<
>

'Queríamos matar o Arsenal': Anderson relembra tempos de United e fala sobre carreira

ESPNFC.com

Uma década depois da chegada do meio-campista brasileiro ao Old Trafford, ele conversou com Andy Mitten sobre sua carreira, a sensação de vencer uma Champions League, o carinho que tem por Sir Alex Ferguson, por que Wayne Rooney precisa de "mais amor", o estilo robótico do treinador Louis van Gaal e ainda disse acreditar que seu ex-clube vai voltar a vencer com jogadores como Paul Pogba e Romelu Lukaku.

PORTO ALEGRE, Brasil - Faz mais de uma hora que Anderson está batendo papo com amigos em uma casa alugada para o Ano Novo. Seus amigos mais próximos estão no quintal fazendo um churrasco, uma tradição brasileira que os habitantes do Rio Grande do Sul adoram cultivar.

Esta entrevista demorou meses para ser marcada, mas, quando conseguimos nos encontrar, passei 24 horas conversando com o ex-jogador da seleção brasileira de 29 anos. Atualmente sem time, após encerrar seu contrato com o Internacional de Porto Alegre, Anderson ficou famoso pelos oito anos em que jogou pelo Manchester United.

Anderson ouve Drake cantando ‘Passionfruit’ tão alto que quase dá para sentir o baixo; depois vai jogar Playstation ou sair pela rua cumprimentando todo mundo como se fossem velhos amigos. É um homem apaixonado pela vida. As pessoas adoram ele, gostam da história do garoto que saiu da pobreza e chegou a marcar um gol de pênalti que ajudou a vencer uma final de Champions League.

Alguns ex-jogadores do Manchester United até hoje não entendem por que Sir Alex Ferguson gostava tanto de Anderson. Como no caso de Eric Cantona, as regras disciplinares com ele tinham que ser mais flexíveis. Não que esses ex-colegas fossem invejosos. Eles adoravam a personalidade sorridente e o jeito peculiar de Anderson falar inglês: ele ainda pronuncia de forma engraçada várias palavras, como beach e house, e só consegue chamar Michael Carrick de 'Carricky'.

Ele normalmente é generoso, engraçado, atrevido e espirituoso, mas agora dá para notar algumas lágrimas em seus olhos. Ele está lembrando da final de Moscou, em 21 de maio de 2008. A final da Champions League entre o Manchester United e o Chelsea e o momento em que, com o jogo empatando em 1 a 1, ele saiu do banco no último minuto da prorrogação. Tudo por causa de uma sugestão de Ryan Giggs, que disse a Ferguson: "Anderson é muito bom batendo pênaltis".

"Entrei em campo e nem toquei na bola antes do jogo acabar", diz Anderson. “Fomos direto para os pênaltis, eu era o sexto a bater. [Cristiano] Ronaldo perdeu. O craque do time perdeu! Naquela hora pensamos: ferrou! [Carlos] Tevez, Carrick, [Owen] Hargreaves, que era ótimo jogador, Nani. Todo mundo marcou. John Terry perdeu. Se ele tivesse marcado, o Chelsea ganharia. Nem pensei muito nele. Eu era o próximo. Foi a caminhada mais longa da minha vida até chegar na bola.

“Pensei em tudo o que tinha acontecido até chegar aquele momento. Vinha de uma família bastante pobre. Tive uma vida muito dura. Na hora que fui bater, agradeci a Deus por tudo que ele tinha me dado. Deus me disse que aquele pênalti era como um doce, um pedaço de bolo. Era meu momento, eu devia saboreá-lo. Na hora que ouvi isso, relaxei. Apareceram imagens da minha vida na minha cabeça. Pobreza. Falta de dinheiro. As brigas com a minha mãe. Falta de comida em casa. A morte do meu pai. Sair de casa com apenas 12 anos. Grêmio. Porto. Cheguei na bola e dei uma pancada. [Petr] Cech é grandalhão, tem mãos enormes. Ele tocou na bola, mas ela acabou lá dentro”.

