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Rei da trivela, Quaresma fracassou no Barcelona e sofreu com preconceito por ser cigano

Ricardo Quaresma é um dos grandes heróis de Portugal na Copa do Mundo até agora. Foi de sua trivela mágica que saiu o primeiro gol do jogo contra o Irã, que terminou em 1 a 1 e garantiu a vaga dos europeus às oitavas de final.

Para chegar ao seu momento de glória com a camisa lusa, no entanto, o meia-atacante teve que superar muitas barreiras, inclusive o preconceito, em sua vida conturbada.

Nascido em 26 de setembro de 1983, em Lisboa, Quaresma é da etnia rom, popularmente conhecida como cigana, que é o conjunto de populações nômades originários do subcontinente indiano e tem habitantes espalhados por diversos países do mundo, inclusive o Brasil. Apelidado desde jovem como "Cigano", ele diz ter sido vítima de discriminação racial durante toda a vida.

"Aos olhos dos outros, eu sempre fui o culpado de tudo. Há muita gente que diz que não há racismo, e eu só posso rir disso. Por ser cigano, o alvo de tudo era eu. Por isso, sempre fui uma criança revoltada", contou, ao canal português SIC, lembrando uma história de sua infância.

"Um dia, desapareceu um casaco na escola em que eu estudava, e os pais dos outros alunos logo começaram a dizer que tinha sido o cigano. Mais tarde, tudo foi resolvido, e é claro que não tinha sido eu", relatou, dizendo ter orgulho de suas origens.

"Sempre senti que me chamam de cigano de maneira ofensiva, mas enganam-se se acham que fico ofendido por isso. Na verdade, tenho muito orgulho de ser cigano. Não há no mundo um povo mais alegre", exaltou o luso.

A vida conturbada lhe rendeu uma série de tatuagens com significados fortes, como duas lágrimas que fez recentemente em seu rosto - ele nunca explicou o motivo dessa imagem -, assim como a fama de bad boy.

Quem o conhece, contudo, diz que Quaresma é uma boa pessoa, apesar da personalidade um tanto complicada e por vezes falar mais do que deve. Caso do brasileiro Bruno Moraes, que jogou com ele no Porto, e atualmente veste a camisa do Sporting Clube de Espinho, após passagens por Santos e Portuguesa.

"Ele tem o jeito dele. Algumas pessoas gostam, outras não... Mas eu nunca tive problema nenhum com ele, tanto dentro quanto fora de campo. É um cara que vem de família humilde e venceu por meio do futebol", conta Bruno, ao ESPN.com.br.

Segundo Moraes, a vaidade de Ricardo sempre lhe chamou a atenção, assim como o carinho que o colega de equipe tinha pelos funcionários do Porto.

"Ele é um cara muito vaidoso, sempre gostou de cuidar da aparência, usar umas roupas diferentes. Além disso, é muito extrovertido e brinca com todos", relata.

"Uma coisa curiosa dele é que ele dava presentes ou dinheiro para os funcionários do clube, como o massagista ou roupeiro. Era uma forma dele agradecer e também manter o pessoal motivado. Sempre teve um bom relacionamento com todo mundo", lembra.

Um dos companheiros de equipe na seleção portuguesa que mais lhe apreciam é Cristiano Ronaldo, com quem Quaresma tem bom entrosamento, tanto dentro quanto fora de campo.

Bem em Portugal, mal no Barça

Quaresma começou a carreira no Sporting, e logo de cara explodiu na temporada 2001/02, com a equipe alviverde conquistando o Campeonato Português e a Taça de Portugal. Jogando muito, o meia-atacante rapidamente chegou à seleção de Portugal e chamou a atenção do Barcelona, que o contratou em 2003 por 6 milhões de euros (R$ 21,6 milhões, na cotação atual), mais o empréstimo do brasileiro Fábio Rochemback.

Na era Barça pré-Ronaldinho Gaúcho e Messi, porém, o português fracassou. Fez apenas 10 jogos como titular, marcou um gol, se lesionou e teve problemas de relacionamento com o técnico Frank Rijkaard. Durante a Eurocopa de 2004, inclusive, Quaresma declarou publicamente que se recusaria a representar o time catalão enquanto o holandês estivesse no comando.

Apareceu, então, o Porto, clube que iria reerguer sua carreira. Em 2004, quando o Barcelona acertou com Deco, cedeu Ricardo como parte do pagamento. Nos "Dragões", ficou por quatro anos e cansou de ganhar títulos, como um Mundial de Clubes, três Portugueses e uma Taça de Portugal, muitas vezes com grandes exibições, golaços e lances de efeito.

