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Como Cruyff exigiu Romerito, meia paraguaio que brilhou no Fluminense, e se deu mal

Romerito (dir), do Fluminense, e Geraldo, do São Paulo, em 1985 Gazeta Press

O jornal El País, da Espanha, relembrou um interessante causo da história do Barcelona: o dia em que a contratação do meia Romerito, um dos maiores ídolos da história do Fluminense, foi acertada às pressas antes de um clássico contra o Real Madrid.

O fato aconteceu em março de 1989, quando o lendário Johan Cruyff estava em sua primeira temporada como treinador do Barça. Era semana de dérbi contra os merengues, que lideravam o Campeonato Espanhol com três pontos de vantagem para os blaugranas.

O holandês sabia que precisava ganhar aquela partida de todo jeito, e pensou em encomendar um "fato novo".

Cruyff lembrava de Romerito dos tempos em que ambos jogaram no futebol dos Estados Unidos - o europeu no Los Angeles Aztecs e no Washington Diplomats, e o sul-americano no New York Cosmos.

Além disso, o paraguaio tinha boas credenciais, como o prêmio de melhor jogador da América do Sul em 1985, além da idolatria no Fluminense, com quem foi campeão brasileiro em 1984, além de bi do Carioca (1984 e 1985), entre outros troféus.

O técnico do Barça, então, passou a pedir sua contratação de forma insistente à diretoria, que estranhou bastante aquele repentino desejo por um jogador totalmente desconhecido no futebol da Europa.

"Romerito era um meia com brilho para o último passe e velocidade para chegar ao gol. Tinha 29 anos e não havia sido testado na Europa. Toda a insistência de Cruyff, portanto, chamou a atenção", lembrou o El País.

"De toda forma, o Barça tinha vaga para um 3º estrangeiro. Cruyff vinha há tempos pedindo o holandês Ronald Koeman, mas o PSV havia avisado que não iria vendê-lo até o fim da temporada. Então, Bakero se lesionou, e o time foi com tudo para cima de Romerito", contou.

"O Real Madrid estava em 1º e o Barça estava só a 3 pontos. Não faltavam muitas rodadas para disputar em LaLiga. Nessas condições, ninguém se atreveu em negar este capricho a Cruyff", ressaltou.

A diretoria do Barcelona, então, ligou para a cúpula do Fluminense na noite do dia 25 de março de 1989. O paraguaio já estava dormindo, exausto após jogar e fazer um gol contra o Internacional. Ele foi acordado e informado que tinha uma reunião urgente.

Romerito encontrou os cartolas do Flu em um restaurante, às 2h da manhã. Logo ao chegar, foi informado que estava negociado com o Barcelona por uma "bolada". Inicialmente, ele achou que era um negócio arriscado, mas acabou topando.

Ao chegar à Espanha, o meio-campista foi recebido com enorme expectativa. Afinal, sua contratação foi um pedido especial (e urgente) de ninguém menos que Johan Cruyff, um dos maiores nomes do futebol em toda a história.

"Deram a Romerito US$ 40.000 por três meses e a possibilidade de seguir no clube depois do verão. A opinião pública estava alvoroçada", rememorou o El País.

O paraguaio mal teve tempo de treinar com seus novos companheiros e logo já teve que encarar a pedreira de enfrentar ninguém menos que o Real Madrid, líder do campeonato. Mas, apesar de toda a expectativa, ele não rendeu o que era esperado.

"O clássico foi jogado em um sábado, 1º de abril. Todos os olhos estavam em Romerito, que jogou como 'falso 9', deixando no banco ninguém menos que o inglês Gary Lineker. Deu alguns bons passes, demonstrou mobilidade, um ar técnico promissor... A partida foi equilibrada até os 10 minutos finais do primeiro tempo, quando o Barça apertou o Madrid. Neste momento decisivo, Romerito perdeu três gols: aos 35, aos 41 e aos 44. Este último foi o pior, em uma cabeçada na pequena área, que acabou saindo fraca, facilitando a defesa do goleiro Buyo", relatou o jornal.

"No intervalo, todos só falavam dos gols que Romerito deixou no limbo. Ele ainda jogou até os 35 do 2º tempo, quando foi substituído por Julio Alberto. O jogo acabou 0 a 0, e o Real manteve seus três pontos de vantagem. Acabou campeão", salientou.

Questionado, Cruyff teve que se defender. Mas a passagem do ídolo do Flu pelo Barcelona acabou sendo ruim.

"Cruyff se empenhou em dizer que seu reforço havia feito uma partidaça contra o Real, mas a desculpa não colava. Escalou Romerito de novo contra o Zaragoza, e de novo o paraguaio passou em braco. No jogo seguinte, contra o Valladolid, o meia se machucou", contou.

"Aí ele perdeu o ritmo de vez. Reapareceu faltando três rodadas para o fim, e acabou fazendo seu único gol contra o Málaga. Os companheiros, que haviam lhe recebido muito bem, festejaram efusivamente. Mas aí já sabiam que seu contrato não seria ampliado", revelou.

Romerito deixou o Barça após fazer apenas sete jogos e depois deu sequência à sua carreira. Aposentou-se em 1998.

"Romerito se foi do Barça de maneira discreta. Seguiu sua vida no México, Paraguai, Chile e outra vez no Paraguai, onde pendurou as chuteiras aos 38 anos, no Sportivo Luqueño, time que o revelou e clube de seu coração", lembrou.

"Na Espanha, ficou lembrado para sempre como um capricho absurdo de Cruyff, que só foi perdoado porque depois construiu o Dream Team dos anos 90. Romerito hoje vive no Paraguai, onde é respeitadíssimo", encerrou.