"Quando o [Nicolas] Anelka perdeu, achei que a gente tinha mais um pênalti ainda", lembra Anderson. "Aí todo mundo começou a correr e eu fui atrás. Tínhamos ganhado. Parece que estou vendo. Eu pulei. [Nemanja] Vidic pulou junto comigo. Ele bateu os dentes na minha cabeça sem querer. Aquilo doeu pra caramba! Mas a festa foi incrível. A torcida atrás do gol. Foi uma loucura. Começou a tocar música brasileira no estádio. Gal Costa. Eu dancei. É uma cantora muito famosa no Brasil”.

"Vi Manuela, que era como uma mãe para mim, e minha namorada. Elas estavam chorando. Bebi até as sete da manhã, comemorando. Comecei a beber no avião voltando para Manchester e continuei bebendo até chegar ao Brasil. Quando cheguei aqui, disse brincando que queria ir direto para o hospital fazer uma transfusão de sangue, porque só tinha álcool no corpo! Guardo com muito carinho minha medalha da Champions League. E minhas quatro medalhas da Premier League, também. Tenho mais de 400 camisetas trocadas: [Thierry] Henry, [Andres] Iniesta, Ronaldinho, Rivaldo, Cristiano Ronaldo. E muitas outras".

Anderson fica pensativo. Ele sabe que muita gente acredita que o final de sua carreira no Manchester United podia ter sido diferente. Sabia também que não ficaria muito mais tempo no Internacional. Ele tinha o salário mais alto do clube. Mas ele continua otimista.

"Acho que tive uma carreira excelente", diz ele. "Fui bem no Grêmio, no Porto e no Manchester. Sendo brasileiro, não é fácil ficar tanto tempo no Manchester como eu fiquei. Voltei para o Brasil depois de ficar muito tempo fora. Queria ficar perto da família, dos amigos e dos meus filhos.

O Ferguson adorava você. Por quê?

Eu também adorava ele. O cara é um deus do futebol. Joguei machucado quando ele pediu, fiquei no campo até as pernas não aguentarem mais. Eu nem ligava. Quando me machucava, queria voltar o mais rápido possível, mas ele não deixava. Ele cuidava muito bem dos jogadores. Eu sentia que ele se preocupava comigo. Me ajudou a colocar a cabeça no lugar e a conseguir novos contratos. Nem sei como agradecê-lo por tudo que ele fez por mim. Tinha só 18 anos e ele me colocou em jogos importantes, confiou em mim.

Quando cheguei ao time, não comecei como titular. Não gostei muito da situação, eu tinha jogado todos os jogos no Porto. Comecei a ficar chateado e disse para meu agente que queria sair, mas tudo mudou quando entrei no lugar do [Paul] Scholes em um jogo contra o Wigan. Eu joguei muito bem numa posição que não era a minha. Preferia jogar mais adiantado, assim podia encarar os adversários no mano a mano e dar um bom passe. Ou jogar atrás dos atacantes. Fergie me colocou na posição do Carrick aquele dia. E eu não decepcionei.

Comecei a entrar em todos os jogos. Ele sempre me colocava contra o Arsenal, contra eles eu jogava bem sempre. O Park Ji-Sung também, sempre jogava contra o Arsenal. Ji sempre detonava o Arsenal. O Ronny era a mesma coisa. Três passes e nós estávamos na cara do gol. E marcávamos.

Contra eles a gente pensava: "vamos acabar com o Arsenal". Fizemos 8 a 2 neles em casa [em 2011]. Acho que ninguém no nosso time errou aquele dia. Depois do sexto gol, comecei a querer humilhar com a bola. O técnico teve que me tirar de campo!

Você se adaptou rápido em Manchester depois de chegar em 2007...

Cristiano Ronaldo me ajudou muito na adaptação. Eu morei com ele sete meses, na casa dele. Ele foi muito legal, não me cobrou nada por isso. E ainda me levava de carro para os treinos. Eu estava dividindo casa com o melhor jogador daquela temporada. Que vidão! Depois comprei uma casa para mim.

Outros companheiros também foram legais. Rio Ferdinand, John O'Shea, Wes Brown, Fletch. Eu era um garoto quando cheguei. Gostava de contar piada, brincava com todo mundo. Meu sotaque era muito engraçado quando cheguei a Manchester, as pessoas pediam para eu falar e davam risada. No começo só falava português, com o Cristiano e o [treinador assistente Carlos] Queiroz.

