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Real Madrid, seleção brasileira, Manchester City? Qual o trabalho mais difícil para os técnicos no futebol mundial

Qual o trabalho mais difícil para um técnico de futebol atualmente? Getty Images

Há poucas coisas mais certas no futebol do que a troca de técnicos. Há clubes que buscam pela estabilidade, investem num bom salário e bancam uma mesma pessoa por várias temporadas. Há outros lugares que demitem treinadores mais de uma vez no ano. De qualquer forma, fato é que os comandantes táticos frequentemente estão à procura de emprego.

Frente a essa realidade, é possível levantar uma discussão: caso um técnico recém demitido esteja a procura de uma nova casa, qual o melhor emprego possível para ele? E qual o pior?

Para responder essas perguntas, é preciso primeiro lembrar de um dilema importante no mundo dos treinadores: eles podem assumir o comando de um clube ou de uma seleção, e cada uma dessas opções apresenta desafios e benefícios diferentes.

Em um clube, a tendência é que você ganhe mais, mas em compensação seu trabalho é mais frenético e você corre mais riscos de ser demitido. A seleção, por outro lado, não permite que você desenvolva jovens talentos ou empregue ideias táticas mais complexas, mas ela também traz uma estabilidade muito maior ao treinador.

Levando tudo isso em conta, o ESPN.com.br reuniu abaixo a lista dos melhores e piores trabalhos para um técnicos entre as principais ligas europeias e seleções. Mas como decidir quem entra nesse top-25?


Como os classificamos

Como de costume, é melhor apostar no simples quando se definem os critérios de classificação, que são três para essa lista, todos ponderados igualmente: (1) Quanto o treinador ganha? (2) Quão estável é o emprego? E (3) quão talentosa é a equipe?

O primeiro será baseado em relatórios sobre os salários atuais de vários treinadores, além de algumas estimativas necessárias. Não é um método perfeito para precisar as informações, e é por isso que ele é avaliado igualmente com as outras duas variáveis.

Já a estabilidade se baseia em quantos treinadores diferentes dirigiram pelo menos 10 jogos na equipe nesta década. E para talento disponível do elenco, o parâmetro será as avaliações de mercado do Transfermarkt.

O ranking reúne 25 equipes, que foram selecionadas da seguinte forma: os "Seis Grandes" da Premier League, os "Três Grandes" de LALIGA, o Bayern de Munique e o Borussia Dortmund na Bundesliga, os dois clubes de Milão no Campeonato Italiano e o Paris Saint-Germain no Francês, além das "nove tradicionais" seleções: Argentina, Brasil, Espanha, França, Inglaterra, Alemanha, Portugal, Itália e Países Baixos. Fechando a lista, até por serem sedes da próxima Copa do Mundo, México e Estados Unidos também entram.

Agora, chega a hora de organizá-los do primeiro - ou seja, o melhor - trabalho até o vigésimo quinto - o pior possível.


A lista:

1. Manchester City

Pep Guardiola é o treinador do City por quase 10 anos, ganha muito dinheiro e tem um dos elencos mais recheados e talentosos do mundo.

O Manchester City conta com o apoio de uma fonte basicamente ilimitada de dinheiro, e ele é gasto utilizando uma infraestrutura global massiva e profissionalizada. Para um clube que poderia se dar ao luxo de tomar decisões impulsivas e emocionais, os Citizens raramente parece fazê-lo.

Um fator que esse ranking não pode levar em conta é: o próximo treinador não terá nem o poder de Guardiola na equipe e nem a paciência que ele recebia da diretoria. Além disso, as 115 acusações financeiras do clube por supostamente violar as regras financeiras da Premier League ainda estarão pairando sobre a cabeça do novo treinador.

2. Arsenal

Esta é uma situação parecida com trabalhar no City. O salário será inferior, mas vem com a oportunidade de viver em Londres. Além disso, o Arsenal tem um elenco mais adequado para o futuro próximo.