Durante esta fase, no entanto, ele também era muitas vezes criticado por ser "fominha" e tentar um drible ou uma jogada bonita ao invés de optar por uma mais simples.

"É claro que, por ser um jogador que arrisca muitas jogadas individuais e não passa a bola sempre, ele acaba errando um pouco mais. Comigo, porém, nunca deu problema. Pelo contrário, eu achava um prazer vê-lo jogar, porque é diferenciado", elogia Bruno Moraes, que se aproveitou muito dos belos passes de Quaresma.

"Uma vez tive a felicidade de fazer um gol numa jogada muito bonita dele. Ele deu um daqueles cruzamentos famosos de três dedos e eu concluí de chapa. Foi um jogo contra o Nacional da Madeira, esse meu gol foi o de empate e depois viramos", recorda.

"É um jogador de muita qualidade individual e habilidoso. Tem o domínio da arte de improvisar nos últimos metros do campo, e pode fazer a diferença a qualquer hora do jogo. A trivela é a marca registrada dele, sempre faz isso nos jogos e nos treinos. Muitas vezes, surpreende os goleiros com esse lance", ressalta o brasileiro.

O pior da Itália, vexame e redenção na Turquia

Em setembro de 2008, a Inter de Milão, então comandada por José Mourinho, contratou Quaresma por 18,6 milhões de euros (R$ 67 milhões). Esperava-se que o luso manteria sua grande fase do Porto, mas ele nunca chegou a se firmar no futebol italiano, especialmente por não seguir à risca as rígidas ordens táticas do Special One.

"Ele é um grande talento, mas o prazer que eu tenho vendo Ibrahimovic trabalhando pelo time eu não vejo em Quaresma. Ele terá que aprender a trabalhar para a equipe, ou não vai jogar. Eu tenho certeza que ele vai mudar e se tornar mais disciplinado taticamente", apostou Mourinho, durante a temporada 2008/09.

Só que o meia-atacante não mudou, ficou encostado no banco e, ao fim do campeonato, ganhou o nada prestigioso Bidone d'oro ("Latão de lixo de ouro"), prêmio dado por um programa de rádio italiano ao pior jogador da Serie A. Era hora de mudar de ares...

Quaresma foi emprestado ao Chelsea, mas também pouco jogou, apesar de ter feito parte do grupo que conquistou a FA Cup de 2008/09. Retornou depois e seguiu encostado na Inter, tendo jogado muito pouco na equipe que faturou a Tríplice Coroa com Mourinho: Uefa Champions League, Campeonato Italiano e Copa da Itália.

No Besiktas, vexame e redenção

Depois disso, Ricardo foi para o Besiktas, da Turquia. Na equipe alvinegra, teve grandes momentos, como a conquista da Copa da Turquia de 2010/11.

"Foi bom para mim ter um cara como ele jogando pelas pontas e cruzando. Eu fiz muitos gols assim. É curioso porque às vezes quando ele batia na bola de chapa não conseguia cruzar e nem fazer gol, mas quando ele dá uma trivela, que é o que é o ponto forte dele, conseguia fazer até com facilidade", disse Bobô, que jogou com o português no Besiktas.

E se engana quem pensa que Quaresma gasta horas do seu dia praticando sua jogada mais característica. "É uma coisa natural dele. Eu nunca vi ele treinar especificamente isso", contou o centroavante.

Além das boas atuações, o jogador também se envolveu em algumas brigas. Em abril de 2011, por exemplo, brigou feio com o atacante Nihat, que lhe acusou de ser "fominha". Eles quase chegaram às vias de fato, mas por sorte a "turma do deixa disso" chegou antes para apartar.

Já em março de 2012, depois de uma derrota para o Atlético de Madri, na Liga Europa, em que Quaresma foi substituído pelo técnico Carlos Carvalhal, também português, o meia-atacante atirou garrafas d'água no vestiário e discutiu rispidamente com o treinador, dizendo que o comandante "não era nada". Ricardo acabou suspenso e liberado pelo Besiktas seis meses antes do fim de seu contrato, indo para o Al Ahli.

Em seguida, teve ainda um breve retorno ao Porto, na temporada 2014/15, e, numa daquelas histórias que só o futebol explica, retornou ao Besiktas, de onde tinha saído pela porta dos fundos, em 2015/16. Desta vez, porém, jogou mais bola do que brigou e foi o grande destaque da conquistas do Campeonato Turco nas temporada 2015/16 e 2016/2017.

Ao mesmo tempo, voltou a se firmar na seleção e foi aos poucos ganhando seu espaço com o técnico Fernando Santos. Foi fundamental na conquista da Eurocopa de 2016 e nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018.