Tentei fazer um curso de inglês, mas não adiantou muito, acabei inventando umas desculpas e larguei. Fui aprender sozinho. Eu não tinha vergonha de falar errado. Dizia coisas como "my car no fly" ("meu carro não voa") e os caras caiam na gargalhada, mas eles sabiam que eu estava tentando aprender. E eles também não sabiam falar outra língua!

Sua vida tinha mudado muito.

Eu cresci em Ruben Berta, um bairro de Porto Alegre. Tinha muitos bons jogadores por lá. Não é uma favela, as casas são de alvenaria, mas não tinha água quando minha mãe chegou. Era um lugar perigoso. Eu tinha uma irmã e dois irmãos. Alguns dos meus amigos de infância já morreram, quase sempre por causa de drogas.

Quando eu tinha 11 anos, meu pai faleceu. A gente quando morre acabou. Não volta mais. Seu tempo acabou. Cheguei em casa um dia e meu primo disse: "Seu pai morreu". Eu disse "OK" e fui jogar bola na mesma hora. Meu pai tinha 41. Ele teve um ataque cardíaco. Às vezes tinha que ajudar ele a voltar para casa, ele bebia demais. Ficava em casa tomando cachaça como se fosse água. Era muito triste.

Ele era uma pessoa legal, tranquila. Queria que ele tivesse me visto jogando profissionalmente, ver que eu me dei bem na vida. Ele nunca teve dinheiro, só trabalhava. Era operário em uma fábrica de carrinhos de supermercado. Nem tenho fotos dele, só lembranças de andar de moto com ele.

Fiquei com duas escolhas quando ele morreu: desistir e não ser ninguém ou ser forte e chegar lá. Queria ganhar dinheiro, mas a vida era dura em casa. Quase nunca dormia por lá, sempre estava fora jogando futebol, mas um dia quis assistir a um jogo na TV. Toda terça-feira tinha jogo às 21:45.

Minha família assistia TV o tempo todo. Eu nunca via nada. Pedi para ver o jogo. Eles não deixaram. Nós discutimos. Alguma coisa aconteceu. Minha boca ficou cheia de sangue. Falei para minha mãe que iria embora de casa. Ela achou que eu não estava falando sério.

Olhei para minha família assistindo TV e disse para minha mãe e para meus irmãos: "Um dia vocês vão precisar de mim. Um dia vocês vão me ver na televisão". Minhas lágrimas se misturaram com o sangue. Eles riram da minha cara. Coloquei minhas roupas na mala e fui embora. Nunca mais voltei para casa, fui morar com um amigo.

Aí você começou sua carreira no Grêmio...

Eu pegava o ônibus para treinar, mas não tinha dinheiro, não tinha como pagar. Se pagasse, não tinha dinheiro para comer. Pedia para o motorista: “Posso ir sem pagar?” e ele sempre me deixava subir. Saia às nove da manhã e voltava para casa oito da noite. Finalmente o Grêmio conseguiu uma casa para mim. Eu disse que se eles não me dessem um lugar para morar eu deixaria o clube.

Comecei a morar no estádio. Precisei de autorização da minha mãe e ela deu. Seis meses depois de sair de casa, eu estava na televisão. Era um campeonato juvenil e eu fui eleito o melhor jogador. Todo mundo em Ruben Berta me viu na televisão, foi minha primeira entrevista. Ronaldinho jogava no Grêmio quando eu era criança. Mais tarde, quando treinei com ele na seleção, ele disse: "Você veio do Grêmio, por isso é um bom jogador como eu". Joguei com ele nas Olimpíadas de 2008. Perdemos para a Argentina na semifinal. Foi um dia horrível.

Eles tinham [Lionel] Messi, [Sergio] Aguero, [Javier] Mascherano, [Angel] Di Maria, [Juan Roman] Riquelme e muitos outros. Nossa time era eu, [Alexandre] Pato, Jô, Robinho, Thiago Silva e Ronaldinho como capitão. Ficamos em terceiro e levamos a medalha de bronze.

Os jogadores daquele time da Argentina ficaram mais tempo em grandes clubes do que os brasileiros. Por quê?

O Brasil sempre produz muitos talentos no futebol, talvez menos agora porque as crianças ficam no iPad e não querem mais jogar futebol. Aprendi muita coisa de técnica e concentração jogando futebol quando criança. Já era profissional com 15 anos de idade, comprei meu primeiro apartamento nessa época.

