'Um cara exemplar': companheiros brasileiros lembram histórias e lamentam morte do zagueiro Astori

No último domingo, o zagueiro Davide Astori, da Fiorentina, foi encontrado morto em um hotel em Udine, onde estava reunido com sua equipe para enfrentar a Udinese, pelo Campeonato Italiano - a causa da morte ainda é desconhecida. Ele tinha 31 anos e deixa mulher e filha de dois anos.

Durante o dia, o ESPN.com.br colheu depoimentos de brasileiros que foram companheiros de equipe do atleta da seleção italiana. Todos foram unânimes ao descrever o defensor como uma pessoa "exemplar", além de elogiá-lo pelo comprometimento com o trabalho e por ser estudioso e culto.

Eles também falaram sobre as muitas atividades de Astori fora dos campos e relembraram histórias que passaram ao lado do jogador. Confira:

'CULTURA DIFERENTE DO QUE SE VÊ NO FUTEBOL'

Por Danilo Avelar, lateral do Amiens-FRA

Nós jogamos juntos por quase três anos no Cagliari. O Davide era um cara sensacional, com uma educação e uma cultura diferentes do que se vê normalmente no futebol. Ele era muito culto, tinha diversos interesses extra-campo. Gostava muito de ler livros e estudar outros assuntos fora do futebol. Era muito bom conversar com ele.

Ele gostava muito de artes e arquitetura, tanto é que uma vez comprou uma casa na praia e ficou mostrando pra mim uma revista de arquitetura com umas mesas de madeira e coisas diferentes. Eu também gosto e minha namorada é arquiteta, a gente ficou conversando muito sobre isso. Era um papo diferente, não era aquela boleiragem tradicional.

Além disso, Davide adorava culinária. Ele tinha uma sorveteria chamada "Cremoso – Dolci Emozioni", que é uma das melhores da Itália. Minha família ia bastante. Ele montou uma em Cagliari e depois abriu duas filiais, uma em Bergamo, que é cidade dele, e outra na região norte da Sardenha. Unia uma sorveteria artesanal com iogurteria, e deu muito certo. É a minha sorveteria preferida na Itália. Ele também foi sócio de um teatro a céu aberto em Caglairi por um tempo.

Uma vez em uma pré-temporada com Cagliari, nós fomos andar de teleférico em uma tarde livre até o topo da montanha para comer uma polenta famosa que tinha lá. Mas o clube vetava comer coisas fora do hotel para terem controle maior. Brincávamos que não poderia dar problema na barriga, senão teríamos problemas. Comemos ela meio escondida (risos).

O que mais me deixou chocado com a morte dele foi que ele se cuidava muito. Era um dos exemplos do time e relação a saúde, a fazer dieta, dormir bem. Era um cara exemplar.

Ele gostava de repetir palavras em português e sempre estava brincando com todo mundo. Entrava na onda da galera e fazia uma graça. Não era tímido, era bem ativo e falava com todos. Era muito comunicativo e gente boa.

O Astori esteve no Brasil na Copa das Confederações com a Itália e falou comigo bastante sobre a viagem. Lamentou que quando foi ao Corcovado o tempo não ajudou porque estava uma neblina danada. Ele gostou muito daqui e falou que ficou surpreso coma beleza do Rio de Janeiro e um pouco triste pelo tempo estar fechado.

A última vez foi quando joguei pelo Torino contra a Fiorentina, no ano retrasado, nós conversamos bastante. É uma pena tudo isso que aconteceu...

'ERA UM CARA MUITO FAMÍLIA'

Por Nenê, atacante do Bari-ITA

Nós jogamos juntos por quase cinco anos no Cagliari. Davide era um cara muito centrado no dia a dia. Era muito profissional e trazia muita alegria para todos dentro do vestiário.

Era um cara que gostava muito do que fazia. A gente fazia parte de um grupo que passou por muitos momentos difíceis, mas ele sempre foi uma liderança muito positiva, com pensamento para o futuro e acreditando sempre no melhor.

Além disso, era muito responsável. Sempre foi um dos primeiros a chegar às concentrações, e era um cara bem família, muito concentrado na vida pessoal. Ele deixa esposa e filha pequena, e isso dói ainda mais.

