Equilíbrio.
Essa é, sem dúvida, a palavra mais utilizada por Tite nas entrevistas. O treinador de 57 anos promoveu uma revolução na seleção brasileira, que hoje joga como um time europeu, mas com talento brasileiro.
Ao todo, foram 25 partidas com Tite e uma única derrota, além de míseros seis gols contra. Nesta Copa do Mundo são quatro jogos, com apenas um gol sofrido e sete marcados. Muito além do destaque que naturalmente Neymar, Philippe Coutinho e tantas outras estrelas ganham, o sistema defensivo da equipe chama a atenção. No Mundial aconteceram somente quatro finalizações certas na meta defendida por Alisson, e esse número impressionante ajuda a entender quem é o técnico Tite.
Nascido em Caxias do Sul, no estado do Rio Grande do Sul, há 57 anos, Adenor Leonardo Bacchi faz parte da escola gaúcha de treinadores. Em seu estado natal, o futebol é jogado de maneira mais viril e o campeonato estadual é considerado um dos mais difíceis e equilibrados do Brasil. O perfil profissional de Tite começou a ser moldado lá.
O jovem Adenor também foi jogador de futebol. Pelo Caxias, demonstrou talento como meio-campista e estreou entre os profissionais em 1978. Passou também pelo Esportivo, ainda no Rio Grande do Sul, e em 1985 foi contratado pela Portuguesa. Jogou pouco tempo pelo time da comunidade lusitana em São Paulo, até se transferir já no ano seguinte para o Guarani, cube tradicional do interior paulista, onde fez parte do grupo vice-campeão brasileiro em 86. Seguidas lesões nos joelhos fizeram com que, prematuramente, aos 28 anos, encerrasse a trajetória como jogador. Por outro lado, esses problemas aceleraram sua transformação em técnico.
Por uma década trabalhou em diversos clubes do interior do Rio Grande do Sul, até chegar ao seu velho conhecido, Caxias. O título estadual em 2000, superando o Grêmio de Ronaldinho Gaúcho na decisão, lhe deu maior projeção e o emprego de técnico, justamente, no adversário. Ali a trajetória rumo ao estrelato começou, e com outro troféu, a Copa do Brasil de 2001, Tite passou a ser um treinador top no Brasil.
Venceu ainda campeonatos importantes no arquirrival, Internacional, como a Copa Sul-Americana de 2009, mas foi no Corinthians que sua vida mudou definitivamente. Em três passagens pelo time mais popular de São Paulo, Tite se transformou no maior técnico da história do clube. Foi duas vezes campeão brasileiro (2011 e 2015) e levou o Timão à tão sonhada taça da Libertadores da América e do Mundial em 2012. Todos os troféus conquistados sempre com a mesma característica: o equilíbrio tático, a solidez defensiva acima de tudo.
Depois do 7x1 sofrido pela seleção brasileira na Copa de 2014, Tite tinha certeza que seria chamado para o comando da equipe. Estava em período sabático, estudando futebol pelo mundo. A CBF optou pelo passado, ao selecionar Dunga como velho novo comandante. O erro foi reparado após a vexatória participação da seleção na Copa América de 2016, eliminada ainda na primeira fase. O técnico corintiano foi convocado para recuperar o prestígio de um time que corria risco de, pela primeira vez, não jogar um Mundial.
Contra o Equador, em primeiro de setembro de 2016, pelas eliminatórias para a Copa do Mundo, Tite iniciou sua revolução na seleção brasileira. Levou jovens que tinham vencido a medalha de ouro olímpica para o time principal, promoveu a estreia de Gabriel Jesus, colocou os principais jogadores para atuarem como nos clubes e, como se fosse em um toque de mágica, transformou um catado de ótimo atletas que davam vexame com Dunga em um time competitivo e vitorioso. Logo na estreia, o 3 a 0 contra os equatorianos em Quito mostrou aos brasileiros que era possível jogar de maneira compacta e bem. Há 25 anos o Brasil não vencia na altitude da capital equatoriana.
Depois do jogo, ele chorou. "No primeiro jogo contra o Equador, o Tite chorou. O Tite chorou. Quando liguei para minha esposa, chorei de alegria, de satisfação, porque é nossa característica emocional. Chorei de prazer, de orgulho, de um momento de tanta pressão em fazer um grande jogo", lembrou recentemente o treinador, já na Rússia, ao defender Neymar das críticas que tanto recebe. Na frase estão presentes outras características marcantes do gaúcho de 57 anos.
Além do técnico tático, preocupado com todos detalhes de um jogo, ele é também um paizão. Abraça o grupo de jogadores e une todos em prol do objetivo comum. Traços marcantes de alguém muito ligado à família.
Em Caxias do Sul, o telefone de Ivone Bachi, 82 anos, costuma tocar antes de jogos da seleção brasileira. A mãe de Tite é também a principal torcedora de Adenor Bachi, e mesmo com toda experiência de décadas vividas, ainda se emociona ao falar do filho e o orgulho que o pai dele, senhor Genor, falecido em 2009, teria do treinador do Brasil. "Sempre digo que coisa linda seria se ele estivesse aqui, vendo o filho. Mas, um lá outro aqui. Todo mundo me diz, ele está vendo". Em 2017, dona Ivone recebeu da CBF um terço personalizado com a bandeira brasileira. Ela chorou e desejou a bênção para o filho e todos que ali estavam.
Tite é tão religioso quanto a mãe.
