TENHO QUASE 40 anos, já morei em dois países e várias cidades... e nunca bati em ninguém, estando trabalhando ou desempregado, feliz ou infeliz, bêbado ou sóbrio.
E você, já bateu em alguém?
Vova dá risada. Claro que ele já bateu em alguém. Vova mora em Moscou, na periferia da capital russa. Ele conta que há anos se mete em brigas e que adora isso, é parte de sua própria identidade. Para ele, sou quase um alienígena, já que no seu entendimento um homem de verdade precisa ter cicatrizes.
Vova tem 19 anos.
Sua vida é cômoda sob todos os aspectos. A mãe dele é comissária de bordo, seu quarto no apartamento da família tem várias fotos e pôsteres dos lugares por onde ele já esteve. Ele estuda design gráfico e adora surfar. Vova também gosta de poesia (ele admira Pushkin e Yesenin, que escreveu sobre os hooligans do começo do século 20, entre outras coisas). Ele gosta de literatura e seu escritor favorito é o famoso romancista alemão Erich Maria Remarque. Uma tarde durante um café, conversamos sobre qual livro era melhor, Uma noite em Lisboa ou Nada de novo no front. (Uma noite em Lisboa é o livro que ele mais gosta.)
Apesar disso, Vova tem uma rotina bastante incomum durante as tardes ou finais de semana. Ele se diz membro de um grupo de hooligans conhecido como IX Legion, uma torcida organizada do Dinamo Moscow que vive em conflito com torcidas de outras equipes. Essas lutas quase sempre acontecem fora da cidade, longe dos olhos da polícia (ou de qualquer outra pessoa, na verdade). São brigas de rua, sem regulamentos ou árbitros, e embora geralmente não seja considerado de bom tom matar alguém em uma dessas lutas, todo o resto é liberado.
Para Vova, isso é a glória. É algo mágico. Vova acha que não brigar é algo inconcebível, mesmo sabendo que o governo russo está fazendo de tudo para que a próxima Copa do Mundo seja segura e tranquila.
Uma noite no centro da cidade, pergunto a Vova como ele se comporta quando está brigando. Vova é inteligente e sincero; tem cara de menino ainda, com olhos finos e o nariz pequeno. Ele quase não tem barriga e suas pernas são finas; seu aspecto é o de um maratonista. “Em uma briga tudo é diferente”, diz ele. “Isso requer raiva, ódio ou algo assim.”
Com sua voz suave, riso inocente e um tique nervoso que faz seu ombro tremer quando ouve uma pergunta complicada, é difícil ver raiva em Vova. Também é difícil ver ódio nele. Mas para Vova a raiva é parte de sua personalidade, assim como a poesia ou os livros em sua mochila.
A briga, diz ele, é uma válvula de escape para sua raiva, onde ele mergulha em algo que “fortalece seu psicológico”.
Eu o interrompo. Como isso pode dar força psicológica?
Ele não hesita na resposta. “Quando você vê pessoas vindo em sua direção”, ele diz, “várias pessoas e elas não estão para brincadeira, querem te machucar... sua primeira reação seria fugir, mas você não foge.”
Ele sorri. “Você vai pra cima delas.”
A COPA DO MUNDO começa nesta quinta-feira, dia 14 de junho na Rússia. Espera-se cerca de 2 milhões de turistas durante o torneio e há muitas coisas que geram preocupação: atos abomináveis de racismo de torcedores russos, por exemplo, bem como as leis draconianas contra a “propaganda gay”, a intolerância do governo em relação àqueles com opiniões divergentes, ataques terroristas em potencial e - talvez aquilo que será mais visível - a pesada violência nas ruas.
Grande parte dessa última preocupação vem do que aconteceu na França há dois anos. Durante a Eurocopa, Rússia e Inglaterra se enfrentaram em um jogo em Marselha. Centenas de russos inflamados pela presença de alguns britânicos bêbados e briguentos, além do conhecimento de história (a Inglaterra foi o berço do hooliganismo), destruíram cafés e vitrines enquanto atacavam todas as pessoas que pareciam ser ingleses.
