"Ele é obstinado e fanático por futebol."
É assim que Juan Carlos Osorio é descrito por Milton Cruz, que foi seu assistente durante os tempos de São Paulo, em 2015.
Foi com esta mentalidade que o treinador do México superou toda a desconfiança com seu trabalho e conquistou vitórias sobre Alemanha e Coreia do Sul nos dois primeiros jogos da Copa do Mundo de 2018.
"Ele passava o tempo todo falando de futebol, dos jogadores, era o assunto preferido dele. Mesmo fora do trabalho", revelou Milton Cruz, que foi testemunha disso por várias vezes durante passeios pela capital paulista.
"Ele curtia comprar roupas e também canetas. Ele gostava muito da caneta Bic azul e vermelha e as cadernetinhas para anotar. Aonde ele ia, levava a mochila nas costas cheia delas. Às vezes, estávamos andando no shopping e do nada ele parava. Daí ajoelhava no chão mesmo, apoiava a cadernetinha na perna e começava a escrever algumas coisas sobre o time ou algum adversário", contou o treinador, atualmente no Figueirense.
O curioso hábito do treinador despertou o interesse do brasileiro. "Teve um dia que eu perguntei: Osorio, por que você anota tanto? Ele respondeu: meu pai era dono de um mercado e me dizia, `Mais vale um lápis curto do que uma memória larga'. Ele é muito organizado e inteligente", elogiou.
Chegada ao Morumbi
Com gestos simples, Milton Cruz foi um dos que mais ajudou Osorio a se adaptar ao Brasil.
"No dia seguinte ao que ele chegou ao São Paulo, era folga e eu ia ao Guarujá. Mas mudei de ideia. Ele ainda não estava com a família e estava sozinho no CT. Falei com a minha esposa e o convidamos para passar o dia em casa. Ficamos conversando e saímos à noite para comer pizza", relatou.
"Eu o ajudei a procurar um flat e escola para os filhos dele também. Ele sempre ia para minha casa e gostava de ver os jogos na televisão da escada da sala. O Osorio dizia que no sofá era confortável demais e corria o risco de dormir (risos)", relatou.
Milton e sua família foram fundamentais também para que o treinador melhorasse sua fluência na nossa língua. "Ele queria aprender o português mais correto e gostava de falar com a minha esposa porque eu falava muitas gírias".
A saída do São Paulo
Apesar de implementar métodos diferentes, que incluíam o rodízio do elenco e a distribuição dos famosos bilhetinhos, Osorio caiu nas graças do grupo de jogadores do São Paulo.
"Ele é um cara muito carismático e atencioso, os atletas gostam muito dele. Não gosta de chamar ninguém pelo apelido, sempre pelo nome. O Pato é o Alexandre, o Souza era o Josef. O Ganso era o Paulo Henrique", comentou.
Milton Cruz acredita que a passagem de Osorio pelo Brasil foi interrompida por uma promessa não cumprida de Carlos Miguel Aidar, presidente do clube do Morumbi à época.
"Se tivessem tipo paciência, ele ia fazer história no São Paulo. Sempre me dizia que não tinha vindo pelo dinheiro. Ele queria mostrar o trabalho dele. Mas não ficou por algumas interferências que o deixaram chateado. Prometeram a ele que ninguém ia ser negociado e, quando a gente estava na liderança do Brasileirão, começaram a vender. Saiu o Souza, o Denilson e muitos outros e ficou difícil", lamentou.
"Ele queria ficar aqui para fazer um bom trabalho e depois sair para a seleção colombiana. Mas quando tudo isso aconteceu, ele foi falar com o presidente, que disse: ‘O São Paulo não é time para fazer experiências’. Isso magoou muito ele. Ele me mostrou, eu li e falei: Deixa quieto. Aí um dia a seleção mexicana veio treinar no CT do São Paulo e falaram com ele. O Brasil enfrentou o México no Allianz Parque. Pouco depois, veio o convite e ele decidiu ir embora", detalhou.
Influência para um novo técnico
Na época em que Juan Carlos Osorio treinava o São Paulo, eram muito frequentes os elogios de Rogério Ceni ao treinador. E Milton Cruz acredita que isso foi a grande motivação para o ídolo tricolor seguir a carreira como técnico.
"Ele respeitava muito o Rogério. E o Rogério gosta muito dele. Ele se animou muito a ser treinador quando o Osorio esteve aqui. O Osorio trabalhou muito tempo na Inglaterra e ele tinha muita coisa diferente nos treinamentos. Coisas bem bacanas, que davam uma dinâmica. Essa obsessão dele por futebol também mexeu muito com o Rogério".
Torcida pelo México
Milton Cruz tem uma relação muito próxima com o México. Atuou por alguns anos no país e virou ídolo. Alguns anos depois, seu filho se casou com uma mexicana. Tudo isso já seria motivo para torcer pela equipe na Copa do Mundo. E fica ainda mais evidente quando o técnico do time é um de seus grandes amigos.
"Eu liguei pra ele um pouco antes do começo da Copa e disse que estaria na torcida. Ele até me perguntou para quem eu torceria se a final fosse Brasil e México e eu tive que dizer empate, né. Mas fico muito feliz com esse bom início, ganhou da Alemanha. Aposto que ele já está estudando quem vai pegar nas oitavas. Acho que seu maior mérito é esse. É o trabalho durante a semana. Ele estuda muito os adversários antes do jogo e isso está dando resultado", completou.
