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A arte imita a vida: as tatuagens de Neymar ganham forma em nova linha de quadrinhos

Arte ESPN

Transformar a estrela do futebol internacional Neymar Jr. em um super-herói de quadrinhos não seria suficiente. Então, dois especialistas em HQs decidiram dar poder também às tatuagens do craque.

Essa é a premissa por trás de uma nova série de quadrinhos, Inked, que foi lançada no meio de setembro e apresentada na Comic Con de Nova York no início de outubro.

Foi lá que os sócios de Neymar, Chris Flannery e Jason M. Burns, presidente e editor-chefe da Fan the Flame Concepts respectivamente, foram promover sua história.

É mais fácil falar que fazer. Todos os anos, mais de 250.000 fãs de todo o mundo desembarcam na convenção - hoje, em sua 13ª edição. O evento transformou-se em uma Mecca de todas as idades para os mais ousados e devotos fanáticos por HQs. O Javis Center, com ares de hangar, transborda com fãs fantasiados, forçando passagem pelo sufocante mar de gente, propagandas e promoções. Claro, as figurinhas carimbadas estão lá: Marvel, DC, Image, Dark Horse - que esmagam os concorrentes bem menores que estão lutando em busca de fãs.

Em direção a um lounge no epicentro do caos, Flannery e Burns sobem as escadas com pilhas de quadrinhos embaixo dos braços. As capas ostentam a versão azul-escura do atacante do Paris Saint-Germain e do Brasil.

"Não é o máximo?", diz Flannery, um esbelto britânico, que observa a massa fantasiada amontoada no salão principal. Ali perto, um crossplayer vestido de Negan, de The Walking Dead, mexe no celular enquanto apoia em seu ombro uma réplica do taco de basebol envolto em arame farpado absurdamente realista.

Burns, cabeça raspada e tatuagens cobrindo seu braço direito, já escreveu para as franquias Megamind, Jericho e Kung Fu Panda e, há muito tempo, queria escrever sobre um herói cujas tatuagens ganhassem vida.

"Dada a importância [da personalidade das tatuagens] para Neymar e para o personagem, foi o início da bola de neve", disse Flannery.

Flannery, que fala português fluentemente, tem uma longa relação de trabalho com o Santos, clube onde Pelé ficou famoso e onde Flannery trabalhou por muitos anos com a lenda brasileira do futebol. Quando começaram a discutir a ideia de um personagem de HQ cujas tatuagens ganhassem vida, Neymar, e sua forte ligação com o Santos, foi a opção perfeita.

O time abordou Neymar, que abraçou a ideia. Inked está planejada até o fim de 2019, incluindo uma parceria com Momentary Ink, uma empresa de tatuagem temporária de alta qualidade que recriou as tatuagens de Neymar.

Burns arruma, sobre uma mesa, cópias promocionais em inglês e português das primeiras edições de 'Inked: A Arte Ganha Vida', especiais para a Comic Con. O HQ é, na verdade, uma colaboração exclusivamente digital de Neymar Jr., Comics e Fan the Flame. Apesar de ser ambientada no Brasil, terá versões em vários idiomas.

"Era importante para o Neymar, e para nós, que os torcedores do PSG pudessem ler o HQ em francês", disse Flannery. "Também temos em espanhol, vamos lançar em italiano em breve e estamos pensando em árabe e idiomas asiáticos".

"Não podíamos abranger o mundo inteiro de uma vez. Não somos super-heróis", riu Flannery.

Uma horda circunda duas moças de vinte e poucos anos vestidas de Arlequina e Poison Ivy e outro, por perto, vestido de Coringa, uma visão comum na Comic Con, enquanto Burns e Flannery discutem o talento nato de Neymar e como sua popularidade, e contrato, tem o poder de ditar a economia de seu esporte.

O protagonista de Inked, Junior, é o próprio Neymar. A história se desenvolve em volta do sequestro da irmã de Junior por um cartel. Para resgatá-la, Junior é tatuado com uma tinta mágica que permite que as imagens ganhem vida e lutem ao lado dele. Um leão na mão esquerda de Neymar se torna o principal aliado de Junior, Baysan, e é baseado na tatuagem real da mão de Neymar. Na verdade, várias das tatuagens que aparecem no quadrinho são baseadas na própria arte corporal de Neymar.

"Neymar é um fã, ele gosta de quadrinhos, então o projeto fluiu muito naturalmente. Quando Neymar se envolveu, a história fez ainda mais sentido, porque suas tatuagens têm personalidade própria", comentou Burns, comemorando a visão do diretor de arte Dustin Evans de dar vida às tatuagens de Neymar.

Flannery e Burns percebem fãs amontoados no palco da Marvel. Braços estendidos, novos e velhos, na esperança de pegar uma das lembranças que eram jogadas para o público. Este mundo dos quadrinhos, apesar de estranho para Neymar, era onde ele se exilava enquanto andava para lá e para cá pelo Brasil, vivendo à luz de velas durante as frequentes quedas de energia em sua cidade e, agora, usando sua criação linha dura e ascendência ao estrelato como lição e história para seus fãs.