Assim como com o City, no entanto, o próximo treinador do Arsenal após Mikel Arteta provavelmente não receberá as mais condições e regalias que Arteta teve. Ainda assim, de modo geral, esta é uma equipe rica que está disposta a - e já demonstrou saber como - gastar e não vai te demitir na primeira sequência de maus resultados.

3. Atlético de Madrid

Se essa lista fosse dividida em níveis - a famosa tier list - este seria o fim da primeira prateleira, e o que demonstra o quão únicas são as situações de Guardiola, Arteta e Diego Simeone atualmente. Eles são, segundo a maioria das estimativas, os três treinadores mais bem pagos do esporte -- com o argentino em primeiro lugar. E eles são os três técnicos com mais tempo de serviço na Champions League -- com o comandante do Atleti mais uma vez à frente, agora em seu 14º ano.

Olhando de longe, o Atlético de Madrid parece o emprego perfeito: o técnico escolhido é pago mais do que qualquer outra pessoa no mundo para exercer a função, pode viver em uma grande cidade que atrai facilmente jogadores, e não precisa lidar com as expectativas absurdamente altas de gerenciar o Real Madrid. Se ampliarmos ainda mais a análise, parece ainda melhor: Simeone é um dos últimos treinadores no mundo que ocupam o papel de manager: ele tem influência sobre tudo o que acontece no clube, algo raro no futebol atual.

A questão, no entanto, é por quanto tempo mais esse modelo se sustenta? A Apollo Global Capital, uma firma de private equity com cerca de $900 bilhões em ativos, comprou o Atlético de Madrid em novembro. Será que uma empresa desse aporte vai continuar deixando um mero treinador tomar as rédeas do clube?

E-4. França

4. Inglaterra

Estas são as duas seleções mais com mais talento disponível do mundo, e é difícil ver isso mudar tão cedo. Didier Deschamps é o treinador da França desde 2012, enquanto Gareth Southgate durou quase uma década antes de ser substituído por Thomas Tuchel, que imediatamente se tornou um dos treinadores mais bem pagos entre as equipes nacionais.

O salário não é o mesmo dos principais clubes da Europa, além da experiência como um todo ser diferente: é difícil desenvolver jovens talentos ou instalar princípios táticos complexos. Mas é possível de treinar os melhores jogadores de uma nação inteira em um ritmo muito menos estressante, o que também tem seu valor.

E-6. Paris Saint-Germain

6. Real Madrid

Ambos oferecem a mesma oportunidade para qualquer técnico: ser pago uma fortuna para treinar os melhores jogadores do mundo, mas também ser demitido só porque esses mesmo atletas decidem que não gostar do treinador?

Então, esses são os dois empregos ideais.

8. Liverpool

Esse clube provavelmente ficaria mais para cima na lista se ela fosse baseada em critérios subjetivos, porque o Liverpool mostrou que estava disposto a pagar uma fortuna a um treinador como Jurgen Klopp, e eles tomam as decisões mais ponderadas de qualquer clube nesta lista. Além disso, há um histórico muito bom de funcionamento da organização do clube.

Entretanto, é improvável que eles queiram pagar a outros pessoas o que gastavam com Klopp - até por motivos de cargos, Arne Slot é meramente um técnico, e não um manager como o alemão. E ainda há uma série de interrogações sobre Richard Hughes, o diretor esportivo do clube desde 2024. Esta foi a primeira janela de transferências em cerca de 10 anos em que o Liverpool não aparentou ter um plano bem definido.

9. Espanha

A Espanha pagou a Luis Enrique mais do que está pagando ao atual treinador, Luis de la Fuente, então um nome maior ainda poderia ganhar bem treinando La Roja. Além de tudo, você pode ter cerca de 15 anos de altíssima produção de Lamine Yamal, que certamente continuará sendo uma superestrela da primeira prateleira.

A Inglaterra e a França ainda têm menos probabilidade de ter uma queda de talento entre gerações do que a Espanha, o que as coloca na frente.

10. Argentina

Treinar Lionel Messi com a Argentina parece ser a coisa mais fácil no futebol atual. Apesar de não ter histórico de alto nível como técnico, Lionel Scaloni assumiu a função desde 2018 e agora tem três grandes títulos em sequência.

