A Roma vive o sonho de conquistar o maior título de sua história. Para que isso se concretize, a equipe italiana precisará eliminar o Liverpool nas semifinais da Champions League. A primeira partida será realizada em Anfield, na Inglaterra, nesta terça-feira (23/04), às 15h45 (de Brasília).
O caminho da equipe comandada por Di Francesco não foi nada fácil e teve contornos épicos. Após deixar para trás na fase de grupos Chelsea e Atlético de Madrid, a Roma eliminou Shakhtar Donetsk e o poderoso Barcelona.
Mesmo depois de levar uma goleada na Espanha por 4 a 1, o clube italiano teve forças para reagir e se classificar com uma impressionante vitória por 3 a 0 na Itália.
"Colocamos tudo em campo. O treinador mudou o sistema e colocou ainda mais agressividade. Isso surpreendeu todo mundo. Quando estávamos vencendo por 1 a 0 já estavam fazendo cera. Quando foi 2 a 0 fizeram mais cera ainda porque viram que ia ser difícil. Fizemos o Barcelona dar balão. Ninguém viu o Barcelona dar tanto balão assim na vida", disse Juan Jesus, zagueiro da Roma, ao ESPN.com.br.
Em sua segunda temporada na capital italiana, o brasileiro revelado no Internacional acredita estar no melhor momento de sua carreira.
"Estou ficando experiente porque estou com 27 anos. Você pega tudo aquilo que aprendeu e consegue colocar em prática. Cheguei ao nível que tenho que estourar e melhorar a cada jogo. Ainda sou jovem, tenho tempo e quero aproveitar cada momento".
Agora, a semifinal será contra um adversário que está engasgado na garganta do torcedor da Roma. Em sua única final na história da Champions League (à época Copa dos Campeões da Europa), os italianos perderam para o Liverpool (em pleno estádio Olímpico de Roma) na disputa por pênaltis, em 1984.
Veja a entrevista de Juan Jesus na íntegra:
ESPN - Se eu te dissesse no começo da temporada que a Roma estaria na semifinal da Champions depois de passar por Chelsea, Atlético de Madri, Shakhtar e Barcelona. O que você me responderia?
Juan Jesus - Eu acho que seria um sonho que qualquer jogador queria realizar. Foram jogos difíceis e se tornou realidade. Todos acharam que a Roma seria 3º lugar do grupo, não ia passar por Shakhtrar e Barcelona. Mas a gente sabe que os sonhos se realizam.
ESPN - Quando vocês passaram a acreditar que poderiam chegar tão longe?
Juan Jesus – Estávamos bem desde o começo do Italiano e da Champions. A gente sempre via o nosso grupo com qualidade, temos jogadores de porte físico muito privilegiado. A gente soube colocar me campo nossa força e mostramos na Champions. Quando estávamos perdendo para o Chelsea por 2 a 0 e viramos por 3 a 2 a gente pensou: ‘Pô, dá. Vamos’. Infelizmente tomamos o empate. Mas no jogo de volta em casa vencemos por 3 a 0. Daí, a gente viu: ‘Ninguém ganha da gente’. Fizemos nossa lição de casa e passamos em primeiro mesmo em um grupo tão difícil. O Shakthar era um time técnico e rápido e acharam que não ia dar pra gente. Depois que a gente perdeu a ida fizemos o resultado e fomos para as quartas. Com o Barcelona foi a mesma coisa.
ESPN - Como foi o jogo contra o Barcelona no Camp Nou? O que deu errado?
Juan Jesus - Começamos o jogo muito bem. Fazendo nosso jogo que é sempre agredir a outra equipe. Não vou entrar em polêmicas, mas tivemos dois pênaltis que o juiz poderia dar ou não. Ele não deu. Tivemos chances e poderíamos complicar para eles. Mas daí acabou em 4 a 1 e o pessoal falava que era impossível, tiraram a gente da Champions League. Mas só que o futebol a cada ano nos mostra que se você acredita nada é impossível. Mudamos sistema de jogo, jogadores e conseguimos a virada.
ESPN – Como foi a semana antes do jogo de volta no estádio Olímpico?
