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Lado B da Copa: Spartak Moscou, o time do povo que encarou e resistiu ao autoritarismo na URSS

Lado B da Copa: Spartak Moscou, o time do povo que virou símbolo de resistência política Arte ESPN

No dia 15 de julho de 2018, o planeta estará em festa. Mais especificamente, milhões de pessoas estarão celebrando a maior conquista do futebol: a taça da Copa do Mundo. Mas, independentemente de qual idioma gritar “É campeão!”, o estádio Luzhniki, sede da abertura e da final do Mundial da Rússia, estará pulsando como o coração dos vencedores para relembrar sua história.

O quanto um estádio pode fazer parte da história de um time? Como as manifestações dos torcedores ultrapassam as quatro linhas e a arquibancada se torna um espaço para manifestações políticas?

Você pode assistir a reportagem na íntegra no WatchESPN.

Bem, no caso do Spartak Moscou, isso está enraizado no clube. Em tempos duros de controle e de repressão de uma ditadura, o estádio funcionava como lugar seguro de manifestação para aqueles que, mesmo secretamente, discordavam do regime totalitário em vigor na extinta União Soviética.

Voltemos aos anos 1920. A Praça Vermelha de Moscou se transformou em campo de futebol. A modalidade esportiva começava, ali, a se popularizar na União Soviética. Do alto de um camarote, Josef Stalin, líder político do regime, acompanhava atentamente a rivalidade da partida entre Spartak Moscou e Dínamo de Moscou. O time do povo contra o time da polícia.

A popularização do futebol na URSS não se deu à toa. Stalin sabia muito bem do potencial social e político do esporte, e se aproveitou dele para fortalecer símbolos e identidade nacional, mais uma vez como afirmação de seu poder. Não à toa, na União Soviética, todos os times de futebol possuíam algum vínculo com o Estado - seja com o exército, com a polícia ou com empresas estatais. Todos, exceto um: o Spartak Moscou. Time de civis, homens simples, trabalhadores ligados ao comércio, e que rivalizava - dentro e fora das quatro linhas - com as equipes ligadas ao regime.

O Spartak Moscou surgiu em 1922, mas não da maneira como é hoje. Em seus primeiros 13 anos de existência, era conhecido por Krasnaya Presnya, distrito onde foi fundado por Nikolai Starostin, um de quatro irmãos envolvidos com o esporte. Apenas em 1935, o clube passou a ser chamado de Spartak, como uma referência ao escravo gladiador Spartacus, que liderou uma rebelião contra Roma. Na frente da Arena Otkrytie há uma estátua de um espartano que representa, para os torcedores, um símbolo, ideais de luta. Tanto que seu escudo está desgastado de propósito. E está em pé em cima de uma bola, cuja aparência foi projetada para parecer sucata, remetendo ao passado industrial da Rússia.

O professor e historiador esportivo Bob Edelman, autor do artigo ‘Uma pequena maneira de dizer não’ e do livro homônimo ao Spartak, deu um panorama ao ESPN.com.br sobre o futebol naquele período. Segundo Edelman, por não ser ligado a nenhuma instituição, o time representava um “perigo histórico e político para os times que chamamos de ‘estruturas de força’, como os da polícia e do exército”. Por isso, tratando-se do Spartak, a rivalidade não se restringia aos 90 minutos de jogo. As arquibancadas dos estádios eram muito mais do que espaços de torcida. Eram um local de resistência, de liberdade e de manifestação.

Edelman conta ainda que os estádios, nos anos 30 e 40, eram alguns dos únicos lugares onde se tinha a oportunidade de gritar “Abaixo os policiais!” ou até mesmo “Matem a polícia!” sem ser preso. Segundo ele, os próprios gritos de incentivo ao time de Nikolai Starostin e de vaia aos demais times já representavam, indiretamente, uma forma de resistência ao regime.

Torcer pelo Spartak era se opor a Stalin. Os jogadores do time, como conta o professor, “eram parte de uma organização civil que se tornou um símbolo. Uma classe ordinária de trabalhadores que, por ameaças das autoridades, não podiam usar camisetas e símbolos do seu time no dia a dia, mas que se expressavam em conversas com amigos. Muitos grupos de pessoas se encontravam em frente ao estádio quando não havia jogo e falavam sobre futebol.”

Mas, naquelas circunstâncias, os ânimos dos civis muitas vezes não se continham, relembra o professor: "A política inevitavelmente era um assunto que surgia, mas era preciso tomar cuidado, pois tudo era observado de perto pela polícia secreta e era preciso ter cuidado ao expressar preferências de um jeito ou de outro".

O Spartak Moscou não era abertamente oposto a Stalin e seus atos, nem apoiador de Trotsky e se declarava fiel à União Soviética. Mesmo assim, a equipe se deparou com muitos obstáculos na construção da sua história. “Tiveram problemas por muitas coisas. Dentre elas, por serem melhores que o Dínamo”, diz Edelman.

Josef Stalin (1878-1953) - Líder do partido comunista na União Soviética, conhecido pelo governo ditatorial e punitivo aos seus opositores, responsável pela prisão e morte de milhões de pessoas. Estabeleceu a União Soviética como uma superpotência. Durante a guerra, combateu a Alemanha nazista e, no pós-guerra, foi personagem principal na Guerra Fria, que polarizou o mundo entre capitalistas (liderados pelos EUA) e comunistas (URSS).

