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Convulsão de Ronaldo, Copa 'entregada' e 'polêmica sem fim', jornal resgata Brasil x França em 98

"O que realmente aconteceu na final da Copa do Mundo de 1998?"

A pergunta que o jornal inglês "Daily Mail" fez na edição da última quinta-feira é a mesma que muitos brasileiros se fazem há 20 anos, desde 12 de julho de 1998, quando a seleção perdeu para a França por 3 a 0, em Saint-Denis.

A publicação inglesa resgatou uma série de histórias daquele Mundial para tentar chegar a tão esperada resposta. Consultou outras fontes, vasculhou pistas e até recuperou entrevistas.

Veja o resultado:

O mistério em torno de Ronaldo

"Ronaldo terminou a Copa de 98 com a Bola de Ouro --troféu dado ao melhor jogador da competição--, mas ele e o Brasil perderam o título daquele mundial em uma das mais estranhas decisões da história", inicia a publicação.

O jornal recorda que até o dia da final Ronaldo, que ganhara em 1997 o apelido de Fenômeno, somava 34 gols pela Inter de Milão --incluindo um na decisão da Copa Uefa contra a Lazio-- mais quatro pelo Brasil. Ele tinha só 21 anos.

Por isso todos os holofotes daquela decisão estavam voltados para ele. Não como ele gostaria...

O "Daily Mail" descreveu que naquele dia, 72h antes do pontapé inicial, torcedores, repórteres e comentaristas ficaram surpresos ao ver a escalação inicial da seleção sem Ronaldo. Edmundo havia sido escolhido.

"Os jogadores do Brasil não apareceram para fazer aquecimento e os rumores eram abundantes e abrangentes, com os mais fortes afirmando que Ronaldo tinha uma lesão no tornozelo ... e depois um problema no estômago."

"Em meio à loucura, John Motson [da BBC] pediu para o colega Ray Stubbs investigar e ele buscou informações com Pelé. Depois de ser saudado pela lenda do Brasil na área de imprensa, Stubbs retornou ao local onde Motson estava e disse: "Até Pelé não sabe o que está acontecendo!"

"A confusão aumentou quando uma ficha de equipe atualizada foi distribuída 30 minutos depois, mostrando que Ronaldo começaria de fato o jogo, com Edmundo de volta ao banco."

"Motson disse: 'Eu nunca vi nada assim em minha carreira. Foram cenas de desordem e caos absoluto".

Ofuscado por Zidane

Ronaldo jogou os 90 minutos daquela decisão. Apagado, é verdade. E acabou ofuscado pela estrela de Zinedine Zidane, em dia mais do que inspirado. O ídolo francês fez dois gols e deu assistência para outro.

Mesmo com a expulsão de Marcel Desailly, na metade do segundo tempo, o panorama do jogo não mudou. Quer dizer mudou para a pior. A França vencia por 2 a 0 e fez o terceiro mesmo com um jogador a menos.

"O maior envolvimento de Ronaldo no jogo ocorreu quando ele colidiu com o goleiro da seleção francesa Fabien Barthez", relembrou o "Daily Mail" na edição de quinta-feira.

"Depois de lutar contra as lágrimas, Ronaldo se movimentou em torno do campo com suas chuteiras Nike penduradas em seu pescoço, bem como uma medalha de vice-campeão".

Convulsão, e a versão de Ronaldo

Ronaldo teria decidido tirar um cochilo algumas horas da decisão, mas o descanso do camisa 9 foi perturbado por um problema clínico e deixou todos os companheiros de seleção preocupados.

Isto é o que a publicação inglesa relembrou. E, para ajudar, resgatou uma entrevista dada pelo atacante para "FourFourTwo" há alguns anos, contando o que teria ocorrido naquele dia 12 de julho:

"Decidi descansar depois do almoço e a última coisa de que me lembro foi que dormi. Depois disso, tive uma convulsão. Eu estava rodeado de jogadores e o falecido Dr. Lidio Toledo estava lá. Eles não queriam me dizer o que estava acontecendo", disse o jogador para a revista inglesa.

"Eu perguntei se eles poderiam sair e ir falar em outro lugar porque eu queria dormir. Então, Leonardo me pediu para dar um passeio no jardim do hotel onde estávamos para me explicar toda a situação. Disseram-me que eu não jogaria na final da Copa do Mundo", prosseguiu o jogador para a revista.

Ronaldo detalhou que contestou a decisão de Zagallo e disse que queria e iria jogar.

"Todos os exames médicos essenciais não mostraram nada anormal. Foi como se nada tivesse acontecido", explicou Ronaldo. "Depois disso fomos ao estádio com uma mensagem de Zagallo dizendo que eu não jogaria. Eu tive resultados de teste na minha mão - com o Dr. Toledo dando luz verde. Eu me aproximei de Zagallo no estádio e disse: 'Estou bem. Não estou sentindo nada. Aqui estão os resultados do teste, eles estão bem. Eu quero jogar'".