Astori sempre foi um cara extrovertido e brincalhão, mas nos momentos em que precisava, era o capitão e sabia impor respeito e liderança. Convivemos sempre em paz e vivemos momentos muito bons. A gente sempre conseguiu manter o time na 1ª divisão da Itália, o que para nós era um título.

Todos os que jogaram junto com ele naquele período estão muito sentidos com a ida dele...

Ele chegou à seleção da Itália por mérito próprio. Achei muito importante o restante da rodada ter sido adiada, pois é uma atitude certa para o que ele representava e também em respeito aos familiares dele.

Sempre que a gente jogou contra nos últimos anos conversávamos bastante. A última vez que falamos foi num amistoso de pré-temporada, em julho do ano passado. Enfrentamos a Fiorentina.

Depois da partida, nós batemos um longo papo. Ele me disse que estava muito feliz por ser o capitão da Fiorentina.

'ELE NÃO ERA CAPITÃO À TOA'

Por Jeda, atacante da Vimercatese-ITA

Como companheiro de equipe, sempre foi uma pessoa muito carinhosa. Um garoto muito humilde, que conquistou seu espaço com muita determinação dedicação e trabalho.

Ele chegou ao Cagliari para jogar a Serie A vindo da Cremonese, um time pequeno da 3ª divisão da Itália. Ninguém acreditava que fosse chegar nesse ponto que chegou. Após dar essa grande reviravolta na carreira ele ficou muito conhecido. Ele jogou em times grandes e seleção italiana. Muitas coisas mudaram rapidamente.

Como ex-companheiro de muitos anos no Cagliari, fique abalado com a morte dele. Era uma pessoa esplendida. Lembro que durante os treinos a gente brincava muito porque ele chegava muito mais pesado (risos). Vários jogadores do meio e do ataque quando tinham que jogar com ele ficavam com medo (risos). Ele chegava pesado e muitos falavam: ‘Astori, vai devagar. Pega leve’.

Essa dedicação ao trabalho dele era nítida. Era um cara que nunca reclamava de nada e respeitava quem estava há mais tempo que ele no clube. Isso eu mais admirava nele.

Ele era capitão da Fiorentina e não era à toa. Não estava há tanto tempo por lá. Isso era reflexo da personalidade. Será lembrado como uma pessoa muito especial na Itália. Para todos do futebol por aqui relembrando desse jogador. Não era só um atleta, era uma pessoa extraordinária. Estou muito abalado porque vivemos juntos muito tempo.

No começo chegou mais fechado, mas devagarzinho fomos descobrindo a personalidade dele. Era uma pessoa muito alegre, você vê nas redes sociais dele estava sempre sorrindo. Nunca estava triste ou abalado. Ele marcou muito nosso grupo em Cagliari. Nos identificamos muito coma torcida porque ficamos muito tempo por lá.

Estávamos sempre juntos fora do campo com o grupo de jogadores. Saíamos muito para jantar e tomar café. Ele ria muito e contava muitas piadas. Isso ajudava a manter nosso grupo unido, que não tinha inveja ou problemas de relacionamento.

A história de vida dele pode servir de exemplos para os jogadores italianos mais jovens. Hoje em dia muitos valores se perderam e muita gente reclama disso na Itália. Ele encarnava isso, uma pessoa com muitos valores e de família.

O que mais me marcou foi um gol que ele fez contra a Fiorentina e tem uma foto bonita em que eu apareço correndo para abraçá-lo.

'ELE ME EXPLICAVA TUDO'

Por Thiago Ribeiro, atacante ex-Santos

Davide era uma pessoa muito boa e alegre.

Quando eu cheguei ao Cagliari, time no qual eu o conheci, foi bastante difícil para mim no começo porque eu não conseguia falar italiano e peguei um esquema de jogo totalmente diferente do que estava acostumado no Brasil pelo Cruzeiro. Então, ele me orientava, explicava posicionamento e situações de jogo.

Fora de campo, também sempre se aproximava pra conversar e saber como estava. Era muito disposto a ajudar, isso deu para perceber desde o começo.

Era um cara bem receptivo e descontraído. Vai fazer muita falta.