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LADO B DA COPA - A triste realidade dos jogadores assassinados no Panamá

Que a Copa do Mundo é o maior evento esportivo do planeta, isso todos já sabem. Vencer este torneio é motivo de orgulho e festa, que chegam a parar os países vencedores. Também pudera, apenas oito seleções conseguiram chegar a este feito até hoje.

Mas um país chegará à Rússia com a sensação de dever cumprido. Estamos falando da seleção do Panamá.

Em outubro do ano passado, o país comemorava a primeira classificação para uma Copa do Mundo em sua história, na vitória por 2 a 1 sobre a Costa Rica. O gol que carimbou o passaporte do time para a edição deste ano saiu no último minuto, de forma dramática.

Além de ser caçula no mundial, a equipe deixou de fora do torneio, nada mais, nada menos, que os Estados Unidos.

O curioso é que nas eliminatórias da CONCACAF para o Mundial de 2014, os fatores se inverteram. O Panamá enfrentou a seleção dos Estados Unidos e a partida terminou 3 a 2 para o time americano - o gol do desempate saiu nos acréscimos.

Com o resultado, o sonho panamenho foi adiado. Quem diria que nesta edição o gol na bacia das almas seria dos Canaleros e, de quebra, deixaria o Tio Sam de fora? Coisas do futebol.

Porém, uma tragédia antecedeu a este ápice de alegria, cerca de seis meses antes. Um jogador importante para a caminhada do Panamá rumo à Rússia deixou os campos de futebol para entrar na memória da seleção e do seu povo.

UM A MENOS

No dia 15 de abril de 2017, Amílcar Henríquez, volante titular da seleção panamenha, jogava dominó com seus amigos dentro de casa, na cidade de Cólon. Era uma tarde de sábado, um carro se aproximou, disparou contra ele e seus colegas e foi embora.

As vítimas foram levadas ao hospital imediatamente. Um sobreviveu, mas Amílcar e seu amigo, Delano Wilson, não resistiram aos ferimentos. Ele tinha 33 anos e deixou para trás uma esposa, três filhos e o sonho de disputar uma Copa do Mundo.

“Foi um golpe duro. Depois disso, tivemos que arranjar forças para continuar, e todos queríamos fazer isso por ele [a classificação]” desabafou Luis Ovalle, lateral do Panamá e ex-companheiro de Amílcar.

“Ele havia lutado, jogou 15 anos pela seleção para poder enfim disputar uma Copa do Mundo. É uma lástima não tê-lo com a gente”, acrescentou.

Henríquez defendia o Árabe Únido, clube no qual foi revelado e também o último em que atuou. Já havia vestido a camisa de equipes conhecidas como o Independiente de Medellín, América de Cali e Atlético Huila – todos da Colômbia. Também vestiu as cores da seleção panamenha de 2004 até sua morte, tornando-se o décimo jogador a disputar mais vezes pelos Canaleros.

“A equipe [Árabe Únido] sofreu bastante com a perda dele. Era titular e um líder, dentro e fora de campo, muito respeitado no país”, contou Caio Milan, brasileiro que joga no Panamá e foi companheiro de Amílcar em seu último clube.

Na época, três menores foram detidos como suspeitos pelo assassinato do jogador, mas, até agora, não houve julgamento. A “Fiscalía de Adolescentes” do país, órgão que trata de assuntos como esse, determinou o caso como “complexo” e conseguiu respaldo para mais um ano de investigação.

“Ser assassinado do jeito que foi... Um dia ele estava na capa do jornal por uma coisa boa que fez, e no outro pela sua morte”, desabafou Milan.

A importância do jogador para o Árabe Únido, uma das maiores equipes do Panamá, foi tanta, que sua camisa, número 21, foi aposentada pelo clube.

ELE NÃO É O PRIMEIRO...

Amílcar foi o 22º jogador de futebol panamenho assassinado desde 1990, segundo levantamento feito pelo repórter Álvaro Martínez, do jornal ‘El Siglo’. Neste último ano, outro atleta também morreu de forma violenta.

“Desde que eu cheguei aqui [2010], acho que já perdi uns oito companheiros de clube [assassinados]. Infelizmente é isso que acontece”, contou o brasileiro.

O Panamá está entre os países mais violentos do mundo, em 18º no ranking mundial, de acordo com estudo realizado pela ONU (Organização das Nações Unidas). A cada 100 mil pessoas, 17.4 são assassinadas.

“Tive uma passagem muito triste aqui. A gente tinha ganhado a semifinal do campeonato por 4 a 0 e estávamos na final”, lembrou. “Aí na saída do estádio junto com a torcida, um carro passou, desceu um cara logo na minha frente e disparou várias vezes contra o nosso camisa 10”, contou Caio Milan, de quando defendia o Chorillo FC.

“Ele era o craque do time, mas já tinha sido preso. Fazia uns seis meses que ele havia saído da cadeia, e o time decidiu dar oportunidade para ele jogar”, finaliza.

Para o jornalista, é necessária a criação de campanhas preventivas no país inteiro e nos bairros mais pobres.

“Temos jogadores que são consumidores de drogas, que costumam usar armas. Eles são produtores da periferia, absorveram ela”, conta. “A Liga [Panamenha] disse que após a Copa do Mundo haverá uma transformação, espero que trabalhem nisso”, critica.

“Creio que o Panamá terá dias melhores, mas hoje ele se converteu em um dos países mais violentos da América Central, com vários casos que não se viam antes”, desabafa Álvaro Martínez. “Até mesmo no tempo dos militares não havia tanta violência como nessa última década”, finaliza.

Entre a dor e a euforia: é assim que a seleção panamenha entrará em campo pela primeira vez em uma Copa do Mundo, honrando o legado do seu eterno camisa vinte e um.

Você pode assistir à reportagem na íntegra no WatchESPN.