A esposa Rosmari, ou apenas Rose, é a conselheira do treinador. Nos momentos difíceis, é ela que ouvem as confidências do Adenor. Mãe de Gabriele e Matheus, viu o filho ingressar no mundo do futebol. Fez faculdade de Ciência do Exercício nos Estados Unidos e jogou soccer universitário. Foi levado pelo pai para trabalhar na comissão técnica do Corinthians e hoje é um dos analistas de desempenho da seleção brasileira. Tite foi muito criticado por contratar o próprio filho, mas sempre defendeu a competência do familiar e nunca escondeu o lado fraternal de tê-lo ao lado na profissão.
Essa relação de família se estendeu aos companheiros de clube e agora seleção. Cléber Xavier, seu principal assistente técnico, trabalha com Tite há 18 anos. Clebinho, como é chamado, é o principal estrategista da seleção e grande conhecedor de todos os rivais futuros do time. Nas coletivas de imprensa, quando Tite precisa falar sobre as qualidades do próximo adversário, é Cléber quem assume o microfone e explana, em detalhes, as características do próximo time a ser enfrentado, além de apontar os melhores jogadores.
Do Corinthians para a seleção Tite não levou apenas Cléber e Matheus. Convocou o dirigente Edu Gaspar, ex-jogador de Arsenal e Valencia, para ser o gerente de seleções; Fábio Mahseredjian, preparador físico, Fernando Lázaro, scout e analista de desempenho, Bruno Mazziotti, fisioterapeuta, entre outros profissionais, estão com o treinador na jornada desde o Parque São Jorge, casa corintiana em São Paulo.
Engana-se, porém, quem acha que Tite seja unanimidade. Muitos jornalistas e torcedores o criticam pelo jeito de professor nas coletivas. Sua fala calma, pausada, com muitas expressões gestuais, faz com que diversas pessoas o considerem forçado nas respostas, um produto de media training, o que gerou o termo "Titebilidade". É acusado também de ter atletas de confiança, principalmente seus ex-comandados de Corinthians, mesmo que estes sejam alguns dos mais vitoriosos no futebol brasileiro há alguns anos.
Ele mesmo já falou, algumas vezes, que tem inimigos no futebol e que não é perfeito. Aceita muito bem as críticas, mas não gosta de perseguição, e identifica isso em parte da imprensa que não gosta de seu trabalho - ou de seu jeito. A parte que o admira, certa vez, foi diagnosticada pelo ex-capitão do São Paulo e da seleção uruguaia, Diego Lugano. Em entrevista à ESPN, afirmou que Tite é um "encantador de serpentes" no trato com os jornalistas pelo discurso que tem.
Luiz Felipe Scolari, técnico campeão do mundo com o Brasil em 2002 e comandante do 7x1, é um de seus desafetos. Felipão descobriu e lançou Tite como jogador no Caxias e, segundo o próprio, "abriu portas" para o jovem técnico em início de carreira. O próprio apelido "Tite" surgiu com Scolari, que confundiu o jovem Ade com um colega, chamado por todos de "Titi" na base.
Em biografia lançada em 2016, porém, Miro, irmão de Adenor, afirmou que a relação entre os dois treinadores acabou em 2010 quando o Palmeiras, de Scolari, supostamente entregou um jogo para prejudicar o Corinthians, de Tite. Após o episódio, em um clássico entre os times, os dois técnicos discutiram na beira do campo em cena muito famosa no Brasil, com Tite fazendo gestos para Felipão indicando que ele "fala muito" - traduzindo a expressão brasileira: reclama demais.
Depois que assumiu o Brasil, Tite consultou todos os ex-técnicos da seleção para buscar conselhos e ouvir a opinião deles sobre o péssimo momento do time. Felipão não o atendeu.
De 2014 até 2018, deixando Scolari e Dunga para trás, há em curso uma grande revolução na seleção brasileira. Não se trata de uma inovação tática sendo apresentada ao mundo, como fez a Hungria em 1954, a Holanda vinte anos depois ou a Espanha em 2010. Muito menos um futebol brilhante e vistoso, como demonstrado pelo Brasil em 1970 e 82. Também não é o outro lado da moeda, como fez a Itália em 2006. Trata-se do básico, de um trabalho bem feito, e os brasileiros não estão acostumados com isso.
A cultura da análise de um trabalho apenas pelo resultado e não pelo método adotado ainda é predominante no país. Isso faz com que milhares de pessoas desejem a permanência de Tite à frente do seleção após a Copa somente com o título. Fica muito claro, porém, para quem se aprofunda no futebol além das análises triviais, que o Brasil hoje precisa, e muito, da continuidade de Tite e sua comissão técnica no comando.
Em uma entidade marcada por escândalos de corrupção, cujos três últimos presidentes estão envolvidos em processos investigativos, a seleção brasileira se tornou uma ilha de excelência na entidade. A ponto de a imagem de Tite ser transportada para a política de um país, não menos marcado por denúncias de corrupção, como possível salvador da pátria.
No ano passado, em março, um instituto de pesquisas divulgou levantamento de que 15% da população brasileira votaria em Tite para presidente. O treinador da seleção, com a "Titebilidade" tradicional, deu mais uma lição: "É uma brincadeira com algo muito sério, que eu não tenho o mínimo de condição até de brincar com ela, porque é uma responsabilidade muito grande. Peço que não brinquem mais com esse negócio. Não falo por falsa modéstia. Isso não cabe, uma coisa tão séria e tão responsável".
Na próxima sexta-feira, Tite estará comandando o Brasil em Kazan, contra a Bélgica, pelas quartas de final da Copa do Mundo.
