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Isso é que é honestidade: Leicester manda cheque de R$ 22,4 mil para escolinha de futebol; veja o motivo

A Fútbol Base de Alfara del Patriarca, pequena escola de futebol localizada em Valencia, no leste da Espanha, recebeu um e-mail no mínimo estranho há alguns meses. Assinado pelo Leicester, campeão inglês da temporada 2015-16, ele fazia menção a uma contratação recém-confirmada pelo clube.

"Após comprovar que o jogador Vicente Iborra esteve inscrito na FB Alfara entre 1º julho e 14 de outubro de 1999, o Leicester entregará 0,072% do valor acordado com o Sevilla, a somatória de 5.760 euros", dizia o e-mail.

E não era só isso: para aumentar a desconfiança dos valencianos em relação ao correio eletrônico, o remetente pedia um número de conta para fazer o depósito.

Mas nada disso era uma pegadinha. Era realmente o Leicester quem enviava o e-mail, anunciando seu compromisso de cumprir com o artigo 21 do Regulamento de Transferências da Fifa, o popular "mecanismo de solidariedade”. Ele estabelece que os clubes que compram jogadores devem enviar uma porcentagem do valor aos times que formaram os atletas contratados.

Em julho do ano passado, o Sevilla vendeu Iborra aos "Foxes" por 13 milhões de euros (atualmente, cerca de R$ 51 milhões), que serão cobrados em três parcelas. Da primeira delas, 8 milhões, serão descontados 5%, que serão repartidos aos clubes aos quais o volante atuou entre os 12 e os 23 anos de idade.

Na temporada em que completou 12 anos, 1999-00, o jogador deixou o Alfara por outro pequeno clube chamado Don Bosco. Entretanto, seu contrato com este último não foi emitido até o dia 15 de outubro de 1999, segundo a documentação da Federação Espanhola de Futebol. Por esse motivo, os 105 dias entre 1º de julho e 14 de outubro daquele ano o computam como jogador do Alfara.

E é justamente daí que vem o cálculo do Leicester.

De acordo com a regra da Fifa, cada um dos quatro primeiros anos do jogador – ou seja, entre os 12 e 15 anos – deve receber 0,25% da indenização. Esses 105 dias se referem aos 0,072% que o clube inglês irá pagar. O Sevilla ainda deverá cobrar o restante do passe de Iborra – 5 milhões de euros –, e 0,072% do valor também será transferido para seu primeiro clube.

Com isso, além de acertar a dívida financeira, acerta também uma questão moral.

A pequena cidade de Alfara del Patriarca tem menos de 3 mil habitantes, e somente uma travessia urbana a separa de Moncada, cidade vizinha e um pouco maior, com quase 22 mil habitantes. Cidade que também foi o berço de Iborra, mas que nunca deu a ele a oportunidade de jogar futebol.

Quando o atleta tinha 5 anos, sua mãe tentou inscrevê-lo na Fundação Esportiva de Moncada, mas não havia equipes para sua idade. Por isso, de 1993 a 1999, ele jogou no clube vizinho, inclusive, com documentos falsos de um colega, pois não tinha idade para ser federado.

Após essa inesperada viagem pelo passado, Iborra ficou feliz com a situação: “Pela idade que eu tinha, pensei que o Alfara não receberia nada. É uma alegria muito grande, apesar de a quantidade não ser muito alta por causa do pouco tempo que os registros contam, e não os sete anos que passei lá. É importante para eles e pode ajuda-los a crescer”, disse ao jornal Marca.

E crescer é justamente o que a Fútbol Base de Alfara del Patriarca pretende fazer. Segundo o presidente, Ximo Rocher, o dinheiro será investido em estrutura para os jovens jogadores: “Nós queremos investir em algo que se transforme em uma herança para os que venham depois”.