Você é o jogador mais jovem a atuar pelo Grêmio.

Marquei um gol no meu primeiro jogo, um clássico contra o Inter. O Grêmio estava sem dinheiro. O time tinha sido rebaixado, por isso joguei a segunda divisão. Chegamos aos playoffs, estávamos tentando voltar para a primeira divisão e [em novembro de 2005] jogamos o último jogo contra o Náutico em Recife.

Na noite antes do jogo, a torcida soltou fogos na porta do hotel para não deixar nosso time dormir. Bang! Bang! Bang! O estádio estava lotado, 30 mil pessoas. Eles pintaram o nosso vestiário no dia do jogo e depois fecharam as janelas, para que a gente não pudesse respirar. Fecharam as portas e não deixaram a gente fazer o aquecimento normalmente.

O Náutico perdeu um pênalti no primeiro tempo. O jogo estava 0 a 0 e quase acabando quando o juiz deu outro pênalti para eles. Os jogadores do Grêmio ficaram loucos. Quatro foram expulsos e ficamos com sete jogadores: seis mais o goleiro. Se perdêssemos mais um, o jogo acabava. Eu entrei na partida junto com o Lucas Leiva, que depois jogou no Liverpool.

Eles erraram o pênalti. A bola sobrou para mim e corri na direção do gol do Náutico. Os jogadores adversários vieram atrás, mas não conseguiram me pegar. O capitão deles, o Batata, me deu um chute e levou cartão vermelho. Eu disse para os meus companheiros me darem a bola rápido. Comecei a correr. Eu tinha a bola dominada. Corri para o gol. Bang! Na rede. Loucura!

Meus seis companheiros de equipe pularam em cima de mim. O técnico pedia para gente se acalmar, afinal só tínhamos sete jogadores. Seguramos o placar de 1 a 0 e conseguimos voltar para a primeira divisão. Voltamos para Porto Alegre e metade da cidade festejou durante vários dias. Eu tinha 16 anos, não podia beber ainda. Acho que nunca mais vou ver uma coisa igual. Fizeram até um livro e um filme sobre "A Batalha dos Aflitos" [o nome do estádio do Náutico].

Esse foi o seu último jogo pelo Grêmio. Em janeiro de 2006, a agência Gestifute, do português Jorge Mendes, comprou seus direitos econômicos por 6 milhões de euros e você foi jogar no Porto.

Eu poderia ter saído do Grêmio de graça, mas fiz questão de deixar algum dinheiro para o clube e o presidente me agradeceu.

Mudei para Portugal com 17 anos. Eu era muito jovem para mudar de país sozinho, precisava de autorização judicial. Não consegui e precisei da aprovação da minha mãe. Minha mãe ganhou algum dinheiro e se mudou para Portugal, para morar em um apartamento próximo ao meu.

A agência contratou uma senhora, a Manuela, para me ajudar. Ela também ajudou Cristiano Ronaldo e David De Gea. Era como uma mãe para mim. Cuidou de mim em todos os sentidos. Nunca fui próximo da minha mãe, mas a Manuela disse que minha mãe me amava e minha cabeça começou a mudar. Agora tenho uma relação muito melhor com a minha mãe. Quando tinha 15 ou 16 anos, não conseguia sentar na mesma mesa que ela.

No Porto não comecei como titular, mas consegui meu lugar na segunda temporada, até quebrar minha perna em um jogo contra o Benfica, em outubro de 2006. Um cara me deu uma entrada forte, ouvi o osso estalar. Eu estava jogando muito naquela temporada e, se não tivesse me machucado, poderíamos ter chegado à final da Liga dos Campeões.

Sério?

Sério. O Porto tinha vencido a Liga dos Campeões dois anos antes. Olha a escalação: Pepe, Bruno Alves, Ricardo Costa, José Bosingwa, Paulo Assunção, Lucho González, Raúl Meireles, Ricardo Quaresma. Perdemos de 3 a 2 para o Chelsea nas oitavas; [Michael] Ballack marcou no finalzinho.

Quando você voltou da lesão, sabia que havia outras equipes de olho em você?

O Jorge me disse que o Barcelona e o Manchester estavam, além de uma equipe italiana. Eu joguei contra o Manchester durante a pré-temporada em Amsterdã e fui muito bem.