Neymar da Silva Santos Júnior já foi apenas um menino magrelo de Mogi das Cruzes que sonhava ser um jogador de futebol profissional, e um super-herói. Ele devorava quadrinhos. Um de seus favoritos era o filho de Gotham City, Batman (assim como nova-iorquino Homem-Aranha). Contrastando com o meio privilegiado do alter ego de Batman, o milionário Bruce Wayne, a origem humilde de Neymar proporcionou aos co-criadores uma inspiração para o personagem principal, dos drible de Neymar com a bola pelas ruas da cidade a um tatuador que teve como modelo o próprio avô de Neymar.

"Incorporamos a origem humilde ao personagem", disse Burns.

A jornada heroica tem profunda ligação com a história de vida de Neymar. Em uma noite chuvosa, com seu filho de quatro meses Neymar Jr. no banco traseiro, Neymar pai, um lateral profissional na época, bateu feio seu carro. Quando o carro parou de girar, Neymar pai não achava seu filho. Achava que ele tivesse sido arremessado e estivesse morto lá fora. Mas o bebê Neymar estava embaixo do banco, ileso. Seu pai chamou de milagre.

"É o enredo de uma história de herói", disse Flannery.

Quando muito novo, a habilidade de Neymar no futebol lhe garantiu uma vaga na escolinha do Santos. Aos 14, ele e sua família visitaram o Real Madrid. Wagner Ribeiro, agente de Neymar na época, já tinha negociado a transferência de outra estrela do Santos, Robinho, para os merengues. A maioria acreditava que Neymar seguiria o mesmo caminho.

Mas Neymar permaneceu leal. "Em uma família humilde tem sempre a questão de valores culturais", Neymar pai disse em 2012. "Achamos que ele deveria crescer no Brasil."

Mesmo depois da transferência recorde de US$263 milhões do Barcelona para o PSG na temporada passada, incluindo os US$350 milhões em salário e 200 milhões de seguidores nas redes sociais, ainda faltava alguma coisa. Vinte e seis anos depois daquele fatídico acidente, Neymar Jr. será o mais novo super-herói mundial.

Claro, ao longo dos anos houve petulância, uma panóplia de cartas e brigas no campo. O Neymar que milhões lembram da Rússia, contorcendo-se em agonia simulada, pegou mal. Mas recentemente, vídeos de Neymar dando a jovens torcedores que invadiram o campo a camiseta que tinha no ombro ganharam o mundo. O lado caridoso de Neymar começou a emergir. Talvez com o tempo os torcedores esquecerão as quedas e encenações. Até heróis têm que achar seu caminho. Neymar parece estar nessa jornada agora.

Mas conquistar o terreno dos quadrinhos não é fácil, mesmo com a boa fé no futebol que Neymar anda esbanjando. Centenas de exibidores formam o labirinto de prateleiras, displays e mercadorias no salão da convenção.

Artistas e escritores chegam acompanhados de assistentes que tentam organizar os fãs em filas que serpenteiam pelos cantos, congestionando ainda mais os corredores ao ponto de não caber mais um alfinete. Uma jovem vestida como um personagem de Dragonball Z convida os que passam a conhecer uma graphic novel Mangá produzida por sua editora butique. Não está funcionando, os fãs passam reto, arrastando-se neste corredor particularmente lotado. Como bem mostra a Comic Con, a disputa por fãs é enorme e feroz.

"Como muitas crianças, eu tinha dois grandes sonhos, ser jogador de futebol profissional e um super-herói. Fui muito abençoado por poder jogar futebol no melhor nível", Neymar contou à imprensa quando o HQ foi lançado no início de setembro. "Agora tenho a chance de trazer uma narrativa nova, moderna, poderosa através de quadrinhos e graphic novels para fãs do mundo todo."

Quando criança, a família de Neymar tinha uma vida modesta com seus avós em São Vicente e dividia um colchão. Neymar pai diz que o bairro era tão pobre que as pessoas simplesmente jogavam o lixo na rua. Apesar do início pobre, Neymar nunca traiu seus ideais de infância. Como seu herói favorito Batman, Neymar prometeu ajudar sua cidade natal. Com Inked, a Neymar Sports vai doar 1% de cada exemplar vendido para o Instituto Neymar Jr. no Jardim Glória. O instituto ajuda quase 10.000 brasileiros carentes com oportunidades no esporte, refeições balanceadas, aulas e consultas médicas e financeiras.

"O importante desde o início para os dois lados era a conexão com seu instituto em Santos" disse Flannery. "Isso foi muito importante desde seus primeiros dias em Santos."

No Javits Center, Flannery folheia um exemplar de Inked. "Acho tudo sobre Neymar e sua família muito humilde", diz ele. "Se você repara como eles retribuem, acho que ele se sente muito privilegiado e abençoado de poder fazer isso."