Os ataques continuaram nas arquibancadas, levando à punição da Federação Russa pelos organizadores do torneio. Torcedores russos foram, em alguns casos, presos ou deportados. Vídeos da carnificina se tornaram virais e em poucos dias os organizadores da Copa do Mundo e as autoridades russas começaram uma campanha para garantir a todos que nada disso aconteceria novamente.
A Rússia vai “garantir segurança máxima para jogadores e torcedores”, disse o presidente Vladimir Putin em discurso à polícia russa neste inverno, antes de dizer aos policiais que “a organização desse evento e a imagem de nosso país dependerá diretamente do trabalho de vocês.”
Vamos aos fatos: esse trabalho não vai se restringir aos detectores de metais e pontos de verificação em dias de jogos. As autoridades russas certamente sabem que precisam fazer o que for necessário para evitar a repetição das horrendas cenas de Marselha durante o torneio, mas o governo também passou os últimos dois anos fazendo o possível para negar (ou pelo menos esconder até depois da Copa) essa crescente onda de hooliganismo protagonizada por jovens violentos - como Vova - que se envolvem em brigas de rua cruéis por diversão.
Embora parte da preocupação das autoridades russas tenha a ver com a reputação do país, outra parte também tem a ver com a imprevisibilidade inerente dos hooligans e seus caprichos.
Haverá problemas durante a Copa? Autoridades russas afirmaram várias vezes que não esperam nenhum problema. Mas ninguém pode ter 100% de certeza, incluindo os próprios hooligans. “Isso não vai acontecer na Rússia por que nossa polícia funciona muito melhor” do que na França, diz Vlad, que é amigo de Vova e também membro da legião. Vlad parece ter certeza do que diz. Mas depois ele reconsidera e diz: “Talvez alguns pequenos conflitos ocorram”. Passados alguns instantes, ele muda de opinião novamente e diz: “Pequenos conflitos vão ocorrer com certeza, mas não serão provocados pelos russos.”
A opinião de Vlad é comum entre os hooligans. O mesmo se aplica ao zelo por sua privacidade: ele não diz que é um hooligan para quase ninguém por que “não é uma coisa social; é algo pessoal”. Como Vova, ele não quer ver seu nome completo revelado por que “o clima está tenso” entre os hooligans e a polícia. Vlad diz que a repressão das autoridades no ano passado foi intensa.
Amigos seus foram detidos e interrogados. Alguns hooligans tiveram os apartamentos revistados. As grandes lutas, tão apreciadas pelos hooligans, ficaram difíceis de organizar.
“Quando você chega em casa com um olho roxo ou algo do tipo”, pergunto a Vlad, “o que conta para sua família?” Fico tentando imaginar que tipo de histórias Vlad deve inventar, já que seu rosto tem mais marcas do que a superfície lunar.
Mas isso não é um grande problema para ele.
“Ninguém presta muita atenção nisso”, diz Vlad, explicando que na Rússia brigar é quase uma obrigação para os garotos. “Quando um cara entra em uma briga ninguém liga. Afinal, eu sou um homem, não uma moça”. Ele faz um gesto como quem quer reafirmar seu argumento. “Você pode ser como uma garota”, diz, “ou pode ser um homem que luta sempre e sabe se defender. A escolha é sua.”
ANTON BRIGA em qualquer lugar. Ele é segurança, treinador de boxe e instrutor em uma academia de St. Petersburg especializada em treinar hooligans. Anton ama lutar e adora falar sobre o assunto.