Juan Jesus – Foi muito difícil porque saímos com o resultado engasgado. A gente criou chances, o Barcelona não jogou sozinho ou deixou a gente em dificuldades sempre. Tivemos vários lances bons e não tivemos medo. Jogamos de igual para igual. Dali vimos que poderíamos ganhar do Barcelona. Vimos uma partida do Barcelona contra o Sevilla pelo Campeonato Espanhol. O Sevilla deixou de aproveitar oportunidades, terminou 2 a 2, mas era pra terminar em goleada do Sevilla. Aquilo ai nos deu confiança e vimos que eles eram vulneráveis. Também tínhamos feito um jogo muito bom contra a Fiorentina, mas perdemos por 2 a 0 . Nós tivemos 75% de posse de bola e tínhamos colocado seis bolas na trave! Falamos: ‘Não entrou hoje porque vai entrar terça-feira contra o Barcelona’.
ESPN - Vocês fizeram o jogo da vida em Roma?
Juan Jesus - Colocamos tudo em campo. O treinador mudou o sistema e colocou ainda mais agressividade. Isso surpreendeu todo mundo. Quando estávamos vencendo por 1 a 0 já estavam fazendo cera. Quando foi 2 a 0 fizeram mais cera ainda porque viram que ia ser difícil. Eles deram um chute a gol no primeiro tempo e outro no finalzinho do jogo com o Dembelé que nos assustou muito (risos). Eles não criaram muito e não foi o Barcelona que estamos acostumados, que toca muito a bola e deixa o outro time no bobinho. A gente mostrou nossa qualidade e agressividade. Fizemos o Barcelona dar balão. Ninguém viu o Barcelona dar tanto balão assim na vida (risos). Eles sempre tiveram esse jogo de passes curtos. Foi mérito de todo mundo que acreditou e do treinador. Se não tivesse o empenho de todo mundo para que conseguimos essa virada história.
ESPN - Como foi o trabalho mental visando esse jogo?
Juan Jesus – A gente saiu muito triste do Camp Nou porque poderia ter dado mais. O treinador falou: ‘Eu não desisto porque não posso jogar a toalha’. Nenhum jogador entra em campo para perder ou pouco se importando. Quando você consegue um feito tão grande é uma alegria e uma mistura de coisas que te faz uma pessoa e um jogador melhor. Porque você passa a acreditar ainda mais e a fazer sempre o melhor que o resultado sempre vem.
ESPN - Como foi a palestra do técnico Di Francesco antes do jogo contra o Barcelona em Roma?
Juan Jesus – Ele sempre faz uma palestra mais curta e fala pouco. Desta vez , ele passou um vídeo do filme “Um domingo qualquer”. Ele conta a história de um time de futebol americano muito bom, mas que passou por uma crise. Ele usou uma cena que treinador deles [interpretado pelo ator Al Pacino] falava que ou o time se rendia ou entrava para a história. Você tem que olhar para o lado e lutar pelo seu companheiro e brigar centímetro por centímetro que vai te dar a vitória. Eu acho que isso deu uma motivação a mais no time, mas o jogo já se motivava sozinho.
ESPN - Você não teve muita sorte em outros duelos contra o Messi, mas desta vez foi diferente. Teve um gostinho especial ?
Juan Jesus – Eu estava preparado para fazer minha partida, se tinha Messi, Dembelé ou Suárez era outra coisa. Como tinha o Messi eu tentei fazer o meu melhor. Eu sei que ele pode decidir qualquer partida em um lance. A gente tinha o melhor jogador do mundo em campo e conseguiu fazer uma armadilha para que ele não jogasse muito sozinho. Sempre tinham dois ou três jogadores perto para ele não dar aquelas arrancadas. Às vezes tínhamos que parar com faltas porque no futebol tem a falta tática. Soubemos aproveitar todos nossos recursos para parar esse jogador.
ESPN - Foi o melhor jogo da sua vida até aqui? Como você avalia sua evolução nesta temporada?
Juan Jesus - Pode ser o melhor momento. É a minha primeira Champions League e chegar a uma semifinal é muito importante. Ainda mais jogando contra equipes difíceis. Tive um crescimento ótimo neste ano. Estou ficando experiente porque estou com 27 anos. Você pega tudo aquilo que aprendeu e consegue colocar em prática. É a minha oitava temporada na Itália e aprendi muitas coisas. Cheguei ao nível que tenho que estourar e melhorar a cada jogo. Ainda sou jovem, tenho tempo e quero aproveitar cada momento.
