Junho de 2018, Moscou, Rússia.
Hirving Lozano recebe pela esquerda, corta o volante Toni Kroos e chuta no canto, sem chances para o goleiro Manuel Neuer. Nas arquibancadas, uma explosão na comemoração do gol do México, o que definiu a vitória por 1 a 0 na estreia da Copa do Mundo.
Dentre os milhares de mexicanos que causaram um verdadeiro tremor no Estádio Luzhniki estava um homem beirando os 40 anos de idade que acabava-se de chorar naquele momento história. O choro, contudo, era, sim, de felicidade pela sua seleção. Ao mesmo tempo, de tristeza, de saudade. De nostalgia.
Maio de 2018, Cidade do México.
Ansioso pelo início do Mundial na Rússia, Gilberto Martínez já tinha tudo planejado. Antecipadamente, da forma que tem que ser, até para evitar qualquer estresse. Passagens, ingressos, quarto de hotel... Tudo reservado.
Ele estava sozinho na capital mexicana já que sua esposa argentina, Verónica, e seus filhos Diego, oito anos, e Mía, seis, viajavam pelos Estados Unidos para visitar seu cunhado. O que Martínez não esperava era receber a ligação que mudaria para sempre sua vida.
O carro em que sua família estava, na Flórida, chocou-se com um outro muito maior, uma 4X4, com violência, matando na hora toda sua família, um mês e meio antes da viagem da vida de todos.
“Minha filha, era uma viagem que ela esperava de forma diferente no futebol. Ela gostava de ver o irmão jogando e estava ansiosa por conhecer a Rússia. Ela queria ver as matrioshkas [bonecas russas], dizia muito”, conta Martínez, com os olhos marejados, em entrevista exclusiva à ESPN Deportes, do México.
“Suas professores e amigos me contavam que todo dia ela falava sobre isso. Quando chegaram as identificações de torcedor, ela ria muito do nome dele em russo. Os últimos ingressos que conseguimos foram da Argentina porque ele queria ver o Messi e não estava fácil de consegui-los. Quando lhe contei, foi uma alegria só”, rememora.
Como conseguir forças, então, para fazer sozinho aquilo que faria com toda a família, ainda mais após aquela tragédia? É aí que entra Guillermo Ochoa.
Goleiro da seleção mexicana e ídolo do América, time do coração de Gilberto Martínez, Memo ficou sabendo do ocorrido e não pensou duas vezes em mandar uma mensagem de condolências.
Aquilo tudo reatou a fé de Martínez.
“Quando eu estava no funeral de minha família, nos Estados Unidos, ele foi o primeiro a me mandar uma mensagem. O que posso te dizer sobre isso? É a principal razão por eu estar aqui agora”, diz.
“Ele usou uma frase que me marca até hoje: ‘seu filho é um anjo que vai me ajudar a voar. Eu interpretei como uma mensagem do meu filho, que me disse: ‘papai, você tem que ir. Vá, viva a Copa e honre-nos", lembra.
Na estreia mexicana no torneio, aquele mesmo jogo em que Lozano deu alegria a milhões de torcedores de El Tri pelo mundo todo, diante da poderosa e atual campeã mundial Alemanha, Martínez não segurou a emoção e falta que Verónica, Diego e Mía lhe fazim naquele momento.
“Foi uma partida muito dura porque era o Dia dos Pais, foi jogo perfeito do México, o primeiro gol na Copa. Foi um momento de desabafo. Chorei, cinco ou dez minutos depois do gol e só pensei neles. Nele principalmente. Foi uma grande alegria, uma grande satisfação”, conta.
Em um dos momentos mais marcantes do torcedor no país europeu, Martínez teve a oportunidade de, como um jogador - assim como seu filho sonhava - pisar no gramado.
“Por uma amiga que vive aqui, me fizeram a surpresa de entrar em campo antes do jogo em Rostov e creio que foi para mim o momento da viagem. Tirei uma foto da camisa com seu nome, sua identificação e a bola oficial no banco do México. Ele sempre quis jogar uma Copa do Mundo e, nesse dia, ele jogou", diz.
“Foi a Copa do Mundo mais planejada e a mais difícil, obviamente. Custa estar aqui, custa vive-la, mas, como disse: agora é terminar a única coisa que estava pendente com minha família e honrá-los. Era esta a viagem e aqui estou. Me faltou o tempo, mas o tempo em que estiveram comigo foi aproveitado 100%. Vero, Diego, Mía, vocês sempre estarão comigo no meu coração. Amo vocês.”