A língua russa tem várias gírias relacionadas aos hooligans, diz Anton, explicando também que as lutas acontecem durante o “terceiro tempo”, como se fizesse referência a uma continuação da partida de futebol fora de campo. Uma pessoa que é otmorozok tem o sangue frio de um psicopata (a expressão deriva da palavra “congelamento” em russo). Otpizdil é um termo que significa espancar alguém até a pessoa ficar irreconhecível e inclui uma referência depreciativa à anatomia feminina. Uma solyanka – que na vida normal é uma sopa tradicional russa, espessa e doce – significa uma briga de grandes proporções (grupos de 50 pessoas) na qual a confusão de braços, pernas e punhos lembra um ensopado humano. Anton adora uma boa solyanka.
Anton é membro dos Rude Boys, um grupo de torcedores da equipe mais antiga da Rússia, o CSKA Moscow. Anton é um brigão típico: quando tinha 11 anos, ele estava voltando para casa após um jogo entre o Zenit St. Petersburg e o CSKA junto com uma turma de amigos do bairro. De repente, um grupo de torcedores do Zenit saiu de um trem que passava por perto e atacou o grupo de Anton, espancando os mais velhos, mas deixando Anton e outro menino mais novo fora da carnificina. Anton ainda se lembra dos gritos de seus amigos.
Agora ele está com 20 anos. Com quase 1,80m, ele é forte e corpulento como um touro. Seu rosto, no entanto, é liso e suave e tem covinhas infantis. Seu apelido é Antosha - que significa pequeno Anton - por causa de suas feições angelicais, embora sua orelha esquerda esteja com a cartilagem retorcida e cheia de cicatrizes que se parece com massinha de modelar ressecada.
Quando caminha, Anton quase sempre vai com os punhos fechados.
“Já participei de quase 60 lutas”, diz ele certa noite durante o jantar, mostrando vídeos de seus combates - uma solyanka no dia de seu aniversário é o favorito. Quando a coisa fica feia - alguém na tela aparece gritando “Levanta, FDP*!”, em russo - Anton abaixa o som para não perturbar as mesas próximas.
A grande maioria das lutas é organizada por líderes que mandam mensagens ou ligam para avisar sobre o horário e o local. As florestas são os locais preferidos para as lutas, embora áreas industriais vazias e bosques atrás de condomínios sejam aceitos também. O número de lutadores que cada equipe leva é negociado e pode variar entre 5 e 100. Na hora marcada, os grupos se aproximam e atacam após um sinal.
Essa é a parte que as autoridades russas não querem que apareça, pois o caos é assustador e imediato. Os grupos formam duas (ou mais) linhas e os lutadores na linha de frente geralmente começam a briga com uma voadora, antes que a massa de corpos fique tão espremida que é difícil ver algo.
Há alguma estratégia para decidir quem fica em qual linha - certos grupos colocam seus lutadores mais fortes na frente, por exemplo. Embora a maioria dos lutadores prefira buscar o adversário que está bem na frente deles, Anton diz que gosta mais de aproveitar a vantagem da surpresa atacando primeiro o oponente que está ao lado, o que ajuda a aumentar ainda mais a confusão.
A única regra importante - e que é tipicamente russa - é que armas não são permitidas; os hooligans de outros países da Europa costumam usar soco inglês ou facas, mas os russos só lutam com as mãos. Chutes na cabeça, na cara e joelhadas são comuns.
Na maioria das vezes, diz Anton, os lutadores estão no meio de uma confusão tão grande que acabam confiando apenas no instinto. “Você só sabe que se não acertar alguém, vão acabar pegando você”, diz ele, explicando que a briga só termina quando um grupo está de pé e o outro não.
Lesões são esperadas e frequentemente são motivo de orgulho. “Eu vi um cara que teve o nariz quebrado - na verdade não foi só o nariz dele”, diz Anton. “Ele bateu a cabeça no meio-fio e quebrou todo o rosto”. Nota-se admiração na voz de Anton. “Os médicos colocaram um suporte de titânio e plástico embaixo do olho dele.”
Para os lutadores iniciantes, o objetivo é conseguir uma camiseta. Os líderes do grupo distribuem camisetas para os membros mais novos como um troféu após o ritual de iniciação. Uma vez dentro do grupo, o vínculo entre os membros é essencialmente familiar. “Você não está lutando sozinho”, diz Anton. “É uma luta coletiva.”