Mas antes de 2018? Sem grandes troféus, muito drama psicológico e três treinadores nos três anos anteriores. Qual será a estabilidade desse trabalho quando Messi finalmente se aposentar?

11. Portugal

Ter que gerir Cristiano Ronaldo atualmente seria um pesadelo: Basicamente, é preciso encontrar uma maneira de convencer um dos atletas mais famosos e poderosos de todos os tempos de que ele precisa começar do banco ou que não pode jogar 90 minutos em todas as partidas. Depois de inevitavelmente falhar nessa tarefa, será necessário encontrar uma maneira de construir a equipe em torno de um atacante de 41 anos.

Dito isso, a federação portuguesa teve apenas cinco treinadores em tempo integral desde a Copa do Mundo de 2002, e ainda há um monte de talento esperando para ser liberado na geração pós-Ronaldo.

E-12. Alemanha

12. Bayern de Munique

Isso é puramente uma coincidência, mas a Alemanha e o Bayern de Munique obtiveram exatamente a mesma pontuação nas três categorias. Ainda assim, eles parecem ser trabalhos muito diferentes.

A federação alemã passou por uma reformulação em 2004 e é, de modo geral, uma das entidades mais progressistas do esporte. Ao contrário das equipes brutais e sombrias do passado, a versão moderna do país parece querer jogar o tipo de futebol agressivo, criativo e de posse que víamos nos clubes de mais alto nível. A nação só teve três treinadores desde 2006.

Já a situação do Bayern é mais peculiar: qualquer técnico será muito bem pago e terá um time incrível à sua disposição, mas ninguém realmente se importa se ele ganhar a Bundesliga - efeito natural de vencerem 12 dos últimos 13 títulos. Além disso, o conselho do clube está cheio de pessoas que constantemente reclamam publicamente sobre qualquer coisa que as incomode.

14. Brasil

Dos raros empregos em seleções que é capaz de rivalizar com as principais vagas em clubes, não só pela questão salarial, mas também pela pressão que significa dirigir um país cinco vezes campeão do mundo e que tem uma população exigente ao extremo.

Mas atingir as expectativas é algo praticamente impossível: quem assume o cargo na CBF tem a missão ingrata de igualar o sucesso do passado e transformar uma seleção que já não é mais o centro de talentos do mundo. Isso tudo com a obrigação de promover o "Joga Bonito" que é sempre associado à camisa verde e amarela. A missão da vez é de Carlo Ancelotti.

15. Barcelona

Embora o Barcelona tenha se estabilizado sob Hansi Flick, não é preciso olhar muito para trás para lembrar uma época em que o clube estava fazendo de tudo para contratar Robert Lewandowski e tentando envergonhar publicamente Frenkie de Jong para que ele aceitasse uma redução salarial.

Luis Enrique ganhou tudo com o Barcelona, e ainda assim os fãs o odiavam no início: Ele durou apenas duas temporadas após vencer a Champions League. Também não está claro se eles ainda podem pagar grandes salários em relação ao restante do mercado mercado para seus treinadores.

16. Tottenham

O clube pagou muito dinheiro para trazer Thomas Frank do Brentford, o que sugere uma disposição para investir dinheiro no cargo de treinador. Embora tenham tido cinco treinadores desde 2020, isso tem mais a ver com os tipos de escolhas que fizeram do que com um dedo rápido no gatilho para demissões.

Além disso, os diretores mudaram nos últimos cinco anos, e Thomas Frank deixou a equipe perto da zona de rebaixamento antes de ser demitido, o que certamente complicará a vida do substituto.

17. Itália

A Itália não venceu uma partida de Copa do Mundo desde que ganhou a final em 2006. A tendência natural de um país tão grande é que o próximo a assumir esse trabalho provavelmente terá um desempenho melhor, por natureza dos anteriores serem tão ruins. O nível de talento, no entanto, parece significativamente mais baixo do que todos os países já mencionados, e isso não vai melhorar tão cedo.