Você assinou com o Manchester United sem muito alarde. Foi uma surpresa?

Aconteceu tudo muito rápido. Estava em casa e o Jorge me ligou, mas meu telefone estava desligado. Era meu dia de folga e eu queria relaxar. Quando liguei meu telefone, tinha um recado: "Anderson, o Manchester quer contratar você. O Ferguson está aqui. Carlos Queiroz está aqui também e quer te ver. O David Gill também chegou. Ele quer ver você".

Confiei 100% no Jorge, senti que ele se preocupava mais comigo do que com o dinheiro. Entrei no carro e pisei fundo. Conheci os dois no Porto. Ferguson veio apertar minha mão. Mas eu dei um abraço nele! Era assim que eu cumprimentava as pessoas.

Não consegui entender nada do que ele disse, mas o Carlos me explicou que o Manchester queria me contratar imediatamente. Minha primeira reação foi: "Uau!". Gostei da ideia, mas fiquei um pouco assustado porque não falava inglês. Queiroz disse para não me preocupar, porque ele falava português e o Cristiano também. Eu disse: "OK, acho que é uma boa hora para eu sair".

O que você sabia sobre Manchester?

Eu tinha 19 anos, conhecia o time por causa de um videogame. Sabia que o Ronaldo jogava lá, mas não tinha noção do tamanho do clube. Também sabia que [Juan] Veron, Kleberson e [David] Beckham tinham jogado lá. Eu seria o segundo brasileiro a vestir aquela camisa.

Qual foi a sua primeira impressão sobre a cidade?

Estava frio! Nunca tinha visto a cara dos ingleses, eles pareciam estranhos. Minha vida mudou muito. No Brasil e em Portugal eu podia sair para visitar os amigos às três da tarde. As cidades estavam sempre agitadas. Em Manchester não havia ninguém nas ruas. Todos estavam em casa. O inverno era frio e escuro, mas eu me acostumei. Comecei a gostar.

Você foi campeão inglês, europeu e mundial em 2008.

Todo mundo teve problemas com o fuso horário [por causa do Mundial de Clubes da FIFA no Japão], mas eu fiquei de boa. O técnico me disse que eu jogaria nas duas partidas. Ele disse que provavelmente pegaríamos uma equipe sul-americana na final e que precisava da minha experiência. O primeiro jogo foi contra um time japonês [Gamba Osaka]. Um inferno! Eles eram muito rápidos, estavam em todos os lugares.

Depois pegamos uma equipe equatoriana [LDU de Quito]. Vidic foi expulso, mas o Wayne Rooney marcou. Ele era incrível. Quando estava com raiva, ele jogava muito. Acho que as pessoas na Inglaterra precisam dar um pouco mais de carinho ao Rooney, precisam protegê-lo mais. Ele marcou muitos gols pela seleção da Inglaterra e pelo United. É um jogador muito respeitado no Brasil. Ele tem fama de ser um inglês louco, mas na verdade é um cara adorável, uma pessoa doce.

O time do Manchester United na temporada 2007-08 era mesmo tudo isso?

Nossa equipe era tão boa que ninguém queria parar de treinar. A gente ia para o vestiário já pensando no próximo dia. Eu começava a treinar cedo, era muito divertido. Todo mundo se dedicava 100%, todo mundo gritava. Às sextas-feiras, nós jogávamos nove contra nove. Era um jogo disputado, uma verdadeira luta. Os treinadores escolhiam o time, a gente jogava em meio campo.

Não havia espaço, ninguém podia errar. A gente ficava p... da vida quando nossa equipe perdia, os outros jogadores queriam nos matar. Mas nós éramos amigos, um monte de caras de vários países jogando nessa equipe incrível. Ríamos muito nas viagens de ônibus para os jogos.

O que deu errado contra o Barcelona, na final da Champions League de 2009, em Roma?

Começamos bem e criamos chances de marcar. Eles tiveram uma oportunidade e marcaram. O Barça tinha uma equipe fantástica: Messi, [Samuel] Eto'o, Xavi. Eu joguei bem, mas isso não foi o suficiente contra o Barcelona. Eles tinham três meio-campistas, nós só tínhamos eu e o Carrick. Sempre havia um terceiro jogador, com Messi vindo de trás.

Você começou a sofrer com as lesões.