A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR: por que alguém faria isso? Há muitos esportes que envolvem contato, esforço físico, agilidade e destreza (mas não cirurgia plástica), então por que fazer isso? Por que lutar?
Arnie, diretor da academia onde Anton é professor e lendário hooligan de um grupo conhecido como Music Hall, acha que essa pergunta é idiota. Ele acredita que a maior atração é obviamente a possibilidade de superar outro homem e vencer o medo de ser ferido.
“Em qualquer cultura”, diz Arnie em um tom professoral, “a luta ajuda a selecionar os membros mais fortes de um grupo.”
Isso é o que me preocupa. O mais perto que cheguei de uma briga foi quando tinha 14 anos. Aconteceu durante um jogo de futebol, meu amigo Artie ficava me empurrando e acertava minha costela a cada jogada. Finalmente, depois de muita provocação, dei um tapa na mão de Artie. Ele me empurrou. Nós começamos a brigar e por uma fração de segundo eu tive ele ao alcance dos meus punhos, minha mão esquerda segurava sua camiseta e a outra mão estava livre. A única coisa que faltou foi mover o braço.
Mas eu não fiz isso. Soltei a mão, agarrei sua camiseta pelo outro lado e nós rolamos um pouco mais até que os outros apareceram para separar. E foi isso. Na época não pareceu uma experiência importante, mas depois fiquei imaginando por que não consegui dar o soco. Ficava me perguntando o que havia faltado. A maioria dos hooligans parece pensar que me falta algo.
Vova acredita que a luta é necessária para lidar com a raiva que surge das inevitáveis frustrações e decepções cotidianas. Para ele, “lutar dessa forma é melhor que brigar na rua com os transeuntes.”
Essa ideia da luta como forma de aliviar a tensão cotidiana é uma das razões que a maioria dos hooligans alega para justificar sua popularidade. A outra é a importância das lutas na cultura russa. Os hooligans logo começam a falar das “velhas brigas de vizinhos” que havia na Rússia, conhecidas como stenka na stenku ou muro contra muro. Lutas em massa entre cidades vizinhas duravam horas e envolviam desde crianças até boxeadores experientes. Alguns historiadores dizem que essas lutas vêm desde o século 11.
As origens das lutas modernas são menos claras. Parece que o hooliganismo começou de forma modesta na União Soviética na década de 70, cresceu substancialmente nos anos 80, durante a perestroika de Mikhail Gorbachev, e decolou nos anos 90 depois que a União Soviética entrou em colapso. A violência e o crime eram terríveis em todo o país, criando uma atmosfera de conflito permanente, especialmente para os homens.
No começo do hooliganismo na Rússia, os hooligans ingleses – incensados em um filme de 2005 chamado justamente Hooligans, muito famoso na Rússia – inspirou quase tudo, como roupas, músicas, bebidas e brigas.
Agora a coisa mudou. Ruslan tem 20 e poucos anos e é membro de um grupo de hooligans conhecido como Red-Blue Warriors. Ele diz acreditar que é parte da terceira geração de hooligans russos. A primeira leva foi de “caras que gostavam de beber e lutavam de forma caótica”, especialmente dentro e em volta dos estádios. A segunda foi um grupo de “caras que perceberam que algo estava errado e que era preciso mudar”. Nascida na Rússia de Putin, a terceira geração, a qual pertence Ruslan, cresceu com as artes marciais mistas, cultivando um estilo de vida mais saudável e atlético. As brigas são promovidas por uma espécie de clubes de luta. Muitos hooligans, incluindo Ruslan, aprenderam a brigar na rua antes de se tornarem lutadores de MMA. Ruslan já participou de lutas de MMA contra um adversário que ele conhecia das brigas de rua.
