O meia peruano Christian Cueva, 26, esteve em campo contra o Rosario Central por 35 minutos, no estádio do Morumbi, na noite da última quarta-feira, quando foi expulso antes do apito final no jogo pela Copa Sul-Americana. E podem ter sido os últimos dele com a camisa do São Paulo.
Oficialmente ninguém do departamento de futebol diz isso. Apenas admitem que até o início da Copa do Mundo ele não deve mais jogar pelo clube.
Um primeiro motivo é que Cueva solicitou a liberação para não estar em campo contra o Bahia, em Salvador, neste domingo, pelo Campeonato Brasileiro. Justificou o pedido de dispensa porque a previsão é de que o filho dele nasça no sábado e ele deseja estar ao lado da esposa, no Peru.
A diretoria achou o pedido bastante razoável e atendeu.
"Ele vem alegando desde a semana passada que está preocupado com a esposa grávida e depois ele alegou que poderia adiantar o parto. Obviamente queremos todo mundo com a cabeça no São Paulo. Tentamos mostrar a importância dele para o grupo, mas ele está preocupado com a esposa. Estava previsto para a semana que vem, mas ele vai viajar agora", disse Raí, diretor executivo de futebol do São Paulo, na noite de quarta-feira.
Um segundo motivo é que a delegação do Peru consultou o São Paulo se há possibilidade de o clube liberar o meia para a seleção peruana antes da data oficial, que é 21 de maio. O time tricolor terá um jogo importante no dia 20 contra o Santos, mas está disposto a ceder.
"Acho difícil que ele volte para enfrentar o Santos. Até porque a Federação Peruana está pedindo que os jogadores que consigam se apresentem antes do dia 21, quando começam os treinos para a Copa do Mundo", explicou Raí.
Na mesma entrevista, o dirigente foi questionado se tudo isso pode significar que os 35 minutos contra o Rosario Central foram os últimos de Cueva no São Paulo. Ele negou, lembrou que o jogador tem contrato longo --até junho de 2021-- e portanto não há essa preocupação.
Contudo, não é bem assim que a situação é vista dentro do clube.
DESGASTE E FALTA DE COMPETITIVIDADE
Cueva tornou-se um problema desde antes de Raí, Ricardo Rocha e Diego Lugano assumirem como dirigentes. Casos que sugerem insubordinação, privilégios, falta de comprometimento entre outros, começaram a ser registrados a partir de 2017.
No primeiro semestre do ano passado, ele se negou a viajar com a delegação para Santos quando soube que ficaria no banco de reservas. A decisão havia sido comunicada a ele por Pintado, que era naquele momento o técnico do São Paulo (mesmo que interinamente). Além de se rebelar, o peruano fez duras criticas ao treinador para a direção do futebol, encabeçada então por Vinícius Pinotti, e à presidência de Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco.
Pintado acabou demitido pouco tempo depois.
Já no final do ano ele se apresentou com um atraso bem considerável antes do duelo contra o Botafogo. Era esperado na concentração na manhã do sábado, mas chegou ao CT da Barra Funda na madrugada de domingo. A justificativa foi ter participado da classificação do Peru para a Copa, algo que não ocorria há 36 anos.
Foi multado, mas também relacionado para a partida e até entrou no segundo tempo.
No início de 2018, mais um ato de insubordinação. Atrasou seis dias em relação a data marcada para o início da pré-temporada do São Paulo. Alegou compromissos publicitários no Peru. Raí, que foi contratado em dezembro do ano passado, não deixou barato e aplicou nova multa.
Ainda em janeiro, criou novo problema ao se recusar a viajar para Mirassol uma vez que ficaria no banco de reservas. Alegou que tinha recebido uma proposta e queria estudá-la. De fato, o Al-Hilal, da Arábia Saudita, apareceu, mas a oferta estava bem abaixo do que o São Paulo deseja e foi recusada.
A punição dessa vez foi mais severa. Além de receber nova multa, ele ficou afastado dos três jogos seguintes. Depois voltou e reassumiu a vaga de titular. Vale lembrar que o técnico ainda era Dorival Júnior, que tinha bom relacionamento com o peruano.
Diego Aguirre chegou na segunda quinzena de março para ser o treinador do São Paulo. Logo de cara deu chance para Cueva ser titular e não gostou do desempenho do peruano. Na sequência, perdeu o meia para a seleção do Peru. Depois disso o treinador deu preferência para outros jogadores.
Cueva só voltou a ser titular com Aguirre diante do Paraná e o Ceará, ambos jogos do Brasileiro em que o São Paulo usou mais reservas do que titulares.
E a dependência do clube em relação ao peruano diminuiu bastante. Nas duas últimas edições do Nacional, o São Paulo fez campanha de quem briga por vaga na Libertadores quando Cueva esteve em campo. Sem ele, contudo, a vida do São Paulo foi bem complicada e a campanha foi de rebaixado.
Hoje, não há mais esse efeito. Ele virou reserva e mesmo quando entra e participa dos gols --como fez contra o Atlético-MG, no sábado anterior-- a presença dele não é tão significativa para os resultados do time. Nem mesmo a torcida grita pelo nome dele.
FALTA DE COMPETITIVIDADE
Além disso, a diretoria entende que Cueva tornou-se um problema também por algo mais subjetivo, difícil de ser visualizado, mas interfere diretamente na mentalidade da equipe. Como se as atitudes dele oferecessem resistência a busca pela construção de uma mentalidade vitoriosa.
O entendimento é que negociá-lo após a Copa do Mundo, quando abrirá a janela de transferências dos principais mercados da bola, será benéfico financeiramente e também coletivamente, abrindo espaço para jogadores mais competitivos no São Paulo.
Muitos diretores se incomodam por não sentir isso em Cueva nem ver mais nele um jogador com sede pra vencer. A expulsão dele nos minutos finais por destempero, mesmo Diego Lugano ter dito horas antes no vestiário para que se tomasse cuidado, tratou de reforçar esse pensamento.
Aliás, esses até torcem para que os 35 minutos da última quarta-feira tenham mesmo sido os últimos do peruano pelo São Paulo.