Leon Trotsky (1879-1940) - Líder ideológico dos Bolcheviques na Revolução Russa em 1917 e forte concorrente à sucessão no poder após a morte de Lenin, foi um dos maiores opositores de Stalin e seus ideais. Foi reprimido, proibido de falar em público e assassinado a mando do ditador em seu exílio no México.

A liga profissional da União Soviética foi formada em 1936, e logo de cara o Dínamo, que tinha como presidente Lavrenti Beria - chefe da NKVD, a polícia secreta soviética -, despontou. Esse fato acirrou a rivalidade do time com o Spartak, pois a polícia era a principal representação da opressão do Estado sobre o povo, que por sua vez a odiava. A equipe de Starostin, porém, não ficava para trás nos gramados.

“O Spartak pode ter provocado um antagonismo de classes, mas era popular por uma razão muito mais convencional: o time era bom”, como diz Edelman em trecho do artigo “Uma pequena maneira de dizer não”.

Quando a torcida gritou “é campeão” duas vezes

Um dos episódios mais famosos envolvendo obstáculos impostos pelo poderio dos times grandes ao Spartak ocorreu na Copa Soviética de 1939. O time venceu o Dínamo na semifinal com um gol polêmico e sagrou-se campeão na final contra o Leningrad Stalinets. Mas Beria não aceitaria a vitória do rival tão fácil. Ordens do governo anularam a decisão e obrigaram o clube a enfrentar o Dínamo novamente. E mais uma vez Starostin superou o rival: 3 a 2 Spartak.

No entanto, assim como os gritos da torcida, a perseguição do regime ao time do povo não se limitava aos gramados. Em 1942, Starostin e seus irmãos foram presos, acusados de impor costumes burgueses ao esporte soviético, além de tramar o assassinato de Josef Stalin. Após dois anos de julgamentos, apesar de inocentados das acusações, os irmãos foram condenados a dez anos de exílio nos Gulags da Sibéria, campos de trabalho forçado criados pelo governo, onde, curiosamente, receberam tratamento privilegiado, por conta do amor dos guardas pelo futebol.

Em março de 1953, Stalin morreu, e Lavrenti Beria foi executado meses depois. A sentença dos irmãos Starostin foi revogada e, assim, eles retornaram a Moscou. Nikolai Starostin foi nomeado técnico da Equipe Nacional Soviética, e em 1955 retornou como presidente do clube, função na qual se manteve até 1992.

Vitorioso dentro e fora do campo

Na história do Campeonato Soviético, o Spartak Moscou de Starostin conquistou o título 12 vezes, uma a mais que o seu grande rival Dínamo. Com o fim da URSS, o Dínamo de Moscou não conseguiu manter sua soberania, e não conquistou nenhum título de expressão depois disso. O Spartak, por sua vez, ainda é o maior campeão russo, com 10 títulos conquistados, seguido pelo CSKA, com 6.

Toda a vivacidade e euforia da torcida não ficaram apenas na história. Até hoje os fiéis torcedores lotam os estádios e fazem lindas festas na Arena Otkrytie, estádio da equipe construído em 2014. E os brasileiros não estão de fora disso.

O jovem atacante brasileiro Pedro Rocha, do Spartak, conta como foi sua primeira impressão: “Eu fiquei impressionado, né? Logo que cheguei, três dias depois, estava jogando. Na minha estreia fiquei muito impressionado, porque é uma torcida que vibra bastante, canta o tempo todo, são muito fanáticos mesmo. E aqui eles sempre fazem aquele show de luzes e fumaça, que aqui é permitido. Fica um ambiente bonito, um jogo legal”.

Além dele, mais brasileiros fizeram sucesso vestindo a camisa do time russo. Como Rômulo, atual volante do Flamengo. Ele falou sobre como os torcedores se comportam e também como um gol sobre o gigante Barcelona na Uefa Champions League o deixou ainda mais querido pela torcida. “Na época foi eleito o gol mais bonito da temporada 2012/13. Com isso, a torcida teve um carinho muito maior comigo. Fiquei muito grato, porque eles reconhecem os jogadores do time, os feitos que eles alcançam”.

Reconhecimento que rendeu ao ídolo Nikolai Starostin, imortalizado como estátua no novo estádio do time, uma ‘vista’ privilegiada para ver a Seleção Brasileira enfrentar a Sérvia no segundo jogo da fase de grupos na Arena Otkrytie.

Ele via o futebol como “uma ilha de honestidade”. Acreditava que o esporte vinha da cultura do povo e pertencia ao povo. Por isso, tentava fazer do Spartak um time com “estilo forte, de improvisação, romântico e ofensivo".

Robert Edelman conclui que “uma das coisas sobre o futebol é que não era possível combinar resultados, porque o futebol, em geral, é um jogo imprevisível e podem acontecer todos os tipos de resultados malucos. Essa imprevisibilidade e espontaneidade foi abraçada pelo Spartak. Starostin era visto como uma celebridade soviética, um grande herói”.

Starostin foi muito mais que um fundador. O Spartak é muito mais que um clube. E o futebol é muito mais que um esporte.