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Fome, tortura e suicídio: como é o serviço militar que Son, do Tottenham, conseguiu evitar

No último sábado, a Coreia do Sul venceu o Japão e conquistou a medalha de ouro do futebol nos Jogos Asiáticos 2018, que foram realizados em Jacarta, na Indonésia.

Por causa disso, o atacante Son Heung-min, principal estrela da equipe e titular do Tottenham, um dos times mais fortes da Premier League, escapou do serviço militar obrigatório de dois anos em seu país (entenda a história aqui).

Depois do jogo, a estrela sul-coreana, que foi escalada "emergencialmente" para os Jogos Asiáticos para ganhar o título e conseguir fugir do exército no auge de sua carreira, confessou que estava "aliviado" pelo feito.

E não é para menos: o serviço militar da Coreia do Sul é simplesmente brutal.

Em uma matéria feita pelo canal Goyang TV, o sul-coreano Gene Kim contou sobre os dois anos que passou na academia militar.

"Nossa Constituição diz que todo homem deve passar dois anos no exército, e é extremamente difícil passar por isso. E se você fugir dessa obrigação, vai diretamente para a cadeia", contou.

Esse serviço militar obrigatório ocorre por causa das relações tensas com a Coreia do Norte, o que faz com que a Coreia do Sul tenha atenção especial com seu efetivo.

"Eu servi o exército entre 2009 e 2011. Antes disso, eu estava vivendo em Nova York. Quando cheguei à idade obrigatória, decidi me apresentar, porque sabia que precisava acabar com essa etapa da minha vida em algum momento", relatou.

"Enquanto estive no serviço militar, odiei cada momento. Detestei cada hora, cada minuto naquele lugar completamente isolado da sociedade. Só fazia o que mandavam e esperava aquilo acabar", acrescentou.

"Você estava vivendo uma vida livre e de repente se vê completamente isolado do resto da sociedade. Você não tem contato com ninguém. Você basicamente sacrifica dois anos de sua juventude pela nação", ressaltou.

O INÍCIO

Segundo Gene Kim, o começo da vida no exército é o mais duro possível.

"Assim que você entra na base militar, você encontra esses instrutores que irão lhe treinar pelas próximas cinco semanas lá. Eles tentam intimidar você a todo momento, te assustar, de maneira a te 'modelar' como um soldado ideal", lembrou.

"Essas cinco semanas foram a experiência mais intensa da minha vida. Tudo é muito intenso. Todos gritam com você o tempo todo. Você não tem voz para nada. Só pode fazer o que te mandam e nada mais", rememorou.

De acordo com o ex-militar, o treino mais difícil envolve uma câmara de gás.

"Uma das coisas que me lembro até hoje foi o treino em que te ensinam a se defender de um ataque químico. A partida mais difícil foi quando colocaram todo o meu grupo em uma sala cheia de gás", recordou.

"Quando você entra na sala usando uma máscara de gás, também há um instrutor lá dentro usando máscara. De repente, ele manda que todos os soldados tirem a máscara. Então, você é exposto a esse gás que não causa nada a longo prazo para o seu corpo, mas que no momento machuca muito. Parece que há um milhão de agulhas penetrando seu corpo", contou.

"E quando você não consegue mais prender a respiração e inala aquele gás, você sufoca. Basicamente, não dá para respirar. Aquela pequena sala logo torna-se um caos. Todos começam a se agarrar, a rolar no chão... Teve um cara que começou a esmurrar a porta para tentar sair, mas há um guarda lá fora que impede isso. Foi o caos...", relatou.

'LAVAGEM CEREBRAL'

Gene Kim observa que, depois dessas cinco semanas de treinamento, cada soldado é realocado para diferentes batalhões, nos quais irão ficar até o fim do tempo de serviço militar obrigatório.

Daí em diante, começa o processo de "lavagem cerebral", segundo ele.

"Do dia 1 até até o fim do serviço militar, você irá ouvir falar muito da Coreia do Norte por parte dos oficiais superiores", recordou.

"No exército, eles definem a Coreia do Norte como 'o inimigo' [...] E eu não sei se é porque sofri lavagem cerebral, mas eles conseguiram me convencer de que os norte-coreanos podem e vão causar dano à sociedade sul-coreana", salientou.

"Há sempre a possibilidade de que a Coreia do Norte pode invadir nosso país, e por isso devemos estar sempre preparados para isso", complementou.

Anos depois de sua experiência no exército, Kim diz que, apesar de ter odiado os dois anos que passou a serviço da nação, nem tudo foi tão ruim assim.

"Quando olho para trás, acho que aprendi algumas coisas úteis. No exército, todos os dias diziam: 'Se não está funcionando, faça funcionar'. Aprendi que se você colocar esforço em algo, você pode conseguir", ressaltou.

"Hoje, sinto que posso alcançar qualquer coisa", finalizou.

TORTURA E SUICÍDIO

Segundo um artigo da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, sobre o serviço militar sul-coreano, os membros do exército recebem apenas uma ajuda de custo de no máximo US$ 150 (R$ 608, na cotação atual) durante os dois anos.

O trabalho acadêmico ainda descreve em detalhes a dura vida nos quartéis.

"Nos dois anos de serviço militar, o cidadão sul-coreano é isolado em um ambiente primitivo, que deixaria perplexo qualquer ideia ocidental de dignidade e direitos humanos. [...] No quartel, uma forma absoluta de hierarquia é imposta sistematicamente. A maior parte do tempo de cada um não é passada em exercícios, mas sim vivendo nessas condições. E esse local pode se tornar equivalente a uma cela de tortura por dois anos, caso a pessoal não se adeque a todo que é imposto", explica.

"A sociedade sul-coreana acaba por aceitar qualquer nível de violência, crueldade e injustiça em nome do interesse nacional. Isso aniquila qualquer tipo de mente científica, criativa ou independente do país", observa.

A partir de entrevistas com ex-militares, o artigo ainda cita diversos exemplos do tratamento dado aos soldados.

- Um soldado foi forçado a beber sangue de frango por um oficial de patente superior
- Um soldado foi forçado a comer baratas
- Um soldado foi obrigado a comer 30 alimentos congelados, vomitá-los e comê-los novamente. A cada vez que vomitava, era alvo de uma surra de oficiais de patente superior
- Um soldado foi amarrado a um tanque e torturado por oficiais de patente superior

O estudo também aponta que muitos soldados sofrem traumas mentais permanentes e cometem suicídio após ou durante o serviço.

Um dos casos mais famosos envolveu um militar que matou outras cinco pessoas antes de ser preso enquanto tentava tirar a própria vida.

A dissertação ainda aponta que o medo que os sul-coreanos têm dos dois anos nos quartéis é tão grande que os leva a medidas extremas para conseguir escapar.

"Tudo isso faz que com que muitos cidadãos busquem maneiras desesperadas de escapar. Muitos apelam para medidas extremas, como cortar os polegareis opositores ou dedos dos pés, o que causa dispensa automática. Outros param de comer até ficarem subnutridos, o que também pode ajudar na dispensa, apesar de ser extremamente danoso à saúde", finaliza.