ESPN – Como foi a festa depois do jogo? O presidente da Roma até pulou na fonte...
Juan Jesus – O pessoal estava muito louco e feliz demais (risos). Foi algo muito histórico e alguns torcedores não acreditavam. Depois do jogo, eu e o [goleiro da Roma] Alisson fomos jantar em um restaurante de um amigo nosso. Quando entramos fomos aplaudidos pelos torcedores. Um cara mais velho queria beijar meu pé e a mão do Alisson (risos). Eu falei: ‘Não precisa beijar meu pé. Tá tudo bem, a gente só fez o nosso trabalho’ (risos). Ele respondeu: ‘Vocês não entendem! Vocês têm a chave da cidade agora. O que vocês fizeram algo que ninguém fez. Poderão virar imperadores aqui’. O pessoal estava enlouquecido de felicidade, foi uma alegria imensa. Eles podem curtir. A gente tem que aproveitar o momento e trabalhar.
ESPN – Qual a importância da torcida nessa virada?
Juan Jesus – Eles nos incentivaram o tempo todo. Quando fizemos um 1 a 0 logo no começo ele começaram a acredita e a cantar mais forte. Quando saiu o 3 a 0 eles choraram, não acreditavam. Depois do jogo eu vi o Florenzi com a mão na cabeça e falando: ‘Meu, a gente conseguiu, a gente conseguiu, a gente conseguiu’ (risos).
ESPN – E dos jogadores, quem estava mais impressionado depois que o juiz apitou o fim?
Juan Jesus – Todo mundo (risos). Manolas saiu com olho arregalado tipo “O que eu fiz?”. Eu vi De Rossi, Alisson, Strootman, todos emocionados. Os roupeiros, a molecada da base, todo mundo entrou em campo. Todos viram o valor desta vitória histórica.
ESPN – Como está o clima e a expectativa em Roma para o jogo contra o Liverpool?
Eles também não estavam entre os favoritos também...
Juan Jesus - Pessoal sempre falam dos mesmos: Bayern, Real, Barcelona, Juventus, PSG e City. O Liverpool e a Roma mostraram que não é só de nome que se faz. Tem que ter grandes jogadores e aproveitar sempre as oportunidades. Todo mundo achava que o Manchester City ia passar, mas o Liverpool venceu dentro e fora. Nós estamos prontos e sabemos que eles têm um ataque muito rápido com o Salah, que conhecemos muito bem, e está em grande fase. Nós temos o Dzeko que também está em grande fase. Quem errar menos e aproveitar as chances vai conseguir uma vaga na final.
ESPN - E como será enfrentar o Salah, que até a outra temporada estava na Roma? Ele mantém contato com vocês?
Juan Jesus – Sabemos da qualidade do Salah, já joguei contra e também junto com ele. É um cara rápido que finaliza muito bem. Não pode dar brecha porque consegue decidir jogos. Ele mantém contato com a gente às vezes por redes sociais e manda alguma coisa. Esses dias o Manolas ligou para o Salah e brincou: ‘Está descansado para poder jogar contra a gente’ (risos). É um grade jogador e uma ótima pessoa. Tem o respeito de todos nós. Durante o jogo será nosso adversário, mas depois da partida volta a ser nosso amigo.
ESPN – Para a Roma o jogo é ainda mais especial por ter sido a final da Champions de 1984. Tem um clima de revanche?
Juan Jesus - Falam muito disso por aqui porque a Roma perdeu nos pênaltis aquela decisão. A história nos deu uma chance de tentar novamente chegar a uma decisão. É um jogo histórico e pode marcar a carreira dos nossos jogadores. Chegar uma final depois de 34 anos será muito importante.
ESPN - O Totti se aposentou no final da última temporada. Ele ainda é presente do dia a dia com vocês?
Juan Jesus - Ele está todos os dias porque é um diretor aqui. Está sempre no clube e toma café da manhã com a gente no mesmo lugar. Parece que ele não parou de jogar porque só não treina, mas está em todo lugar. Só não tem o vestiário, mas vai aos treinos. Só não vai quando tem algum compromisso pelo clube. A amizade dele com a gente continua a mesma
ESPN - Com a saída do Totti foi o De Rossi virou o líder do elenco?
Juan Jesus – Claro, ele é o nosso capitão. Hoje é a nossa figura que representa a liderança.
