualquer forma, por meio do 2º Batalhão de Polícia de Choque, fará o acompanhamento dos torcedores do aeroporto, bem como dos hotéis ondes eles estiverem concentrados, até o estádio. E colocará bloqueios ao redor do Allianz Parque, barrando quem não estiver com ingresso.
"Quanto aos líderes de torcida [do Boca Juniors] que foram impedidos, a Polícia Federal fará a triagem nas fronteiras, bem como nos aeroportos", afirmou a Polícia Militar por meio de sua assessoria de imprensa.
"Há muita cumplicidade dos dirigentes argentinos no comportamento dos torcedores", declarou Grabia, desacreditado de que as medidas possam ser efetivas diante de um grupo capaz de exercer seu poder além das fronteiras.
Confira abaixo a entrevista completa de Gustavo Grabia
ESPN: Há quanto tempo você pesquisa e investiga as torcidas na Argentina?
Gustavo Grabia: Estou investigando o fenômeno dos barras bravas na Argentina há 22 anos. A partir de 1996 esse tema ganhou muita importância, e desde então eu me especializei em tudo o que tinha de ver com a violência no futebol. E dentro desse tema estão os barras bravas e, obviamente, as torcidas mais influentes, que são de Boca Juniors e River Plate.
Durante esse período, quais problemas enfrentou? Eu não gosto de me vitimar. Obviamente que recebi ameaças e tive problemas, mas trabalho para o Clarín, que é o grupo de mídia mais importante na Argentina. E isso me deu uma cobertura especial para investigar esse tema. Provavelmente se eu não tivesse o apoio desse grupo e fosse fazer a investigação por minha conta eu ficaria mais vulnerável. Apoiado pelo Clarín, cada vez que eu tive um problema as autoridades do grupo responderam por mim. Isso facilitou meu trabalho.
Sua grande descoberta foi a relação desses grupos com o crime organizado. Como é esse envolvimento? Quando eu comecei a investigar o tema, os barras bravas eram tratados como um fenômeno exclusivamente ligado ao futebol. Eram vistos como marginais, que faziam bagunça e cometiam problemas nos campos, brigavam contra outros torcedores apenas pela cor da camisa. E ao começar a investigar descobri que essa era uma parte mínima na verdade. Na realidade, eles têm muita relação com todo o crime organizado na Argentina, com o narcotráfico, com os grupos políticos, com os grupos sindicais. Descobri que os barra bravas têm um ficha corrida muito grande. Roubos, assassinatos... Então, fui descobrindo aos poucos que tratava-se de um fenômeno maior do que apenas a violência causada no futebol. Na Argentina, eles trabalham para os partidos políticos e fazem tudo que está relacionado com a violência política. Todas as campanhas eleitorais se utilizam da força dos barras bravas. Eles têm tanto poder em diferentes bairros da Argentina, que, quando um narcotraficante quer ingressar em bairros que vocês chamam de favelas, eles têm de negociar com os barra bravas. Essa negociação termina com ambos os lados se transformando em sócios.
Como esses grupos ganharam tamanho poder? O fenômeno dos barra bravas vem do final da década de 60. Eram grupos organizados que conseguiam benefícios dos clubes para ir aos campos para torcer. O fenômeno que estou narrando, que é a vinculação das torcidas com os políticos e o crime organizado, começa na década de 80. E explode como fenômeno total na década de 90, quando o futebol passa a ser um grande negócio econômico. O futebol na Argentina era um negócio relativamente pequeno até os anos 90, quando o dinheiro da televisão cria um novo momento. E os barras começam a ter muito dinheiro, e a partir daí passam a convocar soldados para integrar seus grupos. Formam pequenos exércitos. E com isso todos que estão na política e no crime organizado passam a querer utilizá-los. É uma força considerável e não apenas nos campos, mas em qualquer atividade do país.
O que faz da torcida do Boca, La Doce, um caso ainda mais especial neste cenário? A barra brava do Boca tem duas características muito particulares. É a maior do país e é a barra que tem os melhores contatos no mundo político, policial e em todos os poderes estabelecidos na Argentina. Para se ter ideia, a barra brava do Boca trabalhou para o governo de [Carlos] Menem em 1990. Trabalhou para o primeiro governo de Néstor Kirchner. E a barra brava do Boca tem ótimas relações com o atual governo, tendo em vista que Mauricio Macri foi anteriormente presidente do Boca Juniors. Nunca houve um crescimento tão grande da barra brava do Boca quanto na época que Macri foi presidente do clube. A partir daí você entende o poder que eles têm. Tanto que na partida desta quarta-feira os líderes da torcida que estão proibidos de frequentar estádios e sair do país conseguiram uma autorização para viajar para o Brasil. E eles vão assistir à partida no Allianz Parque. A barra do Boca é também a primeira a se associar ao crime organizado na década de 1980 e é a que tem a maior quantidade de integrantes aqui em Argentina. Eles manejam 1.500 a 1.800 pessoas por partida [fora de casa]. Isso significa um poder importante na hora de conseguir negócios ilegais fora do futebol.