É verdade, mas não posso reclamar muito. Foi uma época ótima [no United]. Eu estava muito feliz. Houve muita inveja, mas eu ganhei tudo. Os números não mentem: quatro títulos, três finais da Champions League, ganhamos copas em Wembley.

Fiquei no banco na final da Champions League de 2011 contra o Barcelona, mas marquei dois gols na semifinal contra o Schalke. Estava pronto para entrar outra vez na disputa de pênaltis, mas respeitamos demais o Barcelona naquela noite.

Aí o City começou a crescer na Inglaterra...

Quando eles ganharam a liga no último minuto [em 2012] foi um dia horrível para o United. Eles tinham bons times, mas os nossos eram melhores. Quiseram o [Dimitar] Berbatov, mas ele veio para o United. Depois tentaram o [Robin] Van Persie, mas ele também veio para o United. Robin era um cara sensacional, até parecia brasileiro, não um jogador holandês. Marcou gols incríveis.

Como você se sentiu quando o Ferguson disse que iria sair?

Fiquei muito chateado. Todo mundo ficou chateado. Naquele momento eu sabia que o Manchester teria alguns problemas. O Patrice Evra me disse: "O United não vai mais ser o mesmo". Eu abracei o Ferguson e agradeci. Depois eu disse: "Chefe, fique um pouco mais, por favor". "Ando, tenho que sair", disse ele.

Foi quando o David Moyes chegou...

Ele é um cara muito legal, mas foi difícil para ele. Seria difícil para qualquer um depois do Fergie.

O que deu errado para você naquele momento?

Eu precisava jogar, já tinha 25 anos, não 21. Fui emprestado à Fiorentina [em janeiro de 2014]. A cidade é linda e o clube é ótimo, Florença tem uma qualidade de vida incrível. Chegamos na final da Copa da Itália.

Depois voltei para o United e o [Louis] van Gaal chegou (Anderson balança a cabeça). Eu respeito o Van Gaal, mas o futebol mudou e ele ficou para trás. As instruções dele eram ultrapassadas, mesmo nos treinos. Ele parecia um robô. Eu decidi sair. Disse ao Van Gaal que queria sair. Ele respondeu que não havia problema.

Eu estava saindo de um clube que já não era o mesmo. O clima tinha mudado, os jogadores estavam saindo. Como ele deixou um jogador como o Di Maria ir embora tão rápido? Ele é um jogador extraordinário. Van Persie também perdeu o encanto. Todos começaram a dizer: “Nós vamos embora". A filosofia de Van Gaal já não funcionava. É difícil esse jogo robotizado funcionar na Premier League: passar, passar, passar.

Ainda assisto aos jogos do Manchester United. Às vezes fico nervoso, mas acredito que as coisas vão melhorar. O time tem grandes jogadores, como [Romelu] Lukaku, [Paul] Pogba e o De Gea, que é incrível. É por isso que o Jorge Mendes é tão bom, ele acreditou no De Gea quando os outros tinham desistido.

Fico feliz pelo De Gea, um cara divertido. No final dos treinos eu sempre pedia para ele ficar um pouco mais comigo treinando faltas e ele nunca recusava. Ele vai ser o melhor goleiro do mundo, provavelmente já é.

O que você faria diferente se tivesse outra oportunidade no United?

Eu me protegeria mais, seria mais cuidadoso com as lesões. Mas não tenho arrependimentos. Adorei jogar no Manchester United, de verdade. Posso contar aos meus filhos que ganhei quatro vezes a Premier League.

Qual foi a reação da torcida do Grêmio quando você foi jogar no Inter?

Ficaram tristes, mas eu saí do Grêmio pela porta da frente, não me escondi. Fiz muito pelo Grêmio e ainda deixei dinheiro no caixa quando fui para a Europa. Nunca fui vaiado.

Meu primeiro ano depois de voltar ao Brasil foi bom, fiz muitas assistências. O segundo ano foi mais difícil, a equipe acabou rebaixada. Mas agradeço ao Inter por ter me dado a oportunidade e agradeço ao Coritiba, onde joguei na última temporada.

Quais são os planos para o futuro?

Tenho ainda três ou quatro anos pela frente. Depois disso, quero estar com a minha família. Tenho cinco filhos, três meninas e dois meninos. Sou amigo das mães deles. Quero estar perto de casa, para relaxar.