Essa mudança geracional deixou o hooliganismo em uma posição estranha na Rússia: Putin também adora judô e as artes marciais em geral, mas sua administração tentou conter a ascensão das brigas de rua. Embora os grupos de hooligans frequentemente sejam vistos como uma espécie de soldados de Putin, muitos com quem converso dizem que na verdade não gostam de Putin, por que ele se preocupa muito com a reputação global da Rússia e não com o que está acontecendo dentro do país. “Ele é banana”, diz um lutador.
Banana é a última coisa que um homem russo quer ser, até por que a popularidade das lutas de rua cresce tanto na cultura do país que até mesmo crianças e adolescentes estão se envolvendo.
Até onde vai isso? Uma noite, andando com a turma de Anton, conheci um garoto de 16 anos que se apresentou como Bulldog. Bulldog é baixo, magricela e tem cara de bebê, mas diz que ganhou o apelido depois que “partiu para a porrada” e “espancou um cara” . Seus amigos então disseram a ele, “C , você é um bulldog”. Quando conversamos alguns dias depois, perto de seu apartamento, ele me disse com notável ansiedade que poderia bater em uma pessoa na rua sem motivo algum se eu quisesse.
Bulldog acredita que já é um hooligan calejado. Mas algo não se encaixa. Quando pergunto a ele em quantas lutas esteve envolvido ou o nome do seu grupo, Bulldog responde de forma vaga e evasiva. Ele diz que esteve em Marselha e ajudou a espancar os ingleses porque “tinham um jeito escroto”, mas não tem fotos suas na França naquela época para provar o que diz. Suas fotos em redes sociais mostram o garoto em outros lugares naquele período.
Também há o problema dos vídeos. A maioria dos vídeos de luta que Vlad, Vova ou Anton compartilha dura vários minutos - a fórmula da filmagem parece incluir a chegada, os dois grupos batendo um no outro e vários ângulos de ação subsequentes, de modo a incluir pelo menos alguns golpes na cabeça. Os poucos vídeos de Bulldog duram cerca de 10 segundos apenas e mostram somente algumas sequências violentas ao som de heavy metal.
À primeira vista, os vídeos parecem toscamente editados de melhores momentos, o equivalente a um currículo em vídeo de um hooligan; no entanto, depois de ver algumas vezes com atenção e perceber a falta de técnica, o ambiente incomum ou a forma como as sequências de luta são dramatizadas, é possível fazer outra interpretação.
São homenagens.
Não chega a ser algo surpreendente. Afinal de contas, existe até um site (fanstyle.ru) dedicado à cobertura das lutas de hooligans. Há milhares de vídeos de luta na Internet. Na versão russa do Facebook, há fóruns de debate onde fotos de lesões de lutas são postadas e analisadas nos comentários. Em 2013, um longa metragem russo chamado Okolofutbola, que exaltava o novo estilo de vida dos hooligans (e até usou atores que eram hooligans de verdade), foi um enorme sucesso na Rússia.
Tudo isso gerou mais do que apenas o crescente número de lutas e lutadores desse movimento; há também um número cada vez maior de garotos, como Bulldog, que querem fazer aquilo que veem no computador. Muitas dessas conversas sobre ferimentos nas mídias sociais se transformam em debates sobre se as pessoas que postaram as fotos realmente sofreram seus ferimentos em uma briga real ou se simplesmente cortaram a própria testa com uma lâmina para fazer parecer que estavam brigando.
Bulldog é um hooligan de verdade? Será que ele já deu um soco em alguém? Eu não tenho certeza, mas sempre me lembro daquele momento no primeiro dia com ele, quando lhe perguntei qual era seu objetivo e ele me respondeu três coisas.
“Meu objetivo é ser mais forte”, disse ele. “Ser maior. Ser mais legal”.
Ser mais legal.
É ISSO QUE, SUPONHO eu, deixa as autoridades russas tão preocupadas com o novo movimento hooligan às portas da Copa do Mundo. Os hooligans russos dizem que não querem lutar contra torcedores comuns, é claro. Dizem que só querem brigar com outros hooligans (a menos que você seja inglês, nesse caso eles podem querer lutar com você só porque acham que todo inglês é hooligan também). Os torcedores comuns da Copa do Mundo não precisam se preocupar com grupos como o Rude Boys, o Legion ou o RB Warriors.
