A carreira de Son Heung-Min, principal destaque da seleção da Coreia do Sul na Copa do Mundo 2018 e um dos melhores jogadores do Tottenham na Premier League inglesa, pode ser interrompida por dois anos por um motivo inusitado.
Como todo sul-coreano, o atleta, que neste sábado encara o México pela 2ª rodada do grupo F do Mundial, precisa cumprir 21 meses de serviço militar obrigatório até fazer 28 anos, idade que ele completará em 2020.
Como ele tem 25 e fará 26 no próximo dia 8 de julho, em meio à Copa, isso quer dizer que ele seria convocado em 2019 para servir sua nação - a idade limite para formalizar o alistamento é 27 anos. O chamado, portanto, resultará no fato do atleta perder as temporadas 2019/20 e 2020/21 da Europa, bem no momento em que vive seu auge físico e técnico.
No entanto, ainda há uma chance de escapar.
Quer dizer, três...
A primeira delas é uma verdadeira façanha: conseguir levar a Coreia do Sul ao menos até a semifinal no Mundial da Rússia. Se isso não se concretizar, a segunda chance de fugir é ganhar os Jogos Asiáticos da Indonésia, que começam em agosto. Depois, o último suspiro é terminar em 1º lugar na Copa da Ásia de 2019, em janeiro, nos Emirados Árabes Unidos.
Se realizar um desses feitos, Son conseguirá a dispensa dada pelo Governo.
Caso não consiga, porém, terá que cumprir as leis do país, sob risco de ser acusado de deserção. No exército, terá que se virar com um salário de R$ 500 por mês, muito menos que seu salário no Tottenham: R$ 1,7 milhão por mês.
Ao menos ele poderá continuar batendo bola. Mas não pelos Spurs, e sim pelo Sangju Sangmu, o time do exército sul-coreano, que disputa a primeira divisão do país. Na atual temporada, a equipe está em 5º lugar, 12 pontos atrás do líder Jeonbuk Motors.
O atacante, aliás, já teve uma chance de escapar do serviço miliar através dos Jogos Olímpicos, mas o destino conspirou contra. Isto porque o Governo concede dispensa automática em caso de conquista de medalha.
Em Londres-2012, a Coreia do Sul ficou com o bronze, mas Son pediu dispensa da convocação para participar da pré-temporada do Hamburgo, time no qual começava a surgir. Se tivesse ido, já teria se livrado do exército.
Ainda houve outra oportunidade, nos Jogos Asiáticos de 2014, justamente na Coreia do Sul. O jogador foi novamente chamado para defender seu país, mas não foi liberado pelo Bayer Leverkusen, para o qual havia se transferido, e foi cortado.
No fim das contas, a Coreia do Sul foi campeã. E, mais uma vez, Son não estava lá...
Nos Jogos do Rio-2016, quando o já astro do Tottenham conseguiu finalmente ser convocado, novo debacle: a seleção asiática foi eliminada pela surpreendente Honduras nas quartas e não teve sequer chance de disputar medalha.
Agora, a Copa do Mundo pode ser uma de suas últimas chances para não interromper sua carreira por conta do alistamento militar. Por isso, ao menos para o camisa 7, o duelo deste sábado contra o México, em Rostov, vale muito mais que três pontos.
'É UMA MÁQUINA DE TREINOS'
Questões de exército à parte, quem conhece Son Heung-Min diz que a proximidade do serviço militar jamais afetou seu jeito de ser. Amigos brasileiros contam que o coreano é extremamente relaxado e tem uma personalidade muito divertida.
"Ele se dava bem com o time inteiro, super brincalhão, o tempo todo rindo. Falava um alemão muito bom. Tenho boas recordações. Ele é bem extrovertido. É super profissional e dedicado, mas brincava bastante", conta à ESPN o zagueiro André Ramalho, do Red Bull Salzburg, que jogou com o atacante no Bayer Leverkusen.
O defensor elogiou muito Son por seu comprometimento com o trabalho.
"Ele é uma máquina de treinos. Fazia muitos trabalhos de pedalar pela direita, jogar pra esquerda e chutar. Depois, repetia com a outra perna. Ele fazia isso demais depois dos treinos, quase todos os dias. Repetia demais, de tudo que é lugar. Sempre imaginava e tentava colocar a bola em situações bem diferentes. Por isso, ele bate muito bem com as duas pernas", revela.
"O esporte em si tem muito a ver com repetição de movimentos. Ele sabe que, no ataque, tem muitas situações que precisa resolver rápido e tentava prever isso. Ele faz essa pedalada em altíssima velocidade, o que é complicado. Tem caras que são mais manjados, mas ele é imprevisível por esse fator. Por isso é muito difícil de marcá-lo", elogia Ramalho.
O lateral esquerdo Wendell, ex-Grêmio e atualmente no Leverkusen, é outro que também tem amizade muito forte com o sul-coreano até hoje.
"É um dos caras que mais me dei bem na Alemanha. A gente tinha um grupo que se reunia muito e estávamos sempre juntos: Calhanoglu, Bellarabi, Kruse, Son, Papadopoulos, todos bem amigos. A gente o chama de Sonny até hoje (risos). Todos nos davamos muito bem com ele, um cara muito trabalhador e gente boa. É companheiro mesmo e tenho carinho grande. Torço sempre e que quando dá eu o vejo jogar para torcer. Merece tudo de bom", exalta o ala, à ESPN.
"Ele tem outra mentalidade em relação a outros asiáticos que conheci no futebol. Son é muito extrovertido e brincalhão. Um cara muito sangue bom e de coração grande", descreve.
O brasileiro também destaca o profissionalismo do atacante.
"Ele é muito craque, mesmo! A esquerda e direita dele são fenomenais. Chuta muito e treina demais. Nunca vi um cara tão trabalhador como ele para treinar finalização. Ele treina o chute de chapa, de direita e de esquerda, e a bola vai do mesmo jeito. Não é somente o talento, o cara aperfeiçoa os movimentos a cada dia", ressalta.
Wendell ainda conta que Son é muito brincalhão e é fã do português Cristiano Ronaldo.
"Engraçado que ele tem essa cultura forte de respeitar os mais velhos. Só que no Bayer tinha um coreano mais novo que ele e, por causa dessa hierarquia, ele zoava muito o moleque. Daí, a gente não deixava barato e enchia o saco dele: ‘Pô, Sonny, você é coreano e nem sabe lutar. Vamos ver se você sabe lutar (risos)’. Ele é muito fã do Cristiano Ronaldo, falava muito dele, sempre me dizia que admirava bastante o estilo de jogo dele", relata.
E a fama do amigo na Ásia era algo que sempre impressionava o ex-gremista.
"Uma vez fomos pra uma pré temporada na Coreia do Sul e ele nos levou a um restaurante. Comemos as comidas típicas e são muito gostosas. Ele é o Cristiano Ronaldo da Coreia: quando chegamos ao aeroporto, nem conseguia sair de tão lotado que estava. Muita gente ficou em cima dele, o braço dele até doeu de tanto autógrafo que deu (risos). Até eu dei uns autógrafos no rebote por lá (risos)", diverte-se.
