Por que não fazer história de novo?
É com esse pensamento que o Macclesfield, um time semiprofissional da sexta divisão inglesa, vai entrar em campo contra o Brentford, sétimo colocado da Premier League, nesta segunda-feira (16). As duas equipes, de realidades tão distintas, vão se enfrentar às 16h30 (de Brasília), pela quarta fase da Copa da Inglaterra, com transmissão ao vivo no plano premium do Disney+.
O palco do confronto será o modesto Leasing.com Stadium, conhecido como Moss Rose. Foi nesse mesmo estádio que, no dia 10 de janeiro deste ano, pouco mais de 5 mil torcedores lotaram as arquibancadas e viram o inacreditável acontecer na fase anterior: o Macclesfield, dono da casa, eliminou o Crystal Palace, atual campeão da competição, com uma vitória por 2 a 1.
O time de atletas que precisam dividir o futebol com outras profissões superou todas as expectativas. Sob o comando de John Rooney, irmão mais novo da lenda inglesa Wayne Rooney, a equipe quebrou uma marca que durava 117 anos. Tudo isso dias após uma tragédia que matou um companheiro de time de apenas 21 anos.
A missão (quase) impossível
A Copa da Inglaterra, também chamada de FA Cup, reúne 747 equipes. É normal que boas histórias sempre apareçam. Um cenário perfeito para equipes menores buscarem momentos de glória.
Quis o destino que o Macclesfield, da cidade homônima de cerca de 50 mil habitantes, fosse o responsável por uma das maiores zebras já vistas no torneio -- algo que era impensável quando o sorteio colocou o Crystal Palace no caminho.
A última vez que um clube de fora da liga profissional havia eliminado um atual campeão foi em 1909, quando o próprio Crystal Palace superou os Wolves.
O Macclesfield treina dois dias por semana. A maioria dos jogadores têm um outro emprego, como professor de educação física e até empacotador. Alguns ganham 250 euros (cerca de R$ 1.500) por semana.
Pela diferença financeira e estrutural, uma classificação era considerada quase impossível. Mas a equipe se acostumou a superar adversidades.
A perda do companheiro
Era 17 de dezembro de 2025 quando a notícia chegou: o atacante Ethan McLeod, de 21 anos, morreu. O jovem não resistiu a uma colisão do carro contra uma barreira em uma rodovia perto de Northampton.
O Macclesfield havia enfrentado o Bedford Town e o jogador decidiu não voltar com o ônibus da equipe. Ele morava em Wolverhampton e preferiu ir de carro.
O ônibus do clube, no trajeto de volta, pegou um congestionamento de cerca de três horas. Eles não sabiam que a causa do trânsito era justamente o acidente que vitimou o companheiro de clube.
“Ethan era um membro incrivelmente talentoso e muito respeitado do nosso elenco principal, que tinha toda a vida pela frente. Sua personalidade contagiante o tornou querido por todos com quem teve contato”, anunciou o Macclesfield. “A notícia devastou todo o clube, e nenhuma palavra pode expressar a imensa tristeza e o sentimento de perda que estamos vivenciando”.
Os jogadores foram ao clube, se reuniram em uma sala e choraram.
Ethan estaria orgulhoso
É difícil recuperar a força depois de uma tragédia, mas os jogadores do Macclesfield entenderam que era necessário. Foram apenas 25 dias entre o acidente fatal e o início do duelo contra o Crystal Palace. Da resiliência à glória, eram apenas 90 minutos.
O relógio marcava 42 do primeiro tempo quando Duffy Luke cobrou uma falta da intermediária em direção à área. Paul Dawson subiu mais alto do que a defesa e cabeceou. A bola, caprichosa, entrou no canto do goleiro Walter Benítez. O placar foi inaugurado: Macclesfield 1 x 0 Crystal Palace.
No intervalo, a euforia tomou conta do vestiário. Mas era preciso calma.
Na volta para a etapa final, o que era improvável ficou ainda mais palpável. Eram quase 15 minutos de segundo tempo quando um chute veio de fora da área, meio fraco e sem direção, e Buckley-Ricketts teve a esperteza de levantar a perna e deixar a bola acertar o seu calcanhar. Foi um lance que ficou na linha tênue entre o "sem querer" e o golaço. A bola caminhou lenta para o gol. O goleiro, pego no contrapé, se esforçou, mas não alcançou.
Os jogadores do Macclesfield cravaram: é como se Ethan tivesse empurrado aquela bola. Ele estaria orgulhoso.
Aos 44 minutos, Yéremi Pino cobrou uma falta com perfeição, da entrada da área, e diminuiu para o Crystal Palace. Só que o placar não mudaria mais.
Depois de sete minutos de acréscimos, o juiz apitou e confirmou a vitória do Macclesfield por 2 a 1. Tão logo o jogo acabou, os torcedores não se contiveram e invadiram o gramado.
Os jogadores viraram heróis em meio à multidão.
Uma conquista de um Rooney
A primeira pessoa a aparecer na transmissão da televisão após o triunfo contra o Crystal Palace foi John Rooney. O irmão mais novo de Wayne, que brilhou no Manchester United e na seleção inglesa, tem 35 anos.
John também foi jogador de futebol. Começou a carreira justamente no Macclesfield, em 2008. Após rodar por diversas equipes inglesas, voltou para casa para se aposentar ao fim da temporada de 2024/25.
Pouco mais de um mês após pendurar as chuteiras, assumiu o cargo de treinador.
Dias antes de enfrentar o Crystal Palace, John Rooney parecia prever. "Vai ser um dia especial e eu acho que os torcedores merecem isso, por tudo que nos dão".
A primeira parte da missão foi cumprida. O desafio agora é o Brentford.
O Macclesfield mais uma vez vai entrar em campo sem pressão e sem obrigação, mas certamente com um desejo: o de seguir fazendo história. Por que não?