Mas não há garantia de nada. Estamos lidando com lutas clandestinas na Rússia, portanto sempre há uma imprevisibilidade inerente. E esse movimento em particular tem grande parte dessa imprevisibilidade em suas margens, entre aqueles que estão esperando lá fora desesperados para entrar.
“Você acha que haverá problemas na Copa do Mundo?” Pergunto a Arnie durante um café em um bar perto de sua academia. Ele mostra dúvida. “Eu diria que não”, diz ele, “mas sempre há coisas que são surpreendentes. Só Deus sabe. O que vai acontecer?”
Seu palpite é que o perigo pode vir de hooligans sem grupo ou de grupos dissidentes que querem fazer fama. Imediatamente me lembro de quando Bulldog se ofereceu para espancar aquele homem na rua.
Igor Lebedev, um dos principais políticos russos e que também faz parte do comitê executivo da Federação Russa de Futebol, acredita que a tentativa do governo de reprimir as lutas pode ser contraproducente (e inútil). Ele acredita que seria melhor se o governo regulasse e organizasse as lutas, transformando tudo em um esporte real.
Tive uma conversa com Lebedev em seu escritório perto da Praça Vermelha, em Moscou, e ele pareceu magoado quando me mostrei cético quanto a suas ideias. “É difícil entender”, comecei, tentando escolher as palavras com cuidado, “por que você acha que seria uma boa ideia.”
Ele diz que as lutas, socos e brigas são inevitáveis. Algo cultural. Segundo ele, isso seria algo padrão em um país onde os invernos são longos e escuros. “Nós precisamos entender”, diz ele, “que existem coisas na vida das quais não podemos escapar.”
Essa palavra - escapar - me faz refletir. Eu não bati em Artie 25 anos atrás e sempre me perguntei como minha vida teria sido se tivesse batido. Bulldog fala como se tivesse as mãos cheias de sangue. Vlad, Vova, Ruslan e Anton sonham em bater nas pessoas. Quem foi mesmo que conseguiu escapar?
Uma noite encontrei em Moscou um hooligan chamado Kostya. Fazia muito frio, por isso conversamos na escadaria úmida e escura (mas menos congelante que a rua) do prédio de seu amigo. Kostya adora lutar e ostenta com orgulho as cicatrizes em suas mãos. Ele fala sobre o espírito guerreiro que leva os homens a lutar e zomba dos hooligans mais jovens, que gostam de postar seus vídeos de luta na Internet. Ele gargalha.
Então escuta, com paciência e gentileza, quando digo a ele que mesmo após passar todo esse tempo com hooligans e aprender sobre o que eles fazem e como fazem isso, ainda não entendo sua motivação.
Eu pergunto: “Você pode explicar por que luta?”
“Por diversão”, ele responde.
“Isso é divertido?”
Kostya sorri. “Claro.”
Eu faço um movimento nervoso com os pés. Fico paralisado, tentando evitar ofender esse hooligan tão simpático com minha confissão ridícula. Kostya deixa o silêncio aumentar. Por fim, eu confesso - “nunca bati em ninguém na minha vida” - e olho para o chão.
Já contei isso a outras pessoas, claro, e fico aguardando o risinho ou a gargalhada. Mas Kostya não é como Vlad, Vova, Anton ou Ruslan. Ele não trata isso como uma piada ou algum tipo de falha de caráter. Sua reação é balançar a cabeça e pensar seriamente sobre essa realidade bizarra, imaginando como poderia ser. Ele fica em silêncio por alguns instantes.
Então ele espera eu levantar a cabeça e olha para mim, com o rosto ligeiramente voltado para o lado. Ele corrige a postura. Sua mirada é firme, mas seus olhos são suaves.
“Você devia tentar.”