La Doce é investigada em dois processos neste momento? A barra do Boca tem dois processos policiais abertos. Um deles tem a ver com o assassinato de duas pessoas durante uma partida por uma disputa de poder. O segundo tem a ver com sequestros extorsivos, que não tem relação alguma com o futebol. Isso é parte do crime organizado. A barra do Boca é dominada por duas pessoas. Uma se chama Rafael Di Zeo. E é o mais conhecido de toda a argentina. Lidera desde a década de 90. A outra se chama Mauro Martín, que ingressou como líder em 2004.
Por que diante desse cenário os barras são tão admirados pelos torcedores comuns? Muita gente que vai normalmente ao estáio não condena o que os barras fazem. Vale lembrar que a Argentina é o único país que proibiu por completo a presença de torcida visitante nos estádios. Isso só ocorre em jogos internacionais, como a Copa Libertadores, mas as partidas da liga nacional não permitem visitantes pelo risco de enfrentamento das torcidas. Tem muita gente que sabe que está impedido de ir aos estádios por culpa deles. Por outro lado, o público que vai ao estádio ama o comportamento dos barras. Sei que parece difícil de entender, mas é assim. Por exemplo, Rafael Vizeu se coloca no campo ao lado de Tévez e os dois distribuem autógrafos. Pode parecer algo louco, mas na Argentina os barras bravas são celebridades e isso torna mais difícil de combatê-los.
Como é a relação de La Doce com a direção do Boca Juniors, os jogadores e a imprensa? No caso da direção do Boca a relação é de absoluta cumplicidade. Na partida desta noite contra o Palmeiras os que torcedores que viajam de avião são todos bancados pelo clube. O Boca foi jogar uma partida amistosa com o Barcelona em agosto e os barras viajaram no mesmo voo da delegação. Isso não seria possível se não fosse a ajuda dos dirigentes. Os processos policiais mostram que há muitas relações de dirigentes, de muita ajuda, com os torcedores. E até compartilhando negócios. No caso dos jogadores, eles não querem ter problemas. Então, cada vez que os barras pedem ajuda econômica eles dão sem nenhum tipo de problema e nunca renunciam. Também temem sofrer com as sanções violentas que os barras podem tomar se eles perderem alguma partida. E a imprensa tem uma relação distante. A maioria trata de não se meter, porque teme represálias. Somos poucos os que os denunciam.
Como é a relação dos barra bravas com as organizadas dos clubes brasileiros? Eles têm relação muito próxima. A torcida do Cruzeiro tem relação com a do San Lorenzo. Quando ocorreu a Copa do Mundo de 2014, a barra brava do San Lorenzo ficou hospedada na sede do grupo do Cruzeiro. E quando o Cruzeiro veio jogar com o Boca, os torcedores celestes foram recebidos pelos barras bravas do San Lorenzo. A barra brava do Independiente, que é muito poderosa, tem muita relação com a torcida do Grêmio. Também em 2014 o chefe da torcida do Grêmio organizou uma recepção e um tour para a barra do Independiente em Porto Alegre. A torcida do Flamengo tem muita relação com a do Vélez. Já os barras de Boca e River não têm relacionamento com as torcidas dos clubes do Brasil. Quando Tévez jogou pelo Corinthians houve uma aproximação com a torcida do Boca Juniors, mas foi somente naquela época e naquele período.
Por tudo que você já viu e ouviu, acha que um dia os problemas criados por esses grupos podem acabar e o futebol argentino ter paz? Para mim parece complicado pensar que a violência no futebol argentino chegará ao fim. Basicamente porque há muito envolvimento de políticos, policiais. Hoje está sendo julgado na Argentino o principal sindicalista do país e o motivo é a conexão dele com os barras bravas. Também há políticos que estão sendo julgados pelas suas conexões com os barras bravas. Por causa desse arco de apoio que eles têm, os barras estão presentes em todos os partidos políticos, em todas as dependências oficiais, e por tudo isso me parece complicado que a violência no futebol argentino termine. Até porque já chegamos a cinco anos de proibição de torcida visitante na liga local, e isso não melhorou o número de vítimas fatais. Pelo contrário, nos últimos cinco anos foram 38 vítimas fatais sem que público visitante estivesse nos jogos. Lamentavelmente, na semana passada morreu um outro torcedor, esse de uma equipe que se chama San Martín de Tucumán, vítima de um barra brava do Boca Juniors em jogo pela Copa da Argentina. Então, quando você observa esses antecedentes e vê o que está se passando hoje, ser otimista me parecer ser bastante ingênuo.