18. Inter de Milão

Enquanto diversos outros clubes dessa lista se destacam pela potencial remuneração aos técnicos, o atual treinador do Inter de Milão, Cristian Chivu, talvez seja o que tem o menor salário na Itália. E ainda assim, a equipe continua firme e parece ser facilmente o melhor time do Campeonato Italiano deste ano.

19. Estados Unidos

Muitos fãs americanos acham que este é um ótimo trabalho após alguns bilionários se juntarem para pagar ao treinador da seleção masculina dos EUA $6 milhões (R$ 31 milhões) por ano para potencialmente comandar a equipe em apenas três jogos significativos em dois anos.

Mauricio Pochettino pode acabar treinando apenas três partidas "importantes" quando a Copa do Mundo chegar. Eles não participaram das eliminatórias, já que eles serão sede do torneio, e jogaram a Copa Ouro sem sua lista principal de jogadores. Isso, é claro, é uma anomalia: ele assumiu após a Copa América em 2024, então perdeu o único torneio continental importante deste ciclo.

Se os EUA continuarem a pagar aos seus treinadores tanto quanto pagam a Pochettino, aliado às baixas expectativas relativas para a seleção americana no cenário mundial, este continuará a ser um trabalho bastante bom.

20. Milan

Apesar de Christian Pulisic servir de conexão óbvia entre os cargos de técnico dos EUA e do Milan, há duas diferenças fundamentais entre eles: no clube, você ganhará significativamente mais, mas também terá chances bem maiores de ser demitido.

21. Holanda

Por que esse emprego está atrás do cargo da seleção americana?

Enquanto existem mais chances de ganhar a Copa do Mundo com a Holanda, porque eles têm jogadores muito melhores do que os EUA, também é mais provável que você seja demitido após alguns resultados ruins enquanto recebe menos que Pochettino.

22. Manchester United

Expectativas impossíveis. Caos na diretoria. Um legado de outras pessoas que falharam no mesmo cargo. Poder financeiro reduzido. Então... por que o Manchester United não está em último lugar na lista?

A vantagem do cargo é evidente: Michael Carrick venceu quatro jogos como técnico e já é considerado um salvador por alguns torcedores. Além disso, o salário é muito bom e certamente há potencial para melhorar ainda mais. Por fim, o United, desde 2020, nem é o clube com maior rotatividade de treinadores - mesmo tendo cinco pessoas ocupando o cargo.

23. Chelsea

Essa distinção na verdade pertence ao Chelsea e aos seus sete treinadores desde o início da pandemia. E embora as coisas sejam muito diferentes sob o grupo proprietário BlueCo do que eram sob Roman Abramovich, esta é a única área em que os novos proprietários mantiveram as tradições do clube. Na verdade, eles podem até ter elevado isso a um novo nível.

Nas últimas quatro temporadas de Abramovich como proprietário, o Chelsea teve quatro treinadores diferentes: Thomas Tuchel, Frank Lampard, Maurizio Sarri e Antonio Conte. Nas primeiras quatro temporadas da BlueCo, eles já estão no sexto: Tuchel, Graham Potter, Lampard, Pochettino, Enzo Maresca e agora Liam Rosenior.

24. Borussia Dortmund

Entre Jurgen Klopp e Thomas Tuchel, o Dortmund teve dois treinadores em nove temporadas. Nos nove anos seguintes, eles tiveram nove treinadores principais diferentes, incluindo Edin Terzic, que teve duas passagens pelo clube.

Não sendo mais um clube com uma identidade clara ou dedicação ao desenvolvimento de jogadores, a única vantagem real que resta em treinar o Dortmund é um salário decente.

25. México

Quem se interessaria por um emprego em que as expectativas são ainda mais irrealistas do que no Manchester United e no qual os jogadores não são tão bons, o salário é provavelmente a metade do clube inglês (se não menos que isso) e e ainda vem com as mesmas chances de ser demitido após algumas partidas ruins?

Envie seu currículo para a Federação Mexicana de Futebol em Toluca.


(*Tradução e adaptação: Vinicius Garcia)