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Cria do Flamengo hoje é astro na Índia e mora em hotel 5 estrelas

Divulgação

Pouco conhecido no Brasil, Marcelinho Leite é um dos principais jogadores do emergente futebol indiano. Criado das categorias de base do Flamengo, ele foi artilheiro da Super Liga Indiana de 2016 com dez gols marcados, deixando para trás jogadores como Diego Forlán e Florent Malouda.

Em sua segunda temporada no país, o atacante de 30 anos é ídolo e recebe um tratamento de astro: mora em um hotel luxuoso que pertence ao Pune City (seu atual clube), com direito a academia e bons restaurantes.

"Eles pagam em dia e muito bem. Moramos em hotel e quando vamos jogar fora de casa nós ficamos em resorts ou hotéis cinco estrelas. Eles procuram dar todo conforto para o estrangeiro ficar bem por aqui. Pune é uma das cidades que movimenta a economia da Índia e tem escritórios e empresas. É muito rica e lembra São Paulo. Tem muito luxo, cafeterias e shoppings. Ela é bem cosmopolita e boa de viver", disse o jogador, ao ESPN.com.br.

Apesar de toda opulência, o brasileiro se espantou com as desigualdades sociais na Índia.

"É um país de extremos e exótico. Tem muita pobreza e pouca riqueza, e tudo muito junto. É uma potência que está crescendo a cada ano. Aqui é uma lição de humildade. As pessoas são muito felizes mesmo com pouco", contou.

"Vemos famílias inteiras morando na miséria, praticamente na rua, embaixo da ponte, amontados, ou em cima do esgoto. estão sempre sorrindo, não tem criminalidade grande ou roubos. Eles estão sempre sorrindo e contentes ao ver os estrangeiros", analisou.

Marcelinho Leite conta que é bastante comum em lugares menos desenvolvidos da Índia os pedestres e os motoristas dividirem as ruas com animais.

"Em algumas regiões da Índia você vê elefantes e macacos na rua. Em todo país tem vacas na rua, elas são sagradas. Você não pode matar ou mexer. Dependendo da região é proibido comer a carne. Aqui em Pune não pode comer, mas no sul da Índia o consumo é permitido", explicou.

'AQUI NINGUÉM TE XINGA'

A Super Liga da Índia está em sua quarta edição. Nesta temporada, a competição tem dez equipes (duas a mais do que nos anos anteriores) e aumentou sua duração de três meses para cinco.

"Às vezes vamos jogar em estádios com 70 mil pessoas. A Liga é super organizada e eles são carentes de ídolos. Eles vêem o futebol como entretenimento, não como um esporte de rivalidade, de botar pressão, xingar ou brigar. Muito pelo contrário, eles ficam muito felizes pelos eventos e encaram como um show", afirmou.

"É muita festa. Eles ficam felizes com cada jogada, ninguém te xinga no estádio. É uma energia muito pura e boa. Todo mundo que joga aqui quer continuar e muita gente tem vontade de vir para cá. Apesar de estar apenas na quarta edição do campeonato já é uma realidade. Talvez eles tenham mais times para a próxima temporada", projetou.

A aventura de Marcelinho Leite na Índia começou em 2016, quando foi contratado sem muita badalação para defender o Delhi Dynamos ao lado do atacante Florent Malouda (ex-Chelsea) e ser treinado por Gianluca Zambrotta (ex-lateral campeão da Copa do Mundo de 2006 pela Itália).

O sucesso foi imediato. Ele marcou dez gols e levou o Golden Boot, prêmio de melhor jogador da liga.

"Eu cheguei para compor elenco e acabei sendo artilheiro do campeonato. Ninguém esperava. Foi uma grande surpresa. Esse ano eu vim como destaque do time, capitão e número 10. Já estou mais consolidado aqui", comemorou.

Neste ano, ele defende o Pune City e já balançou as redes por oito vezes. Faltando apenas uma rodada para o fim da primeira fase da Super Liga, o clube é o segundo colocado e está garantido nas semifinais .

COMEÇO NO FLA E PASSAGEM PELA EUROPA

Marcelinho Leite começou no futsal no Grajaú Country e passou por Vasco, Fluminense até chegar ao Flamengo, onde fez a transição para o campo.

"Foram dez anos de muito aprendizado e já lidando com pressão para ser campeão. Eu joguei com Renato Augusto, Bruno Mezenga, Kayke, Marcelo Lomba e Egídio. Fui treinado pelo Adílio e foi bem interessante porque ele me ajudou muito", agradeceu.

"Quando subi aos juniores eu estava jogando, mas no meu segundo ano eu passei a não ser aproveitado. Como eu tinha passaporte europeu, meu empresário à época achou melhor a gente mirar a Europa do que tentar subir ao profissional do Flamengo. Eles tinham muitas estrelas e a base não seria aproveitada", explicou.

Aos 18 anos, ele foi para o Atlético de Madri B para viver fora do Brasil pela primeira vez.

"Foi uma experiência um pouco dura porque era muito jovem na mudança de país. Morava com meus pais e do nada fiquei sozinho e tinha que me virar em outro idioma. Era outro futebol. O contrato era de apenas uma temporada. Foi um erro porque tinham que ter me dado uns dois ou três anos para poder me adaptar. Até eu me sentir adaptado acabou meu contrato".

Apesar das dificuldades, ele guarda boas lembranças dos tempos de Espanha.

"Teve uma vez que fui almoçar na casa do Ronaldo [Fenômeno], que na época estava encostado no Real Madrid. Ele desabafou comigo. Joguei um amistoso no time principal com Aguero, Costinha, Maniche e Maxi Rodríguez. Era um timaço. Foi uma experiência bem bacana e pude absorver muita coisa para o futuro", reconheceu.

SPA NATURISTA NA HOLANDA

Depois, ele voltou ao Brasil e jogou por Vitória e Ipatinga antes de chegar ao Xanthi, da Grécia. "Eu tinha um contrato longo e pude amadurecer e aprendi a falar grego. Cresci com calma e atingi o auge da minha carreira".

Além disso, viveu algumas situações muito engraçadas por causa dos costumes diferentes.

"Uma vez o clube nos levou par fazer pré-temporada na Holanda em um spa, mas ele era naturista (risos). Todo mundo tinha que ficar pelado. Quando eu estava aprendendo o idioma os colegas de time me ensinavam tudo errado, vários palavrões e xingamentos (risos). Eu achava que estava falando uma coisa, mas na verdade estava falando outra".

Após seis temporadas no Xanthi, ele jogou por Catania (Itália), Baniyas (Emirados Árabes Unidos) Atromitos (Grécia), Anápolis (Goiás), Delhi Dynamos (Índia) e Avaí.

No final do ano passado, ele acertou com o Pune City. Com todo sucesso que faz na Índia, Marcelinho Leite só aceitaria trocar o clube atual por uma proposta de sua terra natal.

"Eu penso em renovar contrato ou verei se virá alguma proposta interessante do Brasil. Caso não chegue, darei seguimento por aqui e renovarei contrato", finalizou.