"Eu não dei a ele uma alternativa. Ele não teve escolha e aceitou minha decisão. Então joguei e talvez tenha afetado toda a equipe porque essa convulsão foi certamente algo muito assustador. Não é algo que você vê todo dia".

Acusações contra a Nike

A derrota brasileira, a apagada atuação de Ronaldo, o fato de Zagallo não tê-lo substituído, aliás, o fato de o treinador ter voltado atrás na decisão de não colocar o camisa 9 entre os titulares levantaram muitos questionamentos...

E recaíram sobre a Nike acusações de que a empresa norte-americana, patrocinadora de Ronaldo, teria forçado e obrigado Zagallo a escalar a grande estrela do futebol naquele momento.

"Edmundo insinuou que a Nike, parceira do Brasil e de Ronaldo, influenciou a seleção de equipes", relembrou o jornal inglês, resgatando uma frase dita pelo Animal há alguns anos.

"Pessoas da Nike estava na concentração 24 horas por dia, como se fossem membros da equipe técnica", disse Edmundo. 'É um poder enorme. Isso é tudo o que posso dizer."

O "Daily Mail" recordou ainda que o desfecho daquele Mundial e as acusações contra a Nike resultaram numa investigação parlamentar, com a formação de uma CPI no Brasil.

"A investigação do acordo de patrocínio de 270 milhões de libras esterlinas (hoje R$ 1,3 bilhão) do gigante da moda esportiva com o lado brasileiro não conseguiu chegar a nenhuma conclusão reveladora", escreveu o jornal.

"Ronaldo disse para a CPI que se sentiu saudável o suficiente para disputar a final, mas se recusou a discutir os termos de seu contrato com a Nike, dizendo que a informação é confidencial (...) Ronaldo acrescentou que o único acordo que teve com a Nike foi 'usar a marca esportiva'", prosseguiu em seu relato o jornal.

Teorias da conspiração

Diante de todo esse cenário, não foram poucas as teorias criadas para explicar/entender a derrota brasileira.

Ronaldo foi quem mais "sofreu". Uma das histórias criadas envolvia sua namorada, a atriz Susana Werner.

"Os ataques de convulsão de Ronaldo foram causados pelo surgimento de um boato de que a namorada dele, Susana Werner, estava tendo um caso com [o goleiro] Júlio Cesar", escreveu o "Daily Mail".

Também surgiu o famoso e-mail de Gunther Schweitzer apontando um "grande esquema de compra da Copa".

"De acordo com a história, o Brasil recebeu US$ 23 milhões para permitir que a França conquistasse a Copa do Mundo de 1998 em casa .A vitória dos anfitriões agradou ao presidente da Fifa, Joseph Blatter, que ajudou o torneio a ser visto como um veículo de sucesso para melhorias sociais na França. Em troca, o Brasil recebeu a promessa de ser campeão em 2002 [o que aconteceu] e, em seguida, a sediar uma futura Copa do Mundo, o que eles fizeram em 2014."

O "Daily Mail" relembrou até do jornalista Jorge Kajuru, que alguns anos após o Mundial apresentou uma versão diferente. Ronaldo teria sofrido uma reação muito forte as infiltrações que tomara no joelho antes da final.

Outra versão acusava os franceses de terem "drogado" a comida de Ronaldo propositalmente.

Também se justificou a derrota brasileira e o problema de Ronaldo como um "colapso nervoso".

"Afinal, ele era o melhor atacante do planeta (...) O jornal 'Folha de S.Paulo' afirmou que Ronaldo vinha mostrando sinais de depressão no início do torneio, quando supostamente esmagou uma bicicleta em uma parede em um acesso de raiva. O relatório cita Ronaldo como tendo uma crise nervosa na véspera da final, quando o Brasil aparentemente decidiu não medicá-lo devido a temores de que poderia ser um problema de doping".

Redenção

Sem chegar a uma conclusão sobre a derrota brasileira em 1998 --como muitos brasileiros nos últimos 20 anos-- o "Daily Mail" reconhece que Ronaldo teve o momento de redenção na Copa seguinte.

E não foi pouco. Ele superou duas graves lesões no joelho. Ignorou comentários que diziam que ele jamais voltaria a jogar bola, além de outros que acreditavam que ele jamais fora merecedor do apelido de Fenômeno.

Ronaldo foi o artilheiro da Copa de 2002, com oito gols, tendo feito dois na final contra a Alemanha. Foi incluído na seleção do Mundial e recebeu ainda o prêmio "Chuteira de Ouro".

Tinha 25 anos quando alcançou o título e a redenção.